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Te amo, Caetano

Arte: Lu Arembepe

São dezoito minutos do dia novo. Eu ainda estou no dia velho, conectada às manchetes de ontem. Como um marinheiro atraído pelo canto da sereia, sigo hipnotizada pelo noticiário on-line dos quatro cantos, de todos os santos. Estou diante da minha infinita banca de infindáveis revistas. Sabe quem lê tanta notícia, Caetano? Eu.

Aprendo sete dicas de linguagem corporal para quem faz apresentações. Mas eu não tenho nenhuma apresentação em vista.

Confiro cinquenta e três famosos sem Photoshop. Concedo meu palpite mental a cada um. Gisele é Gisele.

Tenho insights a respeito da vida, da Dilma e do aspartame nos refrigerantes. Todos os assuntos se amalgamam na rede.

Respondo doze mensagens e mantenho uma no rascunho, preciso pensar. Olho de soslaio o spam, avisto: “Como enlouquecer um homem”. Já faço isso, meu bem. Basta eu levar o tablet para cama e ficar navegando pela tudosfera.

Deixo comentário em cinco postagens. Em outra, penso, mas não escrevo. Me encho de preguiça.

Curto outras doze. Na décima segunda, já não me lembro mais o que curti na primeira.

Volto a um dos comentários que fiz, edito. Assim fica melhor.

Assisto pela quinta vez o vídeo de duas ex-elefantas de circo, amicíssimas, que não se viam há vinte e dois anos. Não tenho lenço à mão; meu documento diz que eu choro à toa.

E o avião da Malásia, hein?

Ouço duas músicas antigas (não caetanas) e sinto saudade. O Google facilita a nostalgia.

A semana teve dentes, pernas, bandeiras e uma ameaça de bomba que fechou a sede do Facebook, na California. A Brigitte Bardot está no Twitter, Caetano.

Bocejo, mas não me rendo.

Há um artigo recomendado para mim. Para mim! O título diz que nós, pessoas, não precisamos escovar os dentes. Não lerei o resto e a informação residual que acompanhará meus sonhos é: não preciso mais escovar os dentes. Alegria, alegria.

Vejo imagem de uma macarronada, clico no modo de fazer. Estou sem fome, mas com telefone, no coração do Brasil.

Fico triste, Paulo Goulart morreu. Fico alegre, a cachorrinha de três patas foi adotada por uma família de Nova Iguaçu. Fiquei bipolar depois da internet.

Confiro vinte e duas notificações. Esqueci de notificar as crianças sobre as toalhas molhadas no chão. Lembro de três coisas que não posso deixar de fazer assim que amanhecer. Na falta de caneta e papel, escrevo para mim mesma no Messenger. Logo aparece: “visualizada”. Posso ficar tranquila; eu vi meu recado.

Bocejo, desta vez me rendo. Caetano, eu vou dormir.

Por que não? Por que não?

Da coragem

Arte: Richt
Arte: Richt

Desde que deixei de tingir meus cabelos, há duzentos e vinte e seis dias, e passei a exibi-los na cor que Deus quer – e quis Ele que fossem, na maioria, brancos – , tenho ouvido de tudo. O mundo é feito de três tipos de mulheres: as que acham horrível deixá-los à mostra, as que acham bonito, e as que acham bacana, mas não para elas.

Dos predicados a mim atribuídos por conta da atitude, “corajosa” é o que eu mais acho graça.

De tanto ser considerada uma mulher de coragem por assumir meus fios albinos, deduzi que a possibilidade de ser chamada de velha assombra as mulheres mais que o câncer de mama. A coloração está em dia. A mamografia, nem sempre.

Não foi preciso respirar fundo para dizer bye-bye às colorações que me acompanhavam há vinte anos. Tampouco tremi, pensando o que seria de mim sem elas.

Coragem, para falar a verdade, é usar salto de quinze centímetros.

Coragem é almoçar fora todos os dias, sem a garantia de que o rapaz que preparou a sua salada lavou as mãos depois de ir ao banheiro.

