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Os sapatos novos da Cinderela

Ilustração: Silene/Flickr.com

Sábado em sol, a Cinderela saiu de casa bem cedo. Precisava de sapatos novos. Achava que os seus, de cristal, estavam meio fora de moda.

Na loja, surpreendeu-se: sapatos de todas as cores, modelos, materiais. Xadrezes, listados, de bolinhas, floridos. Altos, baixos, médios, anabelas, escarpins, plataformas, rasteiras. Sofisticados, despojados, clássicos, modernos. Todos, muito mais confortáveis que os seus. Cristal pode ser bonito, mas não é nada macio. Fica melhor em taças.

Pediu para experimentar um. O vendedor perguntou seu número, o que ela achou estranho. Olhou para os próprios pés e respondeu, confiante: “Dois.” O moço coçou a cabeça e arriscou: “Trinta e cinco.” Corrigiu o palpite, depois de um cálculo mental: “Não. Trinta e seis. Já volto.”

Enquanto aguardava, sentou-se na poltrona em frente a um enorme espelho. Olhava para seus sapatinhos refletidos. A ideia de trocá-los soou estranha. Estava a um passo, literalmente, de uma grande mudança na sua vida. Mais uma. A primeira havia sido na noite daquele baile. Com a ajuda das suas amigas fadas, ela ganhara aqueles sapatos mágicos, feitos sob medida para seus delicados pés. Agora, eles é que estavam prestes a se encaixar no que já estava pronto, existente, disponível. Como antes, enfim. (Embora essa espécie de retorno a deixasse feliz; agora a decisão era sua. ) Notou que os sapatos de cristal estavam duramente incorporados a si, como uma extensão de seus vestidos, pernas e pés. Não entendia como conseguira dançar tanto com eles, um dia. E, apesar de desejar intensamente um sapato novo, mais alegre e mais confortável, temeu não se sentir preparada para divorciar-se deles.

O vendedor desceu as escadas da loja equilibrando uma dúzia de caixas coloridas. Desabou-as na sua frente e, experiente, foi abrindo uma por uma, retirando o pé direito de cada par e os colocando diante dela. Havia ali tudo para qualquer personagem que desejasse ser. Ao contrário dos seus, que lhe conferiam eterna nobreza e perfeição, onde quer que fosse. Falante, ele comentou qual dos modelos estava vendendo mais, citou alguns desfiles da semana de moda, fez elogios, “Mas são pés de princesa!”. A cada modelo, ela se levantava e conferia tudo no grande espelho, levemente desanimada. “Não parecem ter sido feitos por uma fada”, murmurou. “Príncipe algum seria capaz de reencontrar sua amada, assim”.

Mas Cinderela estava determinada. Fez força e simpatizou com uma sapatilha azul-céu, feita em camurça. Sem salto. Uma borboleta verde-água enfeitava-lhe o dorso, ensaiando um voo. Mandou embrulhar. Aliás, melhor: já iria com elas. Seria um bom começo para abandonar aquela aparência sofisticada, porém frágil. Não precisaria mais temer trincar tudo por conta de um passo mais firme. Só não sabia como explicaria tudo ao príncipe. Ao sair da loja, teve uma ideia. Chamou o vendedor de lado: “Posso dar uma olhadinha na seção masculina?”

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