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Prometeu e os meninos acorrentados

"Prometheus Bound 1610-11", Peter Paul Rubens, óleo sobre tela

Não foi uma. Nem duas. Nem três vezes que li nos jornais: mães acorrentam seus filhos adolescentes em casa. Maus tratos? Nada disso. Sem saber onde e como buscar ajuda, elas agem assim, primeiro, para proteger sua cria: seus meninos, usuários de crack, estão ameaçados. Se saírem às ruas, talvez não voltem. Segundo, para se proteger: no ápice da crise, eles fazem qualquer coisa para conseguir o que seus corpos pedem. Vale tudo: vender a TV, o aparelho de som, matar o pai, a mãe e quem mais atrapalhar seus planos. Já que é assim, a única saída são as correntes.

Certa vez, no Olimpo, um titã chamado Prometeu enfureceu Zeus, o deus dos deuses. Só porque ele havia tirado dos céus o fogo, dando-o aos homens, garantindo-lhes a supremacia sobre os demais seres. Aliás, foi ele também quem lhes ensinou as coisas sobre a civilização, a liberdade, as artes, a cultura. Mas o episódio do fogo tirou Zeus do sério. Como castigo, ordenou que Prometeu fosse acorrentado a um penhasco. Ali, dia após dia, um enorme abutre lhe devorava o fígado, que se renovava, e lá ia o abutre de novo. Ao fim, salvou-lhe Hércules que, inconformado com a injustiça, com sua força abateu a ave e libertou o titã.

Ao contrário de Prometeu, que tolerou e resistiu ao sofrimento imposto, em nome da liberdade e do conhecimento que o fogo proporcionara à humanidade, os acorrentados do crack não sabem o que é uma coisa, nem outra. Sua liberdade é de mentirinha, sem valor, trocada na esquina. Quanto ao conhecimento, esse lhes faltou logo de cara, no ‘sim’ do primeiro negócio feito, na mesma esquina. Isso porque aqui também existe o Olimpo com seus deuses, preocupados em manter o fogo sob controle e só para si.

Mas os meninos têm o crack, impiedoso abutre de pedra, a lhes bicar não só o fígado, mas todos os órgãos. A eles, restam as mães desesperadas que, tal como Hércules, tentam resolver a parada como dá.