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Somente o indispensável

“Silence”, Ricardo Lago

Fez sinal, apertou forte os cadernos contra o peito, subiu.

No primeiro banco, o rapaz de moletom cerzido na manga (dava para ver) levantou, ia descer no próximo ponto. O lugar, por direito geográfico, agora era seu.

Sentou, ajeitou os cadernos no colo. Alinhou os espirais feito escadinha. Com os dedos, brincou de subir e descer os degraus de arame.

Procurou, como fazia todos os dias, distração para os próximos dez minutos. Desistiu de contar quantos passageiros usavam calça e quantas estavam de saia. Fizera isso antes de ontem. Também não quis repaginar, mentalmente, os cabelos das mulheres, todos tão parecidos. Buscou inspiração no motorista. Mas não nos seus sapatos lustrosos, nem no relógio verde (tão familiar) destacado no braço gordo e branquelo. Na plaquinha colada no para-brisa, leu o aviso: “Fale ao motorista somente o indispensável”.

Quis, então, ir até ele e dizer: ela não havia colado na prova, como acusara maliciosamente o professor de química. Era indispensável deixar isso claro.

Assim como era indispensável dizer que sim, desconfiou da vizinha pela manhã, quando ela respondeu que não havia visto Mussum, seu gato. Da outra vez, ela também dissera que não vira o Pelé, e Pelé apareceria envenenado no dia seguinte.

Dizer que sentia saudade da avó, especialmente na Semana Santa, também era indispensável. Todos os anos, ela furava, escorria e decorava alguns ovos das galinhas da chácara, depois os colocava numa caixinha de Catupiry enfeitada com paninhos estampados e presenteava as cinco netas.

Mas ela não estava acostumada a falar as coisas indispensáveis, por considerá-las dispensáveis.

Não falava para o dono da banca que sonhava trabalhar ali, com ele, um dia, quem sabe.

Não falava para a mãe que não gostava de peixe, e a mãe seguia achando que ela gostava, caprichando na moqueca toda sexta-feira.

Não falava nunca para o treinador que sua cabeça latejava quando jogava vôlei no colégio, e continuava jogando até o final.

O ônibus entrou na avenida. Ela juntou os cadernos, fez sinal, seu ponto era o próximo. Já na porta, resolveu, assim de sopetão, falar ao motorista o que soaria incrivelmente dispensável: “Tenho um relógio igual ao seu”.

O motorista olhou o braço e sorriu, orgulhoso: “Ganhei do meu caçula, de Dia dos Pais”.

O indispensável – ela filosofou – se traveste de dispensável só para nos testar.

A porta se abriu, ela apertou forte os cadernos contra o peito, despediu-se e desceu.

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