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Não repara na bagunça

Ilustração: Nadia/Flickr.com

Assim como se implora à visita que adentra em casa para não reparar na bagunça, faz-se mister pedir a quem entra em nossa vida – namorado novo, por exemplo – para fazer o mesmo, mas em relação a outro tipo de bagunça: a da nossa cachola. Principalmente, se essa visita for voltar mais vezes.

Almofada no chão, pia cheia, roupa aqui e acolá, sapato perdido, pacote de biscoito aberto na cama, livro, correspondência e brinquedo, tudo junto na mesa de jantar… para tudo dá-se jeito. É questão de braço e disposição. Já para ideia fora do lugar, palavra que vem antes de pensamento, complexo e mania misturados na mesma gaveta, rotina analógica em descompasso com a digital, ah. Nem com as melhores caixas organizadoras do mundo. É quando a pessoa avisa que vai, mas talvez fique, e se ficar, talvez queira ir. Mais ou menos isso, ou nem tanto, muito pelo contrário. É nessa bagunça, de fato, que as visitas reparam.

Bagunça que vem lá dos tempos de projeto, quando a pessoa ainda estava na planta, está fadada a bater ponto, transformando a vida num eterno canteiro de obras. Nada toma forma, tudo é ainda, tudo é quase, tudo é gerúndio. E não adianta trocar o mestre de obras, o problema está na fundação.

Bagunça gera bagunça, num fenômeno que não é restrito à violência ou gentileza. Um relacionamento bagunçado desperta mal-estar na profissão e vice-versa. A culpa não é do chefe. Nem do terapeuta, essa espécie de personal organizer.

Ouvi dizer que quando a vida, no geral, está caótica, a baderna se refletirá no guarda-roupa. Fui correndo ver o meu e, dia seguinte, arregacei as mangas e parti para a arrumação. Minha esperança era enganar o universo, fazendo o caminho inverso. Ou seja, mudar de fora para dentro. Não deu muito certo, mas o armário ficou um brinco. Ninguém reparou.

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(Des)Empregada II, a traição

Foto: Amigomac/Flickr.com

– Alô?

– Eu queria falar com a Silmara.

Seguem-se dois minutos de conversa. É de um certo RH, pedindo referências sobre minha ex-empregada, aquela que pediu as contas. Como num interrogatório, respondo às perguntas com ‘sim’ ou ‘não’. Sou a ré. Condenada, talvez, por não ter aumentado o salário da ex-ajudante e ter tapetes demais. Meu desejo, porém, é abrir o coração com a moça do outro lado da linha. Chorar as pitangas. Lavar a roupa suja (opa). Contar como anda a vida depois da saída dela. Desabafar que tenho pensado em mudar minha cama para a masmorra da área de serviço, para ficar mais prático. “Você sabe o que é desencardir vinte e oito meias por semana?”. Em vez, recolho-me à condição de ex-patroa, cuja função, agora, é fornecer subsídios para a nova carreira da ex. Ao final da ligação, tasco a pergunta:

– De que empresa é?

– Da padaria tal.

Então é isso. Vou ser traída com o padeiro.

Conheço o lugar. E logo começa o devaneio: chego ao balcão e peço meia dúzia de pãezinhos. Três moreninhos e três branquinhos, para agradar os gregos e os troianos do meu lar. Espicho o olhar e reconheço a cabeleira, apesar da redinha. É ela, ajeitando na cesta os pães recém-saídos da fornalha. Sou fina, cumprimento. “As crianças, como vão?”. Emendo: “Veja também umas broinhas, por favor? A minha nova ajudante a-do-ra!” – é meu inocente blefe. Ela entrega o pacote com os pães, ainda quentes, por cima do balcão. Faço questão que note minhas unhas, feitíssimas, simulando distância de qualquer tanque (ela não sabe, mas comprei luvas de látex). Despedimo-nos com polido afeto, e no som ambiente da padaria começa a tocar “I will survive”, da Gloria Gaynor. Na tela aparece “fim”, junto com os créditos do meu curta-metragem imaginário. Não sei porque não fiz cinema na faculdade.

