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Do direito à reclamação

arte: Iv

Fato um: o mundo está melhor agora do que antes.

Fato dois: o mérito é dos reclamões.

Não fosse a reclamação, prima da insatisfação, ainda estaríamos assando peixes em fogueirinhas improvisadas nas mal iluminadas cavernas pré-históricas. Não fosse a Rosa Parks reclamar, negros ainda teriam de oferecer seus lugares aos brancos, nos ônibus norte-americanos. Por aqui, permaneceríamos sofrendo com as festas do vizinho até às quatro da manhã, pois não haveria lei do silêncio. Nem Procon. Pior que tudo isso junto: continuaríamos precisando de abridor para a lata do Leite Moça.

Pessoas cordatas não fazem revolução. Gente boazinha não muda a história. São os reclamadores que movem o mundo, meu bem.

Assim como não há guerra sem sangue, não há evolução sem chororô.

Reclamar pode ser verbo transitivo direto, indireto e até intransitivo, dependendo do contexto. No gerúndio ou no subjuntivo.Tanto faz; reclamar é, no fundo, verbo fundamental. Infinitivo e infinito. E, antes de ser verbo, é instinto. O primitivo e rebelde instinto de não querer assim e querer assado – para benefício próprio ou mundial – e verbalizar essa vontade. Porque há algo comum entre a queixa por ter o cabelo enrolado e não liso, e vice-versa, e a reclamação que ponteia os protestos de um povo. É ela, sempre ela: a centelha da inconformidade, embutida no DNA humano.

Toda reclamação é legítima, ainda que não seja.

A coisa mais odiável de se ouvir, quando se está em pleno queixume, é: “Você reclama de barriga cheia”, “Tanta gente sofrendo e você aí, reclamando”. É desvalorização da reclamação alheia. Censura. Repressão. Cerceamento da liberdade. Que, ironicamente, também configura espécie de reclamação por parte do outro.

Não é porque se vive confortavelmente em uma casa com saneamento básico, energia elétrica e geladeira cheia que se está proibido de reclamar por isso ou aquilo, às vezes mais por aquilo que por isso.

Não é porque se tem saúde, filhos lindos e ar-condicionado que se está impedido de lamuriar, entre um café e outro.

Tudo estar relativamente bem na vida não cancela os direitos reclamatórios, individuais ou coletivos, silenciosos ou barulhentos.

E pode-se, sim, reclamar de algo que não se faça nada, absolutamente nada para mudar. Só para exercitar.

Eu sou amplamente grata, mas não abro mão do direito às minhas reclamações e descontentamentos gerais, ainda que rasos e de baixa complexidade. Minhas superficialidades são cheias de profundezas. E, embora a vida não tenha SAC, sigo adepta da lamúria-canção: “Mas Deus não quer que eu fique mudo, e eu te grito esta queixa”. (Ah, Caetano.)

Aceito elogios, sugestões e, por que não?, reclamações.

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Do direito à tristeza

Ilustração: Gui Machiavelli/Flickr.com

O moço publicou em sua página na internet: estava triste. Não forneceu detalhes. Tristeza de amor ou de saudade? Traçara uma feijoada inteira e ainda não digerira a culpa, ou vira um cão ser atropelado? Não conseguira pagar a fatura do cartão de crédito ou perdera o derradeiro suspiro da avó? Ninguém ficou sabendo. Em minutos, pipocaram manifestações consternadas. Preocupadas com a lacônica desolação do remetente.

Salvo parcas exceções, ninguém gosta de ver o próximo triste. (E quem gosta, não conta aos outros.) Para os que detectam o pesar alheio, livrar o tristonho daquilo que o consome torna-se, então, uma missão. Quase coletiva. Parentes e amigos – e foi aqui que entrei na história – se unem, literalmente ou não, para extirpar-lhe o objeto da apoquentação, protegê-lo da (suposta) perniciosa falta de sorriso, alimentá-lo de alegria. Todo mundo tem em si uma mãe. Pronta para colocar um bandaid na tristeza, que é um machucado da alma. Disposta a atacar a melancolia, dar conselhos, prescrever remédios, recomendar patuás, ensinar simpatias, inventar, azucrinar!, tudo para ver o triste alegre de novo. Enfim: ninguém dá sossego a um cabisbaixo. Caímos todos na armadilha da alegria eterna. Que tristeza!

A tristeza, o tal direito inalienável, tem seu revés: se o amigo a tornou pública é porque, de certo modo, pedia algum socorro. E não seria meu dever acudi-lo? Tentar animá-lo, contar piada, fazer gracinhas? O que fazer, afinal, com alguém entristecido? Toda boa ação corre riscos. E nada mais triste que uma alegria com dúvidas.

Ofereci-lhe um café forte. O que, ao menos, aquece tudo. Diz ele que aceita, mas não sei ainda para quando vai querê-lo. Não importa. A tristeza, no fundo, sabe a hora de ser feliz.