Coragem é desembolsar quatro dígitos em uma calça jeans. Feita do mesmo tecido, aliás, que a vendida na loja de departamentos, cuja etiqueta não ultrapassa dois.

Corajosa é quem devora a caixa de Amandita à uma da manhã. Ou quem levanta às cinco para fazer ginástica, antes de ir trabalhar.

Coragem é entrar em um prédio em chamas para salvar o bebê que está lá dentro.

Coragem é discordar, com propriedade, do presidente da empresa na frente dele e da turma do Conselho.

Coragem é topar um emprego de assistente social na região mais violenta da cidade.

Coragem é sair do armário.

Coragem é ter o terceiro filho.

Essa mulher, sim, é valente.

Assumir os cabelos brancos, perto disso, é fichinha. Sou café com leite. E, já que o assunto é branco, mais leite que café.

Eu, que de bravura tenho pouco a expor, só fiz descobrir que branco é apenas mais um tom para a gente se divertir. Mais uma opção, assim como o castanho e o vermelho, na paleta de cores da mulher possível.

Notas:

1. Eu disse que ia de branco, um dia.

2. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

Do mesmo jeito

Arte: Gustavo Peres

Eu como biscoito recheado do mesmo jeito desde que fui apresentada à guloseima. Desfaço o ‘sanduíche’ e reservo; raspo o recheio com os dentes e, por último, devoro o biscoito. Como dizem as mães aos seus filhos, não consigo diferenciar meu amor por um ou por outro.

Eu coloco cadarços do mesmo jeito desde quando aprendi a amarrar meus sapatos. Confundo-me se preciso fazê-lo de outra maneira, às vezes o filho pequeno pede uma amarração diferente para os tênis. Meus neurônios estão acostumados com o velho trajeto do cordão, como alguém que faz sempre o mesmo caminho para ir a algum lugar.

Não é metodismo. O metódico raciocina sobre seu método, cria teorias, apresenta justificativas. Não é TOC, não chega a ser mania e não tem a ver com obviedade, nem com lugar-comum. Eu não faço nada disso de propósito. Não há inteligência ou proposição em nenhum desses atos, catalogados aqui pela primeira vez. Sou aleatória. Aleatoriamente repetitiva, sem querer. São hábitos inscritos em meu DNA que, talvez, signifique simplesmente aquilo que Deus-Não-Altera.

Eu deixo restinho quando tomo água, suco, vinho ou qualquer outra bebida. Minha sede quase sempre acaba a meio centímetro do final do copo. Convivo bem com as piadinhas sobre deixar um pouco para o santo. Nunca soube qual é o santo dos líquidos.

Eu tomo banho do mesmo jeito desde que passei a ser responsável pela própria higiene. A mesma sequência de lavação: cabelos primeiro, sempre. Braços vêm antes de pernas. Pés ficam pro final. A toalha também faz o mesmo percurso. Estranho quando vejo alguém começar pelos pés ou terminar pela cabeça.

A repetição é fundamental para a evolução da humanidade. Sem ela, as tradições não existiriam. Repetir hábitos, mesmo que não se dê conta, é cultivar a própria tradição, zelar pela autoevolução.

Eu uso batom do mesmo jeito desde o dia em que passei um na boca pela primeira vez. Não importa o matiz. Primeiro em cima, da direita para a esquerda, voltando em seguida ao ponto de partida. Depois embaixo. Fui conferir os exemplares do meu armário: os meus gastam na diagonal. Sem exceção.

Eu visto as roupas do mesmo jeito desde sempre, ainda que os modelos, formas, tamanhos, cores e tecidos tenham mudado tanto ao longo dos gostos e das modas. Há um padrão (natural, não-pensado) para colocação de blusas, outro para calças, para vestidos. Acho graça em quem tira camiseta primeiro pela cabeça e depois pelos braços. Gosto de ver nos filmes e nos vestiários quem faz igual, quem faz diferente. É bom poder transformar tudo em playground.

Fazer as coisas do mesmo jeito é meu legado mais genuíno, minha herança mais autêntica. É meu modo de fazer, minha receita de mim. Só os ingredientes é que mudam.