E se eu revelar certas coisas sobre o perfil da ex? Não, isso não. “Amai-vos uns aos outros”, ensinou Jesus. Que, por certo, não tinha empregada quando proferiu isso.

Declaro minha inveja de quem tem a mesma empregada há vinte anos. A que é convidada para os batizados dos filhos de quem, um dia, ajudou a trocar as fraldas. A que ganha presente de Natal até da madrinha do patrão. Aqui, elas mal completam o primeiro ano e já dão o pinote. “A casa é muito grande, Dona Silmara”. “Muito gato, Dona Silmara”. “É pouco tempo para fazer tudo, Dona Silmara”. “A senhora paga pouco, Dona Silmara”. Os opostos – muito e pouco – não as atraem. E a Dona Silmara compreende tudo. Só não compreendo como elas conseguem passar uma camisa em menos de trinta minutos e manter os Tupperwares organizados no armário.

As compadecidas vizinhas me param na rua, “E aí?”. Finjo serenidade, demonstro paz interior. Na realidade, tenho encarnado a Rainha de Copas, como na história da Alice, quando percebo vestígios de Nutella na cortina: “Cortem-lhe a cabeça!”

Nem tudo são trevas, porém. Gosto da casa vazia, da ausência de corpos estranhos zanzando na minha intimidade. De acordar sem o ronco do aspirador de pó e tomar café-da-manhã na cozinha sem trilha sonora sertaneja. Mas meu pão com manteiga jamais será o mesmo.

Continuo a entrevistar mais candidatas, e nada. De qual crise o noticiário fala? Só sei das minhas: de nervos, de identidade e de alergia ao Veja Multiuso.

Paciência, é preciso tê-la. Na vida, nem tudo é Perfex.

(Des)Empregada

Ilustração: DrasticJo/Flickr.com

E a empregada pediu as contas. Cuidar de um lar com oito seres vivos não era exatamente seu plano de carreira. Lá fui eu para o tanque, a pia, o ferro de passar e, sobretudo, para o inferno. Sem garantia de purgatório, muito menos paraíso. Queria era ver Virgílio desentupindo ralo. Beatriz com um esfregão nas mãos. Dante colocando o lixo para fora. Essa sim, seria a divina comédia.

Desde o primeiro dia após o último do aviso-prévio, descubro, com a mesma surpresa de uma exploradora, partes da minha casa nunca dantes navegadas. Frestas e cantinhos impossíveis de limpar, compartimentos secretos, xícaras desconhecidas. Perguntas que não querem calar surgem a todo instante: por que gatos soltam tanto pelo? Como assim, o forno não é autolimpante? Quem guardou estas tranqueiras na área de serviço? Como se limpa o box do banheiro? Quem inventou as camisetas brancas? Por quem os sinos dobram? Qual o sentido da vida?

Deus criou o mundo. Assim que tudo estava limpo e arrumado, descansou. Num lar, a lenda divina não se aplica. É deixar tudo bonitinho para, dali não sete dias, mas sete horas, estar quase tudo novamente por fazer. É como se os dias fossem um eterno “dia da marmota”, igual ao que aquele repórter vive no filme “O feitiço do tempo”. Pois juro: lavei esta calça ontem, e lá está ela no cesto. As atividades domésticas se repetem o tempo todo, numa espécie de maldição. Não há fim, não há conclusão. Não pode haver felicidade numa caixa de sabão em pó. Nem líquido.

Lembro da amiga que costuma evocar “Cry Baby”, da Janis Joplin, em dia de faxina. Cada um sabe da sua dor. Cada um busca sua reza. Nessas horas, vou de bossa nova. Para lavar a varanda enquanto a tardinha cai. Porque barquinho, que é bom, não tem. Água, só no balde.

E a penitência vai longe: a lei do silêncio é clara, nada de barulho depois das vinte e duas horas. Porém, o cuco vai dar meia-noite e o aspirador de pó é quem vai cantar. Sou uma fora da lei. O indelével tempo não facilitou para mim durante o dia. Então, vai de noite, mesmo. Com direito a um bombom entre um tapete e outro. Caloria entra, caloria sai. Quem precisa de academia?

