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Cartas do coração

Arte: JakobT_98
Arte: JakobT_98

A enfermeira posiciona as ventosas no peito de meu pai, é hora do eletrocardiograma. Pergunto se posso ficar ao lado, na cadeira. Posso. Estar perto talvez não faça diferença alguma, mas publica o cuidado. Empodera o afeto.

Ela ajusta os botões, aperta um deles e o papel zás!, assume seu posto. Torna a checar as ventosas, inspeciona os fios. Tranquiliza meu pai e ordena, talvez pela quinquagésima vez no dia, “Agora, o senhor não se mexe”. Começa. A caneta do aparelho, em riste, vai escrevendo o que seu corpo manda. Eletrocardiograma é um ditado.

Eu gostava de fazer ditados na escola. Escrevia rápido, terminava e buscava com o olhar a professora, aguardando a próxima palavra. “Quadrado”. Ela aproveitava para fazer outras coisas enquanto ditava para a classe. Assim, dava tempo de errar, apagar, escrever de novo. Verificava as unhas, conferia o tempo lá fora. “Azaleia”. (Que, naquela época, ninguém ousava não acentuar). Caminhava até a porta, espiava o corredor e retornava. “Famigerado”. Essa era para ver quem escreveria com gê e quem botaria jota.

Meu pai obedece, está quietinho. Parece dormir. Eu também quero dormir, tão tarde. Acordado, naquele pronto-socorro, só mesmo o eletrocardiógrafo. Que segue ligeiro, traçando com determinação militar suas frases que sobem e descem. Como é que não se perde pelo caminho? Devem ser as tais linhas tortas de Deus.

Da cadeira, ouço o ronco – não do meu pai, do aparelho, que fala enquanto escreve. Como os doidinhos do sanatório, escritores dos livros imaginários da vida real. Ou será o contrário? Só sei que o exame vai ficando bonito na codificada caligrafia cardíaca. Fosse lição, meu pai tiraria nota boa.

Eu usei caderno de caligrafia. Sugerido a quem tinha a letra feiosa, nele as crianças aprendiam, na marra, a fazer letra bonita. Pena que nunca inventaram caderno de treinar, além de forma, conteúdo. Assim, as pessoas aprenderiam a escrever também coisas bonitas. A professora pedia para eu fazer a ‘barriga’ do bê bem redondinha, caprichar nas ‘perninhas’ do ême, não esquecer o ‘chapeuzinho’ nas vogais de som fechado. Letra é gente. O alfabeto é orgânico.

A enfermeira vem fiscalizar, o ditado está acabando. Vamos ver se meu pai passa de ano.

Que tanto a engenhoca rabisca no papel de pauta esquisita? O que o exame nos dirá? Se meu pai está doente, se vai ter de tomar remédio, se infartou?

Que nada. Era só seu coração escrevendo uma carta de amor para minha mãe.

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Crônica (amanhecida) de quinta

Arte: Johanesj

Para escrever uma crônica de quinta, é razoavelmente fácil. Recorra à formuleta: um personagem comum, uma ideia comum, um cenário comum. E conte tudo de um jeito comum.

Para escrever uma crônica de quarta, será suficiente acrescentar aos elementos acima uma dose de bom humor. Não há quem não sinta prazer ao ler uma coisa engraçada. “Porque de amarga, já basta a vida”, diria algum melancólico de plantão.

Para escrever uma crônica de terceira, ou terça, siga a receita: junte os itens anteriores (não esqueça o bom-humor) e some uma pequena porção de opinião. Opinião sincera, do coração, espalhada pelos parágrafos ou concentrada em um só – vai de gosto.

Para escrever uma crônica de segunda, o processo torna-se ligeiramente complexo. Além do já mencionado – bom-humor e opinião – , faz-se mister uma pitada de nostalgia. Enfie no meio do enredo uma memória infantil, uma lembrança doce, algo que acorde em seu leitor uma sensação adormecida – e querida.

Agora, para escrever uma crônica de primeira, ah. São outros quinhentos. Há que se eleger um personagem comum e fazer dele uma celebridade. Escolher uma ideia comum e vesti-la elegantemente. Definir um cenário comum, mas desses que enchem os olhos de tanta boniteza. Preferencialmente, fale do mesmo “comum” que seu leitor conhece e vive diariamente, mas que não teria condições de descrever tão bem. Pode-se, até, contar tudo de um jeito comum. E, nesse caso, bom humor, opinião e nostalgia nem farão falta.

Difícil mesmo é escrever uma crônica de sexta.

Os queridos diários

Ilustração: Shelly/Flickr.com

L. perguntou, na lata e por e-mail: o que fazer com os diários antigos?

Eu, que não sabia se ela só compartilhava a dúvida, ou se assumira que eu já os tivera, gelei. Onde estão os meus?