Olhai as linhas do chão

Arte: Paula Pérez i de Lanuza
Arte: Paula Pérez i de Lanuza

É estar no banco, nos Correios, na loja de departamentos ou qualquer lugar onde a fila se faz necessária para organizar o atendimento, e é essa joça.

Fazem a marcação no chão, bem bonita em amarelo, para otimizar o espaço e guiar a (sempre grande) fileira, e as pessoas fingem que não é com elas. Vão chegando, se juntando e, a despeito da indicação virtual de caminho, criam uma linha humana contínua, no melhor estilo Deus-dará.

É gente aérea, alheia, programada no individual. Não aprenderam a formar fila. Não fizeram pré-primário com a Tia Neide.

Tia Neide era gordinha e tinha bochechas rosadas. Reunia seus alunos-mirins no páteo e ia compondo a fila por ordem de tamanho. Menores na frente, maiores atrás. Ela tinha vinte e sete anos. Eu, seis, condenada à eterna pole-position junto com uma ou duas amigas. Batia o sinal da entrada e seguíamos, obedientes e em fila indiana, para a sala de aula. (Fossem as filas de hoje organizadas por estatura, provavelmente eu não ficaria muito distante da antiga posição.)

A agência do Correios está cheia. Bastam duas pessoas para justificar uma fila. Sou a sexta. Lá estão as guias no chão, rejeitadas e ignoradas em sua missão. Bufo, encaro o primeiro da fila, concentro-me e tento enviar-lhe uma mensagem telepática, “Olhai as linhas do chão, ó irmão”. Ele não se move. Plantado fica, no epicentro da geometria desenhada sob seus pés. Nem cá, nem lá. O segundo, o terceiro, o quarto e o quinto o acompanham. A atendente chama, “Próximo”. É a deixa. Ensaio o movimento para tomar o lugar certo, na esperança que os demais da fila se animem com a reconfiguração. Nada. Estou só, ilhada sobre a setinha apontando para a frente, enquanto todos seguem o novo líder que, para minha tristeza, fez escola com o cliente que já está sendo atendido no balcão. Correndo o risco de perder o agora quinto lugar, volto, sob silenciosos protestos, ao meu posto original. Faço mimetismo na fila que não pensa.

Não sou a Tia Neide, nem estou no velho páteo, mas lanço, tímida, o desafio. O último da fila, pobrezinho, já está com um pé para fora da agência. “Pessoal, vamos seguir a marcação?”. Silêncio. Ninguém se move. Mais fácil conquistar apoio para uma missão de paz na Síria. A atmosfera de pouco-caso se instala no ambiente. É o desdém à ordem e ao progresso. Viro a chata, a general. Audácia da pilombeta.

Alguém precisa avisá-los que aquilo não é um jogo e não perde pontos quem fica dentro da faixa. Que é amarelinha, tem céu, mas não tem inferno. Inferno é a anencefalia coletiva.

O que faria Tia Neide se estivesse ali, postando suas cartas? Pegaria gentilmente nas mãozinhas de cada um e os conduziria ao seu lugar? “Sem bagunça e sem empurrar; Fulano, não puxe o cabelo da colega”.

Nada disso. Tia Neide, hoje com 67 anos, iria ao caixa preferencial. Não se comoveria com meu drama, não daria ouvidos à minha inconformação. Diria que é coisa de criança.

Tia Neide e sua turma do pré-primário (eu, na fileira do meio, a quinta da esquerda para direita). São Paulo, 1973. Arquivo pessoal.

Tachados e perdidos

Moda é religião: cada um tem a sua, e todas costumam levar ao mesmo lugar. Com frequência, é divisor de opiniões e águas. Quase sempre, é bobagem discuti-la. Ou não.

Para o ano que corre, tudo indica, bíblias fashionistas providenciaram um adendo, ensaiado há algum tempo. Há no ar um novo mandamento sendo cumprido à risca pelos fabricantes de roupas, calçados e acessórios em geral, que juram ter ouvido Deus proferir, n’alguma fashion week: “Usarás tachas”.

