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Alô, doçura

– Ensina-me a viver.

Não, não é o filme que conta a história de amor entre Maude e Harold, sessenta anos mais novo que ela. Sou eu, conversando com o pacotinho de açúcar. Ele – o pacotinho – tem sempre uma dica imperdível para melhorar a minha vida e os meus relacionamentos. Refinado, ele sabe o que devo fazer para chegar lá. Alô, doçura: você não sabe da missa, a metade.

Tem um que diz “Saia mais com seus amigos”. Mas não há nenhum que fale “Arrume uma babá”, “Trabalhe menos” ou “Deixe de ser preguiçosa”.

Outro, mais orgânico, garante que “Um simples sorriso muda tudo”. Eu digo que um bom palavrão, dos cabeludos, também.

Os pacotinhos do bem-viver são a versão moderninha da ditadura da felicidade. Cinco gramas de teoria industrializada, com uma galeria de frases de efeito compradas prontas. É a psicologia de varejo, bem intencionada, adoçando seu café.

Em alguns, faltam complementos que o pessoal do marketing esqueceu de colocar. “Elogie mais, com cuidado para não se tornar um baba-ovo profissional”. “Plante um futuro melhor, e comece por saber como foi que deixaram este açúcar tão branquinho”.

Há ainda as sandices plenas, que vão do “Diga menos não” (não válido para quem tem filho pequeno da pá-virada) ao duvidoso “Invente menos problemas”. Ou seja: inventar pode, mas sem exagero. Um por dia está bom?

Para terminar, tem o “Viva intensamente”. Pago bem para quem definir, com razoável coerência, que diabos, afinal, é viver intensamente. Se é fazer bungee-jump na Rio-Niterói ou dormir o dia todo. Ficar com as crianças em casa nas férias ou se mandar para um retiro no Nepal. Comer doze Danetes de uma vez ou ler a obra completa do Manoel de Barros.

Quem segue à risca os mandamentos dos pacotinhos de açúcar é, para dizer o mínimo, um chato de galochas.

A vida é doce, mas costuma vir com defeito, acessórios que você não pediu, e não dá para trocar. É um pacote, ou pacotinho, completo.

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Forever young

Ilustração: Tom Vroman, em “Alexander”, de Harold Littledale

Primeiro desceram, uma a uma, as oito cadeiras. Em seguida, o aparador. Por fim, a mesa de jantar. Do caminhão, o moço preto de camiseta branca coordenava, Cuidado! Mais para a direita.Na calçada, seus colegas obedeciam. Exaustos. Logo as dez peças se reuniram na sala, recém-pintada para receber os novos moradores. A empregada quis adiantar o serviço e arrancou o plástico de uma das cadeiras, revelando o azul vivo do veludo. O brado retumbante da dona da casa ecoou: Não! Não tira!

Há certa esquisitice em quem não tira o plástico das coisas. Em quem deseja manter tudo igualzinho como veio da loja. Para não sujar. Durar mais. Deixar tudo com cara de novo. Plástico é o creme anti-idade, o Botox da mobília. Suaviza as rugas no tecido da chaise. Corrige os sinais do tempo no couro do sofá, destruindo as pegadas de quem descansa sobre ele. Retarda o aparecimento das linhas de expressão na camurça da poltrona e desfaz o contorno da bunda que repousou ali há pouco. O plástico apaga o passado, neutraliza o presente, evita o futuro.

Assim como teme gastar o móvel que comprou, o sujeito que faz isso – não raro, mulher, como a da história – receia gastar a vida. Usa, mas não abusa. Nunca deita, muito menos rola. Está sempre com um anteparo entre si e a diversão, o risco, a aventura. Teme contato e relacionamento, ainda que com um estofado. Jamais vive, plenamente, o que conquistou. Não quer a mortalidade nem para si, nem para aquilo que o cerca. Não sabe que tudo carece envelhecer. É econômico, dos produtos de limpeza às sensações. Está protegido.

Quem age assim com os móveis costuma estender o capricho pela casa inteira. É aquela pessoa que tem pano de prato novinho na gaveta e só usa os velhos, surrados, que a faxineira, vira e mexe, confunde com pano de chão. Que tem pratos lindos escondidos na parte mais alta do armário e só faz as refeições no velho Duralex. Inquebrável, aliás. Que envolve em filme plástico o teclado do computador. Que adora uma capa: na máquina de lavar roupa, no controle remoto da TV, no carro, no celular. Que deseja, enfim, a juventude eterna dos objetos. A todo custo.

Recomposta do pito, a empregada ainda tentou devolver os farrapos plásticos ao assento da cadeira mutilada. Tímida, deu a ideia. Aquela ali poderia ficar no canto, perto da quina da parede, que é onde as pessoas se sentam menos. A patroa topou na hora.