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Bom para

adaptação de "Restless Harmony", Philip Kirk
adaptação de “Restless Harmony”, Philip Kirk

Começo do mês. Pagou a mensalidade da academia usando o último cheque do talão. Preencheu-o e cruzou-o com dois traços, paralelos à perfeição, riscados a quarenta e cinco graus no canto superior esquerdo da folha. Destacou-o do canhoto e anotou, em letras maiúsculas: bom para dia 20. Sublinhou o 20, a fim de não deixar dúvida ao pessoal do contas a receber. Guardou o canhoto na carteira, a carteira na bolsa. Então, deu-se conta: ela própria vinha, ampla e geralmente, pré-datando sua vida. Há anos.

Como se tudo que planejasse, almejasse e sonhasse, ficasse sob uma espécie de etiqueta “bom para”, guardado numa pasta imaginária, esperando o dia de ser descontado. Ou vivido.

O namoro de onze anos e o casamento “bom para” depois que comprassem o apartamento. Depois que o reformassem. Depois que o mobiliassem. Depois que tivessem certeza.

O velho hobby como novo ganha-pão, “bom para” o dia em que todas as condições para tanto lhe soassem mais-que-perfeitas.

O tão desejado endereço na praia, “bom para” depois que se aposentasse.

Depois. Depois. Tantos outros depois.

Mensalidade quitada (ainda que não, propriamente), rumou à esteira. Desinfetou-a com a toalhinha umedecida de multiuso e configurou o treino daquela noite. Iniciou a caminhada a três quilômetros por hora, e o cheque pré-datado não lhe saía da cabeça. Aumentou a velocidade para quatro, cinco, seis quilômetros por hora, sem que ela, contudo, saísse do lugar. Era a mentira da esteira; ela não percorrera um metro sequer. Galopava agora a nove mentirosos quilômetros por hora. A transpiração, no entanto, era real. E a fez perceber que aquela corrida de faz-de-conta, embora condicionasse seu corpo, representava suas vontades, sempre programadas para depois. Seus planos pré-datados, assim como a esteira, em verdade não a levavam a lugar algum. Todos os “bom para” emitidos ao longo do tempo, simbolicamente, haviam se transformado em data impossível, inalcançável, com vencimento para um dia depois de nunca. Interrompeu a corrida, sua respiração era ofegante, a testa líquida.

No vestiário, olhou-se no espelho. Então seus sonhos não tinham fundos?

Apanhou suas coisas e já ia cruzando a porta quando a recepcionista a chamou. Esquecera-se de assinar o cheque.

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Corrida

arte: Joachim Robert
arte: Joachim Robert

Quando vou às compras, gosto de apostar corrida com a pessoa do caixa – qualquer caixa – para ver se consigo retirar o cartão antes que ela diga “Pode retirar o cartão”. Tenho me saído bem. Deixo o lugar sorrindo, cantarolando “We are the champions”. É minha desordem mental recorrente, my friends.

E essa é a apoteose.

O tiro de largada é quando saco o cartão para pagar. Nesse momento já estou preparada, alongada, aquecida. A pessoa pergunta “Crédito ou débito?”, eu respondo e calculo mentalmente o tempo que ela leva para digitar os comandos (se é Visa etc.). Então, saio em disparada para inserir o cartão antes que ela termine de dizer “Pode inserir o cartão”.

Na sequência, já dona do ritmo, verifico o visor da maquininha, ganho fôlego e corro para digitar a senha antes que ela pronuncie “Pode digitar a senha”.

Enter.

Foco o olhar na tela da máquina registradora que inicia contagem regressiva, geralmente começando em 35 e, quando o tráfego de dados está bom, no 32 (em média) vislumbro “Transação aprovada”. Apanho o cartão antes que ela anuncie “Pode retirar o cartão”.

Alcanço a linha de chegada com um dedo indicador de vantagem. Não tem pra ninguém. Quase esqueço de pedir o CPF na nota.

Não pago mais nada em dinheiro vivo. E desconfio que tenha comprado mais coisas do que preciso.

Run, Forrest, run!

Ilustração: r8r

Se o bonitão com quem você está saindo perguntar se você curte o som do “Simple” Red, corra. Simplesmente. E, se o mesmo bonitão lhe convidar para um “jantar harmonizado” no “espaço gourmet” do apartamento dele, corra também. OK; tome uma taça de vinho antes. Depois, se mande.

Se o pediatra do seu filho afirmar que você deve levar o pequeno de volta à cama dele, a cada vez que ele vier para a sua, de madrugada, corra.

Se na hora de contratar alguma coisa, qualquer coisa, alguém lhe disser que tem um “serviço diferenciado” e você contará com uma equipe “altamente qualificada”, corra.

Se ao negociar uma proposta de trabalho você não vá ser remunerado, mas terá “muita visibilidade”, corra.

É como diz a Jenny ao Forrest Gump, no filme: quando o perigo desponta, o melhor é dar no pé, cair fora, se pirulitar. Também vale para a chatice. A fuga salva.

Se o mote da campanha do candidato a deputado prometer “pulso firme” ou “um novo jeito de fazer política”, corra. E, se o nome dele for algo como “Paulo da Farmácia” ou “José do Açougue”, nem adiantará correr. Anule.

Se seu cabeleireiro tentar lhe convencer a fazer um corte igual à não-sei-quem da novela não-sei-qual, corra. Se tentar lhe empurrar uma progressiva “sem química”, idem. Aliás, o que você está fazendo nesse lugar?

Se a clínica de estética oferecer lipoaspiração sem cirurgia, nem dor, corra. Corra muito. Quem sabe, assim, você acabe não precisando fazê-la.

Se a vendedora lhe disser que aquela calça está “super na moda”, ou se lhe contar que vendeu duas, só pela manhã, corra.

Se a liquidação anunciar estupendos descontos de até 70%, corra. Para bem longe. Principalmente, se for verdade. Visando o bem, no caso, do seu bolso.

Se um pesquisador de campo ou uma demonstradora lhe abordar no shopping, jurando por Deus que são só cinco minutinhos, corra.

Da menor à maior necessidade, da micro à macromotivação, todos sabem: correr faz bem à saúde.