Vizinhas compadecidas tratam de indicar substitutas. “Urgente”, imploro. Na entrevista inicial, por telefone, trato de pintar um quadro ameno: só tenho duas crianças. A casa tem só três quartos. São só quatro banheiros. Só. Para ver se ela também se compadece e topa vir. O fato é que nenhuma tem dia livre. Quando tem, combinamos, “Na segunda, então?”. E ela não vem. Nem telefona. Se homens são de Marte e mulheres, de Vênus, as empregadas domésticas serão de qual planeta? A questão, talvez, não seja o planeta, mas quais e quantos ônibus elas pegam para vir trabalhar.

Uma mulher sem sua ajudante é capaz de qualquer coisa para restabelecer a ordem no lar. Na situação de (des)empregada, boto a família toda para trabalhar, inclusive os menores de idade. Que venha o fiscal do conselho tutelar. Pois dou-lhe uma vassoura, também. Vale tudo. Até estratégias antiéticas, ilícitas, feias. Afinal, o sétimo mandamento, “Não roubarás”, não fala nada sobre surrupiar a empregada do próximo.

Os elefantes

Ilustração: Dawn Hard/Flickr.com

Se você não pode com eles, junte-se a eles. Quem disse isso pela primeira vez sabia o que estava falando.

Passei o final de semana observando os elefantes que apareceram, de uma hora para outra, no meu quintal. Gostaram tanto do pedaço que não estão com pressa de ir embora. Pudera. Esse bicho tem pressa de alguma coisa? Elefante, quem não sabe, é o maior animal que há. Só perde para a baleia-azul. E, como ela, ele é dos mais pesados. Dependendo de onde resolva se instalar, vira trambolho, estorvo. Transtorna a vida e toma tempo – já tentou dar banho em um? Baleia, pelo menos, não precisa de banho.

Armei minha rede ao lado da turma de paquidermes. Só para conhecê-los melhor, entre um quilo de amendoim e outro. Virei freguesa do mercadinho, a dona queria saber o que eu fazia com tanto amendoim. Contei-lhe a verdade, ela riu, hi hi hi. Japonês ri de tudo. Por isso vive muito.

Dei-me conta de que fui eu mesma que os deixei entrar. Elefante em casa é um problema. Problema em casa é um elefante. E eles vieram parar justo no meu minúsculo quintal. Nunca imaginei que coubesse um ali, quanto mais vários. Pois couberam. Eu tenho deixado que os problemas, assim como os elefantes, pareçam maiores e mais pesados do que realmente são. Primeiro aprendizado: elefante cabe em qualquer lugar. Problema também, basta a permissão para que se instale. E um problema, tal elefante, incomoda muita gente.

Também ando dando atenção demais aos dumbos do quintal. Se acho que estão com fome, com sede, calor, lá vou eu cuidar deles. Fazendo isso, deixo-os cada vez mais fortes. Que se virem sozinhos, portanto. Assim como os elefantes, alguns problemas se auto-resolvem. Só precisam de um pouco de tempo. Segundo aprendizado.

Percebendo que algo não ia bem, os amigos quiseram saber o que estava acontecendo. Mostrei-lhes o quintal. “Simples”, disse um eles, “Eu levo um para minha casa”. Outro se dispôs a fazer o mesmo. Em seguida, outro também. Agora restam poucos. Aprendizado número três: dividir os elefantes, assim como os problemas, torna tudo mais simples. Pleonasticamente leve.

Acabo de espiá-los pela janela. Estão dormindo. Quando acordarem, vou lhes contar aquela antiga piada sobre quantos elefantes cabem num Fusca. Quero ver se algum deles vai acertar.

Bananas

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

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– Casa sem banana não é casa.

