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Um outro ensaio sobre a cegueira

Arte: Ade McOran-Campbell
Arte: Ade McOran-Campbell

Ela se aproxima, pelo canto, da mesa onde estão os autores. Quer saber do livro que está sendo lançado naquela tarde, abre a torneira de perguntas. Um deles, o ilustrador, responde ao seu questionário enquanto cria um desenho-autógrafo para alguém no outro canto da mesa. Ela é desenvolta, articulada, interessada, faminta. Sem acanhamentos, acha engraçado o tema do livro. Dezesseis anos, talvez? Conta que também escreve e já tem um livro pronto, quer dicas para publicá-lo. Fala pelos cotovelos. Ajeita os cabelos. Encara o nada enquanto ouve as respostas. Tateia tudo que há na grande mesa. Ela é cega. Ou quase.

Só estamos acostumados aos cegos silenciosos.

Também tenho minha fome e vou até o café da livraria, “Tem bolo de quê?”. Escolho o de fubá, maçã e canela, mais um espresso. Em poucos instantes, ela aparece. Atravessa o salão – com a mesma tranquilidade com que, há pouco, sabatinara os autores – e chama pela mãe. A mãe, de uma das mesas, emite qualquer sinal que a garota compreende. Seu sistema de posição global é afiado. Caminha até ela; a mãe não se levanta para guiá-la. É seu jeito de conjugar o verbo proteger. Ela senta-se. A mãe aproxima seu rosto do dela, segura-o entre as mãos e, num carinho além-materno, a beija. Tudo, então, se explica: a desinibição, a perguntação, a apropriação do ambiente, o livro pronto.

Eu, cegada pelos livros ao redor, para explicar o que vejo, só faço pensar em música. Deve ser porque para ouvir não é preciso olhos de ver. Nem de ler.

Primeiro vem o Sting, que não cantou isso pensando em mães, mas cabe:

“if you love somebody, set them free”

Depois a Marina Lima, que também não cantou isso pensando em filhos, mas cabe:

“guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la; em cofre não se guarda nada; em cofre, perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la. Isto é: iluminá-la ou ser por ela iluminado”

Do que será o livro que escreveu?

Mãe e filha se levantam, pagam a conta. “Dos cegos do castelo”, erguido em torres de papel, elas se despedem. E vão.

Crônica de minuto para quem enxerga bem

Ilustração: Jeff Turner/Flickr.com

À minha frente, na fila, ela chegou a esbarrar em mim. Desculpou-se. Não foi nada, respondi. Pediu um pão de queijo, um espresso, quis saber se tinham macaron. Quando o gerente do café, Thiago – não posso ver crachá, que leio –, aproximou a maquininha do cartão da mão tateante da moça, foi que notei. Era cega. E estava de salto alto. Eu, que tenho dois olhos funcionando bem, não me animo a reativar os meus, empoeirando no armário.

Olhos cegos não são olhos desligados. Tampouco são como aqueles bolsos falsos, só decorando a roupa. Olhos cegos inventam para si outra função. Aprendem o invisível. Farejam o oculto. São bolsos onde a alma guarda alguns dos seus segredos.

O Thiago, que enxerga longe, não só a ajudou na hora de pagar, como a acompanhou até a mesa. Fez a acessibilidade na prática, recheada de gentileza.

O contraponto: no final do nosso lanche o Luca, sete anos, quis mais um croissant. Dei-lhe três reais, deixei-o ir comprar sozinho. Ele ficou na fila, bonitinho. Na sua vez, o Thiago não o enxergou junto ao balcão que tinha quase a sua altura, e já ia atendendo o próximo freguês. O que os olhos do Thiago não viram de perto, meu coração sentiu de longe. Levantei-me e fui ao caixa, ajudar meu filho.

Enxergar ou não enxergar. Eis a questão.

Sobre a esperança, os óculos e outras formas de ver as coisas

Foto: Charles Dodds/Flickr.com

Perdera, misteriosamente, os óculos. Eram novos, de um azul cobalto intenso, leves como borboleta. Com eles, passara a enxergar tudo. Desde as letras pequeninas até os minúsculos veios do papel reciclado que usava no escritório, que nunca havia notado. Certa noite, recolhida em sua cama e sem sono, deu por sua falta – queria ler um livro. Levantou-se, foi até a sala, vasculhou a bolsa. De pijama, foi até o carro, conferiu os porta-trecos. Apanhou o telefone e acordou a mãe, Não deixei aí, não? Repetiu mentalmente o percurso que fizera de manhã até àquela hora, procurando se lembrar do que os óculos haviam participado. A má notícia: não os usara naquele dia. Suspirou. O jeito foi pegar os do marido emprestado, que tinham um grau próximo. Avançou duas páginas do livro e uma leve tontura a obrigou a desistir dele. Apagou a luz. As ideias, no entanto, continuaram acesas.

Olhos abertos para a escuridão do quarto, brincou de ser cega. Era capaz de localizar a chapeleira. O armário. A almofada do gato. Mas isso era fácil; ela era uma ‘recém-cega’, e com alguma memória espacial. Virou-se para onde dormia o marido, e tentou construir sua imagem a partir dos sentidos que lhe restaram. O som da sua respiração, tranquila e compassada, indicava uma serenidade que normalmente ela não via. Estranhou o perfume fresco dos seus cabelos, não combinava com a velhice que ela notava despontar neles, dia após dia. Perdeu-se, por um instante: em qual dos sentidos deveria confiar, então?

Após o inexplicável desaparecimento dos óculos novos, conformou-se em continuar com os velhos, já não tão bons assim, e passou a viver de uma esperança: a de que os reencontraria, assim, de uma hora para outra. Ao desfazer as malas de uma viagem: será que não haviam ficado lá no fundo? Sempre que abria uma gaveta, na verdade, aguardava uma surpresa: a empregada poderia tê-los guardado ali por engano. Uma caixa antiga sobre o armário virava representante de uma nova possibilidade. Assim como um bolso de um casaco antigo. Passou anos na crença de que, cedo ou tarde, eles surgiriam na sua frente. Intactos, como na última vez que os vira. Sua esperança, assim como a fé, não via falhas. Desconhecia o pessimismo. Ignorava o azar. Desconsiderava até o deboche fantasiado de realidade: Perdeu na rua, ué!, sentenciou o marido numa ocasião, farto da esperança silenciosamente estrondosa da mulher.

Solitariamente, passou a fazer a brincadeira da cegueira nas ruas, no trabalho, no shopping, na igreja. Para isso, recorria, como naquela noite, aos demais sentidos. Principalmente à imaginação, que é a soma de todos eles. Espantava-se com os diferentes jeitos de ver uma mesma coisa. E viu que poderia escolher o que mais lhe agradava, já que, no fim, tudo dava praticamente no mesmo. Um dia, avistou na vitrine de uma loja um par de óculos de intenso azul cobalto. Pediu ao vendedor para experimentá-los. Levíssimos. Como é que os danados vieram parar aqui?, brincou, feliz da vida, enquanto digitava a senha do cartão de crédito.