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Que cor?

esmalte

Nunca antes na história deste país houve tanta cor de esmalte.

Na manicure moderninha os vidrinhos ficam expostos em prateleiras embutidas na parede. Organizados por cor, formam uma hipnotizante escala Pantone e causam-me palpitações. A felicidade tem secagem ultra-rápida, meu bem.

Mamãe quase não fazia as unhas. Além da grana curta para ir ao salão e da absoluta falta de tempo, o trabalho na venda não colaborava. Moer meio quilo de café, fatiar cem gramas de mortadela, pesar um quarto de feijão, lavar dúzias de copos do bar. Mãos que não paravam nem por um minuto. Pra quê enfeitá-las, se não durariam até os fregueses do dia seguinte?

Quando dava, dona Angelina gostava de usar um tal Zazá, espécie de lilás. Às vezes, ia de Misturinha, de tom vago, indefinido. Tudo clarinho, sempre. Nunca a vi com Rebu, o sanguinolento. Lembro da pequena vitrine sobre o balcão na farmácia do Archimedes, achava lindo aqueles vidrinhos todos enfileirados. Mas criança não pintava as unhas, tirante as brincadeiras.

Faço as minhas toda semana, no salão. Um exagero, de acordo com o marido. Incompetência para a automanicure, na minha avaliação. De vez em quando, levo meus próprios esmaltes, compulsivamente colecionados a cada ida à farmácia ou ao supermercado. Assim compenso, eu sei, os flertes proibidos da infância. Guardo-os em uma caixa, e me divirto escolhendo o tom da vez.

A gente deveria poder guardar as mães em vidrinhos, também.

Enquanto lixa minhas unhas, a manicure quer saber: “Que cor você vai passar?”. Como desta vez não trouxe nenhum do meu acervo particular, avalio o círculo cromático disponível e ensaio pedir um que se chama Café, de marrom fechado e profundo. Para relembrar as vezes em que minha mãe chegava em casa à noite, depois do trabalho. Ela me abraçava e eu sentia o cheiro das suas mãos, impregnadas de pó. E cansaço.

Mudo de ideia e, ajeitando minha mão direita sobre a toalhinha branca, anuncio: “Cor de saudade”.

Da coragem

Arte: Richt
Arte: Richt

Desde que deixei de tingir meus cabelos, há duzentos e vinte e seis dias, e passei a exibi-los na cor que Deus quer – e quis Ele que fossem, na maioria, brancos – , tenho ouvido de tudo. O mundo é feito de três tipos de mulheres: as que acham horrível deixá-los à mostra, as que acham bonito, e as que acham bacana, mas não para elas.

Dos predicados a mim atribuídos por conta da atitude, “corajosa” é o que eu mais acho graça.

De tanto ser considerada uma mulher de coragem por assumir meus fios albinos, deduzi que a possibilidade de ser chamada de velha assombra as mulheres mais que o câncer de mama. A coloração está em dia. A mamografia, nem sempre.

Não foi preciso respirar fundo para dizer bye-bye às colorações que me acompanhavam há vinte anos. Tampouco tremi, pensando o que seria de mim sem elas.

Coragem, para falar a verdade, é usar salto de quinze centímetros.

Coragem é almoçar fora todos os dias, sem a garantia de que o rapaz que preparou a sua salada lavou as mãos depois de ir ao banheiro.

Coragem é desembolsar quatro dígitos em uma calça jeans. Feita do mesmo tecido, aliás, que a vendida na loja de departamentos, cuja etiqueta não ultrapassa dois.

Corajosa é quem devora a caixa de Amandita à uma da manhã. Ou quem levanta às cinco para fazer ginástica, antes de ir trabalhar.

Coragem é entrar em um prédio em chamas para salvar o bebê que está lá dentro.

Coragem é discordar, com propriedade, do presidente da empresa na frente dele e da turma do Conselho.

Coragem é topar um emprego de assistente social na região mais violenta da cidade.

Coragem é sair do armário.

Coragem é ter o terceiro filho.

Essa mulher, sim, é valente.

Assumir os cabelos brancos, perto disso, é fichinha. Sou café com leite. E, já que o assunto é branco, mais leite que café.

Eu, que de bravura tenho pouco a expor, só fiz descobrir que branco é apenas mais um tom para a gente se divertir. Mais uma opção, assim como o castanho e o vermelho, na paleta de cores da mulher possível.

Notas:

1. Eu disse que ia de branco, um dia.

2. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

Chega de cinza (be sure to wear some flowers in your hair)

Foto: D Sharon Pruitt

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nas paisagens, surpreenda. E faça como manda aquela música: “be sure to wear some flowers in your hair”.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas ao trabalho. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro emprego, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê-as de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta e setenta, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Aliás, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.