Até a próxima estação, fiéis incautos obedecerão e irão ter com blusas, calças, saias, camisas, coletes, carteiras, cintos, tênis, botas, chinelos – os mesmos modelos do ano passado – , agora todos encrustados com alguma variação do adereço, a lhes conferir o ar afinado com a tendência. Ninguém quer ficar de fora.

Experimento um vestido e lá estão elas, as tachas. Flerto com um par de sapatilhas e lá estão eles, os spikes. É assim que as tachinhas pontiagudas se chamam, aprendo. Enquanto amplio meu dicionário de moda, sigo tentando adquirir uma peça livre deles. “A estrada é longa, o caminho é deserto”.

Inútil fugir. A invasão é maciça. A indumentária rebitada, claramente inspirada no universo rocker e punk, está presente no short da mocinha que vai ao pagode segurar o tchan. Na anabela da carola presente na missa das sete. No biquíni da professora de ciências. Na “gente humilde, que vontade de chorar”.

Onde foi possível, botaram tachas. Onde não foi, também. São os estilistas-papagaios comungando da mesma hóstia, perdidos em sua missão de criar.

Eu, que não quero ser tachada de chata, rezo quietinha uma Ave Maria e um Pai Nosso, na esperança de que o jeans da vitrine não tenha aplicado, nos bolsos de trás, o mesmo enfeite da coleira do cão Boxer da vizinha.

Tacha, só se for com xis, dos juros e juras de amor.

Spike, só o Lee.

Vou de branco (um dia)

Arte: Erik Berndt

“Por que você pinta os cabelos?”

Quem lança a pergunta não tem nem oito anos. É uma menina. Lanço-lhe um olhar condescendente: mais alguns anos e ela saberá. Ou pensará que sabe. O mundo é assim, faz tempo.

A indagação tem o mesmo impacto de “Qual o sentido da vida?”, “De onde viemos?”, “Por que você assiste novela?”. Questões cuja resposta é frequentemente vaga, subjetiva, permeada de teorias simplórias. “Não sei, só sei que é assim”.

Levante a mão a mulher que já parou para filosofar, propriamente dito, sobre o tema.

Discussões retóricas e antropológicas à parte, a verdade é que, na maioria das vezes, a resposta para a primeira pergunta é rápida, honesta, espontânea. Típica, aliás, de uma criança: “Porque eu gosto”.

Li uma vez que as mulheres sempre ficam mais bonitas com um tom de cabelo diferente do que nasceram. É como se o tingimento das madeixas corrigisse alguma falha, harmonizasse o que a natureza se esqueceu de fazer.

(Psiquiatras e psicólogos devem começar o trabalho com aquela paciente nova investigando-lhe os cabelos. Prato cheio. Trinta sessões garantidas.)

Tinjo os meus desde quase sempre. Os primeiros fios brancos surgiram por volta dos quinze anos. Discretos. Com o tempo, fizeram o que bem entenderam, baseado na ordem divina dada à espécie humana: cresceram e se multiplicaram. Não gosto deles. Não vejo beleza nos grisalhos femininos, com seus trinta, quarenta, cinquenta tons de cinza. Sou da turma que acha esquisito, desmazelo, antipático. Se não os tingisse, a coleção de fios despigmentados formaria uma questionável mecha branca contrastada com meus cabelos pretos, o que me tornaria facilmente confundível com um gambá fêmea.

Para que isso não aconteça, há décadas estabeleço em meu calendário visitas mensais ao salão para retocar as raízes. Aproveito para colocar a prosa em dia, tomar café doce, me atualizar de quatro edições da Caras, responder emails, checar o Facebook. Sim, demora.

Já estive de tantas nuances! A cabeça de uma mulher é um grande laboratório de possibilidades, erros e acertos. Em vários sentidos. E sempre me diverti inventando novas paletas para minhas melenas, há tempos tão reduzidas.

A brincadeira, porém, chegou ao fim. A relação com o tonalizante está desgastada, precisamos dar um tempo, sinto-me sufocada, presa. Estou prestes a dar uma espetacular virada capilar. Quero alforriar meus escravos brancos, libertá-los do cativeiro líquido das tintas. Assumi-los, tirá-los do armário. Vê-los expandir, deixar que façam a minha cabeça.