Toda família tem seus parentes distantes. É como se cada fruto da árvore genealógica fosse saboreado por um passarinho, e sua semente fosse parar longe dali, dando origem a uma nova árvore, filha daquela. E dela surgissem novos frutos, especialmente ligados à árvore-mãe. Assim são as famílias: os frutos, numa espécie de migração, vão se estabelecendo em outras terras. A diferença é que, de vez em quando, eles se encontram.

Tio Zuza é tio do papai. Nas migrações ao longo das décadas, ficou longe de todos. Mas mantém o hábito de, três vezes por ano, visitar os sobrinhos-netos. Viaja sozinho. Exibe com orgulho sua carteirinha de idoso: a passagem sai de graça. Ou quase.

Quinta-feira de manhã, desembarcou na rodoviária. Fui buscá-lo. A primeira pessoa a levar uma bronca do tio – soube assim que fechei o porta-malas do carro – foi o motorista do ônibus que o trouxe: como é que podiam deixar alguém viajar trezentos e sessenta quilômetros sem ar-condicionado? A segunda, o vendedor de chiclete no sinal, um moleque de dez anos: por que é que não estava na escola? A terceira, e já em casa, fui eu. Minha infração: ter me esquecido de comprar banana.

Enquanto tentava, em vão, lhe mostrar as qualidades do mamão papaia, estalando de maduro na fruteira, tio Zuza deu de ombros, desistiu do lanche, retornou à sala e foi conferir os porta-retratos sobre a cristaleira, Como espicharam os filhos da Margarete!

Anotei no papelzinho ao lado da pia: incluir um bom cacho na próxima compra. Escrevi ao lado, para pensar depois: de que é feito um lar, então? O que confere, de verdade, alma a uma casa?

Quando um casal de parcos recursos decide viver junto, geladeira, fogão e cama são os itens mínimos para garantir a sobrevivência – e a alegria – na nova moradia. E máquina de lavar? Não, pois sempre se pode recorrer à casa da mãe de um dos dois. Armários? Também não; umas araras, umas caixas bem bonitas de papelão dão conta de organizar tudo até que se consiga mandar fazê-los. Está bem, televisão é fundamental. Porém, o laptop a substitui. E este não pertence à casa, mas sim ao dono. No mais, o que dá o título de lar a uma casa são seus habitantes, suas vozes e seus passos.

A minha tem tudo isso. E mais: secadora de roupa, aspirador de pó, banheira, sofá, cadeira, cachorro, formiga nos tamanhos P, M e G, pernilongo faminto nos dias chuvosos, lâmpada queimada, goteira de vez em quando, cama de casal, cama de criança, cama de gato, embalagem aberta de biscoito, roupa no varal, vela no armário para quando falta energia, leite de caixinha, chinelo pelo meio, feijão no tupperware, copo de requeijão, livros, canetas no finzinho, antenas, tapetes, cardápio de pizzaria na porta da geladeira, iogurte vencido, jabuticabeira sem jabuticaba, conta de água, CD na caixinha errada, desenho de criança na parede, garagem para dois carros, wi-fi, CEP e santo protegendo a entrada. Eu poderia jurar que tudo isso, junto, constituía uma casa.

Mas faltava a banana. A primeira fruta de todo bebê. A base da nutrição humana, depois do leite materno. Amassada com o garfo, em forma de coração, como as que minha mãe fazia. A fruta mais popular do planeta. Embora, tirando a nanica, eu confunda todas as outras espécies: prata, ouro, maçã, da terra. Boa de levar no carro, na lancheira, no escritório. Não requer talheres, não suja as mãos. Não deixa fiapo, nem nada verde nos dentes. Sacia qualquer larica. A fruta iniciática, perfeita e fundamental. Nunca soube de alguém que houvesse escorregado numa casca de banana, nem acho que elas sejam tão baratas assim, para justificar as expressões em torno delas.

De acordo com a sentença do tio Zuza, minha casa não passava de um amontoado de tijolos, cimento, vidros, telhas, fios e coisas inertes. Faltava-lhe o sopro divino. Mas nem tudo estava perdido, e a condenação foi breve: o varejão abriu às seis e meia da manhã.