Arquivo da tag: cidadania

Cidadania de supermercado

Separo o lixo reciclável, faço compostagem do orgânico, poupo água. Ajudo ONG, tenho compaixão pelos seres vivos (menos barata), freio para animais na rua. Não uso (mais) as vagas para idosos, não paro em fila dupla na porta da escola, não fecho cruzamento. Sou uma boa pessoa.

Só não me peça para levar carrinho de supermercado de volta no lugar. Isso eu não faço. Sou acometida de súbitas e incontroláveis preguiça, indisposição e pressa – tudo junto ou separado. Abandono-o num canto, na esperança de que não vá atrapalhar ninguém. Rezo para o moço que os recolhe passar logo, conduzindo sua ruidosa centopeia de rodinhas. Arruíno, eu sei, o bom andamento do estacionamento. Fosse infração de trânsito, eu não poderia mais dirigir por cinco encarnações. Sou rápida no delito, finjo-me invisível. Entro no carro e, como se tivesse acabado de assaltar um banco, bato em retirada. O sentimento de culpa me persegue. Ao entregar o cartãozinho ao moço, na saída, seu olhar parece me acusar, “Eu sei o que você fez”. Como num filme policial, cogito parar, descer com as mãos levantadas e, ré confessa, suplicar por misericórdia, “OK, eu ponho no lugar!”

Ser cidadã dá trabalho. Cansa. Demora. É preciso paciência, tempo, alegria, resiliência, bom humor, coragem – quase tudo de que é feita a vida. Há dias, no entanto, que todas essas coisas faltam. Fazer o quê? O problema é quando isso coincide com dia de supermercado.

Não descarto a possibilidade de minha conduta antissocial ser uma retaliação inconsciente contra o atual sistema dos supermercados, cuja dinâmica de compra seria impossível de ser explicada, com alguma coerência, a civilizações superiores de outros planetas que por ventura nos visitassem. O número de vezes que se carrega e descarrega um carrinho (com ou sem sacolinhas plásticas), desde a entrada no estabelecimento até que tudo esteja guardado na despensa, é surreal. Pode ser que os avanços da psiquiatria proporcionem terapia adequada para meu caso. Ou então, o caminho será contar com regressão de vidas passadas, benzedeiras, florais de Bach.

Talvez eu seja como os gatos: se a ordem coincide com o desejo, feito. É por isso que se chama um e às vezes ele vem, às vezes não. No segundo caso, o felino ignora o candidato a chefe, inspeciona o vento, lambe a pata. E, cônscio de si, não obedece. Fazendo uma livre associação: se o lugar dos carrinhos for ao lado de onde estacionei, eu levo de volta. Caso contrário, também desobedeço. Só não lambo minha pata, que fique claro.

Anúncios

Morte ao viva-voz

Ilustração: Rodrigo Müller/Flickr.com

Ainda não entendi de qual passarela veio a inexplicável moda de só – eu disse – falar ao celular pelo viva-voz. Gente que empunha o aparelho como se megafone fosse, ventando notícia desinteressante. Como se fosse pizza em fatia, dessas que se pede na lanchonete para almoçar rapidinho, em pé, na pressa dos diabos. Dos diabos, cá entre nós, é ouvir conversa dos outros sem ter vontade. Dos infernos, viver pescando fragmentos do diário alheio. Pior é o barulhinho disparado entre uma fala e outra. Ainda prefiro o bom, velho e cool “câmbio” dos rádios, sepultado pela modernidade para dar lugar ao insípido priii.

Viva-voz é o viés da comédia, o extermínio da vida privada. Mesmo quem não tem vocação para Dona Candinha se vê obrigado a ficar sabendo de tudo. Que a empregada vai se atrasar, mas assim que chegar vai por comida para o Thor. Que o layout daquela peça ficou uma desgraça, será que dá tempo de mexer, liga para o Max. Que o moço vai buscar a moça às oito, depois do tênis, só precisa dar uma passadinha na locadora antes. Que a estagiária aprontou de novo no escritório. Com viva-voz, quem precisa de revista de fofoca?

Tem de tudo no show da voz ao vivo. Detecto um diálogo com potencial para plebiscito: os pais devem ou não deixar o Junior sair com o carro? Afinal ele já tem dezenove e é tão ajuizado. Sem precisar ligar no zero-oitocentos, dou meu voto: sim, o menino pega as chaves hoje à noite e leva a galera ao cinema. A gente cria os filhos para o mundo. É a vox-populi no viva-vox.

Viva-voz não é default do aparelho, é opção. Mas o cidadão a ativa a qualquer momento porque acha bonito. Porque acredita que vai ouvir melhor seu interlocutor. Porque se julga invisível e inaudível. Porque se considera astro-rei. Porque leu em algum lugar que usar o telefone junto ao ouvido faz mal à saúde, dá câncer. Porque isso, porque aquilo. Da verdade não se escapa: porque é tonto.

Viva-voz à toa é pedido de audiência, angariação de testemunhas, compartilhamento de um Facebook falado. Quem é que curtiu?

Viva-voz sem razão é o incômodo efeito colateral da comunicação plena. Hórus, deus do silêncio, há de castigar a todos.

Alô, simpatizante do recurso em hora e lugar errados: a vida não é pública, você não entendeu.