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Assim na terra como no céu

Foto: Tatiana Machado

“Aqui está seu tíquete. Embarque no portão 3, boa viagem”. É domingo. O destino: Salvador, na baía de Todos-os-santos.

No ar, lá pelas tantas, vêm os comissários de azul e branco oferecendo coisinhas para o fim de noite. Um deles tem no rosto um sorriso e, no crachá, nome de arcanjo. Aproxima-se de mim, “A senhora gostaria de beber alguma coisa?”. Peço café. “Não temos, senhora. Só água, refrigerante e suco”. Desapontada, agradeço. Paciência. Retorno ao meu estado de quase-cochilo, sonhando com uma xícara de café bem quente e forte entre as minhas mãos.

Vinte minutos depois, ele tenta mais uma vez. “A senhora não quer nada mesmo?”. Faço beicinho, “Só um café…”. Mas, já sei, não tem café.

Meia hora mais tarde, ele reaparece. Desta vez, pede que eu o acompanhe até o fundo da aeronave. Oh meu pai, que será?, penso, enquanto tiro os fones do ouvido. Vou atrás dele, me equilibrando em meio à leve turbulência. Ele remexe os armários, abre uma portinhola, avisto uma centena de pacotes de salgadinhos. Como é que cabe tudo ali dentro? Ele segreda, baixinho: “Não podemos servir café a essa hora. Mas eu vou fazer um pra você”.

Meu sorriso foi de asa a asa. O “senhora” lá de trás fora substituído, agora o arcanjo uniformizado era meu chapa. Enquanto prepara o café exclusivo e proibido, ele pede para que eu não conte a ninguém. “Será nosso segredo”, trato de tranquilizá-lo. Aviso, porém, que não tenho como deter o aroma se espalhando pelo corredor. “Não sei de nada”, direi, em caso de inquisição.

Arcanjos, os anjos da terceira hierarquia, são “os que executam as ordens de Deus e conhecem a fundo a natureza humana”. Explicado estava. Deus sabe que o café é uma espécie de oração.

Ele me entrega o copo de isopor, “Açúcar ou adoçante?”. Tomo ali mesmo, escondidinha e feliz da vida. Estar nas nuvens ganha novo sentido.

Como agradecer? Não poderia elogiá-lo publicamente pelo seu ato de compaixão. Longe de mim complicar a vida do rapaz, fazê-lo levar um pito do chefe. Não sabem eles, CEOs cravados em terra firme, que, às vezes, não são os milhões investidos em propaganda, mas a regra quebrada, um improviso no script pronto, uma justificada desobediência, que gravam o nome da companhia na nossa memória. Avião é commodity. Quem faz um voo é gente de carne e osso e, eventualmente, um par de asas invisíveis.

Cheguei acordadíssima ao destino, graças ao arcanjo de bordo – meu verdadeiro salvador. Porque, no final das contas, foi feita a minha vontade. Assim na terra como no céu.

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Do quê que é?

Ilustração: Alanna Risse/Flickr.com

Eu que não serviria para trabalhar em lanchonete. Não me assusta ficar oito horas em pé, espremer laranjas, lavar copos. O desafio é passar o dia explicando do quê são os salgados. É raro ver legendas nas vitrines. Imagine repetir, duzentas vezes, que o enroladinho é de presunto. Só pão de queijo dispensa apresentação, é quitute com RG à mostra.

Nunca encontrei alguém que descrevesse os sabores das iguarias com paciência e boa vontade. Deve-se ir direto ao assunto, se não quiser despertar a cólera do atendente: “Quero aquele ali”. E contar com a sorte, como numa loteria. Saber administrar o prêmio, se for o caso. Ou então, lançar o pedido pá-pum: “Um pão de batata com requeijão, por favor”. A resposta é a solução: “Acabou. Só tem de frango”. A situação se agrava quando se trata dos doces, bem mais complexos em suas composições.

Miro a bandeja dos croissants, o lugar faz uns fantásticos. Gêmeos múltiplos e idênticos, não fosse metade estar organizada de um lado, metade do outro. Alguma diferença há de ter. Na tentativa de adivinhar o sexo de cada um, espicho os olhos por cima do balcão; a vista aérea costuma ajudar. Mudo o foco, ativo o terceiro olho, tiro no tarô. Nenhuma evidência. O jeito é perguntar. Responde o dragão verde-fel, cuspindo fogo, enquanto aponta as extremidades da bandeja: “Peito de peru”. “Catupiry”. Opto pelo segundo. Primeira mordida, eca. Dragões também se confundem. Empunho meu escudo antichama e reclamo. Troca feita, outra abocanhada e… surpresa: nem uma coisa, nem outra. É de pizza. Fico bem quietinha. Eu, hein.