Um dia. É ainda fase de querença. Não sei quando a ideia será efetivada. Não mando (completamente) em mim. Nem garanto nada.

Pode ser que eu continue com minhas visitas ao salão, prosa e café doce. Sou beneficiária da metamorfose ambulante das ideias gerais e específicas.

Pode ser que eu ligue para a Ana e avise: “Não vou mais”.

E eu que não vou querer fazer da minha cabeleira uma branca sombra pálida. Quero charme, atitude e modernidade, sem direito ao pacote-aposentadoria, ao kit medo-de-ser-feliz. Se não der certo, será apenas mais uma experiência na minha já tão empírica existência. Não um testamento cravado na pedra para todo sempre.

O Dia D chegará, e eu me entenderei de vez com meus pelos. Porque branco é a cor da paz. Dizem.

 

Nota: e o dia D chegou, em fevereiro de 2013. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

O Havaí é aqui. Ou não

Arte: Ana Maria Dacol

Eu que nunca fico elegante de sandálias Havaianas, igual às moças que desfilam pela Oscar Freire de terça-feira à tarde. (Para elas, é sempre terça-feira à tarde). Botam camiseta, jeans, chinelo de dedo e lá vão, irremediavelmente chiques. Quase não-terrenas.

Eu não. De Havaianas, não pareço descolada, não fico moderna. Metidos nelas, meus pés denunciam a deselegância nata, ou discreta – em livre caetaneação. E, não importa o quão produzida eu esteja, incorporo, invariavelmente, o arquétipo da jeca.

Inveja das moças da Oscar Freire.

As Havaianas, que já foram ícone de pobreza, foram alçadas a uma incompreensível categoria superior, através dessas mágicas ocidentais cuja poção leva quilos de propaganda, generosas doses de bom humor e uma pitada de sorte.

Com as legítimas, fajuta sou eu. Eu, que não solto pela vida minhas tiras particulares – aquelas que julgo me sustentar – , percebo que o buraco é, literalmente, mais embaixo. Toca o chão.

No primário, as crianças remediadas da minha escola assistiam às aulas de Havaianas. Destoavam do resto da classe, com seus assexuados sapatos pretos, tão fechados quanto a blusa branca de logotipo bordado no bolso que fazia parte do uniforme. Minha mãe dizia para eu não reparar nos pés delas. Eu reparava.

Não dei conta, em apenas algumas décadas, de assimilar tamanha mudança de status daquele simples chinelo. Meu subconsciente ainda o vê como calçado ordinário. E, como tal, instrumento de vagar à toa pela casa, lavar quintal, podar as roseiras, organizar as gavetas – qualquer atividade solitária e, obrigatoriamente, indoor.

Mas a mágica ocidental é poderosa. Então, eu bem que tento: flerto nas lojas com as Havaianas temáticas, fascinantemente multicoloridas. Afinal, nos pés das moças da Oscar Freire elas caem lindamente. Ensaio a compra, prometo superar o bloqueio emocional e me integrar à nova era, pertencer ao bando, ser cool. Que nada. Vêm à mente os colegas da escola e seus pézinhos encharcados pelo enfrentamento das poças em dia de chuva. Mudo de loja e escolho um par de sapatilhas. Espero que meus filhos não carreguem a ruidosa herança determinista e se esbaldem nas Havaianas, com liberdade e altivez, por onde quer que andem.

Centenas de milhões de pessoas em oitenta países do globo usam as Havaianas. Eu não. Não pertenço a este mundo.

Meu reino por uma fotografia da Jackie Onassis de Havaianas.

Tenho meu par, pasmem. Ganhado, não adquirido. Ele vive em meu armário, raras vezes circula. Nunca foi ao shopping. Nem até a portaria do condomínio, buscar a pizza. Vou descalça, se for o caso. Posso sair de casa sem batom; de Havaianas, jamais.

Sou doente do pé. Provavelmente, ruim da cabeça também.