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Uma letra

letra-c

Precisei trocar meu e-mail.

E silmarafranco@ já tinha dona. A homônima chegara antes de mim. Tentei inverter, francosilmara. Também já tinha. Só as iniciais? Também não deu. Como é gratuito, e cavalo dado não se olha os dentes, não houve muito o que fazer. Não teve ponto, underline ou hífen que resolvesse. A sugestão do programa foi acrescentar números ao nome. Não tenho simpatia por endereço eletrônico alfanumérico, fica parecendo senha. Silmara Franco 49, para combinar com a idade? Silmara Franco 2017, inaugurando o ano novo? Não faria bonito no cartão de visitas. No desespero, dobrei uma letra do meu sobrenome, que passou a ter dois cês.

Ficou ridículo.

Meus antepassados devem estar fazendo panelaço em seus túmulos. Alterei a dinastia, rompi a herança. A Franco diferentona. A metida a besta.

E ainda compliquei a vida: cada vez que vou dar o endereço, preciso avisar, “Com dois cês”. Os que já me conhecem ficam surpresos, “Não sabia que era assim!”. Conto a história. Explicar e-mail, tatuagem e piada é o fim. E tem sempre alguém que pergunta se foi por causa da numerologia.

Por que não? Quem sabe, concluo que um C a mais fará toda diferença. Que era isso que faltava para eu vencer na vida, ser uma pessoa melhor, atrair coisas boas, nunca mais pegar nem gripe. Por outro lado, posso descobrir o motivo para andar distraída, esquecendo as coisas, perdendo compromissos. Será melhor trocar o i por y? Sylmara.

Sei que é bobagem. Endereço de e-mail é como número de telefone hoje: ninguém mais presta atenção ou decora o telefone das pessoas. É só tocar no nome na agenda eletrônica, ou dizê-lo em voz alta que o aparelho faz a chamada sozinho. Ou seja, ninguém, efetivamente, vai reparar nos dois cês; meu nome de remetente/destinatário permanecerá o original de batismo. Sei disso.

Cogitei enviar e-mails para minha(s) xará(s) e barganhar. Pagar para ter um domínio exclusivo. Inventar pseudônimo.

O que uma letrinha não faz com a gente.

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Você recebeu uma nova mensagem

arte: Pierpaolo Limongelli
arte: Pierpaolo Limongelli

Dei para enviar mensagens para mim mesma. Pelo e-mail, Messenger, Voxer ou o aplicativo que estiver à mão. Pequenos lembretes, escritos ou orais, para quando a agenda (de papel; sim, eu uso agenda de papel) não está por perto, ideias para textos, links de coisas interessantes para ver depois, não esquecer de fazer isto, aquilo e mais aquilo outro. Entupo minha própria caixa postal. Tenho mais mensagens de mim para mim que dos amigos. Qualquer hora, endoideço de vez e me respondo.

“Olá! Tudo bom? Recebi a mensagem. OK, buscar o resultado da mamografia na sexta”.

“Gostei do tema da próxima crônica, sobre o hábito inconfesso e incontrolável de espiar o que os outros passageiros estão lendo ou assistindo no avião”.

“E aí, o marceneiro foi?”.

Tem gente que fala sozinha com um interlocutor imaginário. Tem gente que fala consigo sozinha. E tem gente que registra o diálogo. Ou seria monólogo?

No mundo caetano – “Quem lê tanta notícia?” – eu me pego doente, padecendo de um não-dar-conta de absorver tanto conteúdo e lembrar do que precisa ser lembrado, ainda que sejam tarefas básicas do dia-a-dia. A escrita, desta vez não por motivos literários, vem para me salvar. Recorro à tecnologia que, nesse caso, assim como a fé, não costuma falhar.

Dou enter na automensagem e logo vejo a notificação: “visualizada”. Posso dormir sossegada. No dia seguinte, checo as mensagens-missões. Se as cumpro, são outros quinhentos.

Por outro lado, mando tantas mensagens para mim, que vou acabar me ignorando, me apagando sem me ler, me bloqueando, tal faço com os spams. “Ih, lá venho eu de novo”.

Triste fim!

Fwd:

Arte: Amédée Forestier

Amigo ou parente assim, todo mundo tem. Você recebe a notificação, chegou e-mail do Fulano. Pensa: desta vez ele, ou ela, vai contar novidade. Casou, mudou de emprego, vai ter bebê, descasou, fez matrícula na pós, está pensando em largar a engenharia e sair por aí fotografando passarinho. Ou, quem sabe, dirá apenas que está com saudades. Ingenuidade sua. Ao bater o olho no Fwd: do assunto, já sabe: mais um forward. O décimo da pessoa – esta semana.

Você pausa o olhar na tela, avaliando se convém bloquear o amigo de uma vez por todas. Afinal, nem sempre foi assim, mas de uns tempos para cá ele nunca escreve para saber como vão as coisas, se você passou no concurso, como foi a sua cirurgia, se você ainda tem o telefone daquele homeopata. Não, ele não quer saber de nada. Seu prazer é encaminhar, ao infinito e além, tudo que recebeu por e-mail. É fissurado no repasse, viciado em retransmissão. Sem se dar conta que, assim, a amizade entre vocês ruma a uma espécie de backward. O amigo virou spam.

Então, você lembra: passou seu aniversário e ele não se manifestou (embora conhecedor da data, a mãe e você são do mesmo dia). No rátimbum dele, porém, você sempre dá um jeito e manda o alô por e-mail, que a vida é mesmo corrida. (Mas não precisa ser maratona.) Ele ignora e, dia seguinte, nova missiva coletiva na sua caixa postal. Alertando sobre novo golpe na praça. Golpeada, na verdade, fica a relação de vocês. Polícia!

Responder para um mandador de forward é monologar, falar com paredes sem windows. Ele não responderá, ocupado demais em seu espetáculo-solo. Fwd: é bom; Fwd:Fwd: é sensacional; Fwd:Fwd:Fwd: é a catarse. Para ele, compartilhar é preciso; viver não é preciso. Sem assunto, ele conta com os assuntos dos outros. Tem um milhão de amigos e nenhum. Quer ser lido, mas não acessado.

A solução para o caso não é empurrar a situação com a barriga – nem backward, nem forward. É na base do stop mesmo.