O primeiro diário a gente não esquece. E também não lembra onde o guardou. Foi Silvana que fez para mim, eu tinha oito anos. O caderno comum ganhou capa especial em papel camurça cor de vinho, com um arranjo de flores e trigos (por que trigo, minha irmã?), feito com aquela técnica da raspagem. Vieram outros depois, aprendi a confeccioná-los. De mesma serventia, mas sem o mesmo encanto do original.

Recheado de ilustrações, era um relatório de bobajadas pueris: o que eu fizera e como, descrições das pessoas da família, pedidos de desculpas por não ter escrito no final de semana. Como se diários fossem pessoas, carentes de apresentações e explicações. (E não são?) Aos poucos, fui acrescentando crítica aos registros. Os primeiros pensamentos de gente grande. Com que idade o encerrei? Pudesse, reviraria a casa. Agora.

Diários são feitos para serem lidos; mente quem diz o contrário. Ainda que o único leitor esperado seja o próprio autor. Queremos ser lidos por nós mesmos e a escrita é, quase sempre, o melhor dos espelhos. Diário é uma longa carta onde remetente e destinatário são a mesma pessoa. Já nasce entregue.

Diário é uma espécie de caixa-preta. As informações mais importantes do nosso voo particular estão ali, protegidas. A boa notícia: não é necessário esperar pelo dia da explosão, nem da queda, para entender o que houve e há. Basta abri-lo numa página qualquer.

O revés: diário é um dos mais cruéis instrumentos de tortura e chantagem. Se dá sopa, é abduzido. Geralmente por irmãos mais velhos ou amigos-da-onça. Com sorte, terão sua liberdade negociada. Na maioria dos casos, porém, serão devastados, varridos. Ou, em tempos de internet, escaneados e postados para Deus e o mundo ler. Deus não costuma passar as coisas adiante. Já o mundo…

E o que fazer com os diários alheios, sob nossa guarda? Resgatei os da minha mãe, entre uma mudança e outra. Acessei sua caixa-preta (tarde demais) e fiz meu inventário particular de memórias. Diários também têm dessa; sabendo que serão lidos depois, seus donos escrevem neles o que não puderam (ou não quiseram) dizer em vida. Ainda não encontrei um jeito de dizer a ela que tudo ficou e sempre ficará bem.

***

Quanto à L., direi-lhe, assim que possível: o melhor a fazer com os velhos diários, querida, é nada. Próprios ou não, eles não precisam mais de nós, nem nós deles. A partir da última palavra publicada na última linha da derradeira folha em branco, não estamos mais no controle. Eles mesmos darão um jeito de sumir. E, mesmo destruídos, é bom que se saiba: suas histórias já foram impressas no imorredouro do tempo.

Vida e morte de uma redação

Ilustração: Darlene Carvalho/Flickr.com

Começo assim: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento tolo”. Paro e leio o que acabo de escrever. Já vi vento fresco, mas tolo? Troco por ‘bom’. Continuo: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade”.

Carece agora explicar o que aconteceu. Falar, de modo breve e econômico, sobre o rapaz da história, que não era fresco, nem tolo, nem bom, mas que abandonara a mocinha, narradora, na véspera de seu casamento. Devo ser ousada nesta hora, o enredo é batido. Pior: não sei direito o que uma mulher sente numa hora dessa. Rôo as unhas e rascunho no canto da página: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite assustadora fria [assim ficou melhor] me acompanhar”.

Até que está bonito. Bem ao gosto da melancólica professora que, dizem, terminou com o namorado. Vai chorar até. E eu ganho nota máxima. Ou um zero bem redondo, dependendo do estágio do luto. E do nível da caixa de lenços de papel em cima da mesa. Meia hora para entregar. Vamos lá, força na caneta.

“Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite fria me acompanhar. Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando numa eterna contradança no salão das nossas vidas, agora me via condenada a um triste solo”.

Agora ficou meio bobo. ‘Salão das nossas vidas’?

“Então ele se foi (…) Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando num eterno pax de deux, agora me via condenada a um triste solo”.

Faltam dez minutos. Eu deveria ter escolhido outro tema. Bomba atômica, Copa do Mundo, Rock in Rio. Não sirvo para escrever histórias românticas. Como é que eu saio dessa?

A morte há de resolver a parada. Mato todo mundo: ele num acidente de carro; ela, de bala perdida. Tudo numa prosa bem parnasiana. Vão os dois para o quinto dos infernos, e eu me livro, em três linhas, de perpetuar a bobajada.

Passo a limpo, entrego a redação, não encaro a professora. A caixa de lenços está vazia. Danou-se.