Arquivo da tag: carrinho de supermercado

Com jeito

Naquele supermercado o preço é bom. Mas o carrinho não. É um centro atacadista, onde a maioria dos fregueses costuma comprar aos montes – e mais barato – , geralmente para abastecer seu negócio próprio. Eu não tenho negócio próprio, mas também vou ali para comprar aos montes. Um lar é uma espécie de negócio próprio.

E o carrinho deles é ruim. É desses de puxar, e não de empurrar, igual aos outros. Dia de fazer supermercado é dia de sentir-me um cavalo à frente de uma carroça abarrotada de leite, arroz, feijão, sabão em pó, tudo em embalagem tamanho família. Tenho pesadelos na véspera, procrastino, invento cólicas.

Eles também têm carrinhos normais, à razão de um para dez dos de puxar. Os normais são bons de empurrar, espaçosos. Mas quem quer um desses precisa contar com a sorte. Ou com a gentileza.

Era dia de sacrifício. Acionei meu radar assim que estacionei. Nada de carrinho normal. Procurei nos cantos. Nenhum. Suspirei, antevendo o suplício iminente. Quase relinchei de tristeza. Avistei uma funcionária, era a deixa.

– Oi! Por favor, você sabe se tem daquele outro carrinho, menor? – e aproveitei para desabafar – Esses aqui são tão desajeitados… Gesticulei para ilustrar melhor, apontando os trambolhos.

Ela sorriu, olhou ao redor, pediu um minuto e saiu. Logo surgiu no horizonte empunhando um carrinho normal – e era para mim! A felicidade tem quatro rodinhas, meu bem.

Entregou-me e disse:

– Você pediu com educação, aí eu fui buscar um pra você. Tem gente que chega aqui dando bronca, exigindo. Pra esses eu digo que não tem, acabou. Mas quando é com gentileza, a coisa muda.

Agradeci, saquei minha listinha de compras e segui meu destino.

Não é sempre que sou moça fina e educada. Não sou gentil em período integral. Talvez meio-período e olhe lá. Depende do dia, do vento, da umidade relativa do ar. Logo, não é sempre que consigo o que quero – seja um carrinho no supermercado, uma reivindicação para melhorar o bairro, um “sim” para um projeto, algum favor.

Quanta coisa já não devo ter deixado de conseguir na supervida, por não ter pedido com superjeito.

O mundo é das pessoas gentis. Os melhores carrinhos de supermercado também.

Anúncios

Cidadania de supermercado

Separo o lixo reciclável, faço compostagem do orgânico, poupo água. Ajudo ONG, tenho compaixão pelos seres vivos (menos barata), freio para animais na rua. Não uso (mais) as vagas para idosos, não paro em fila dupla na porta da escola, não fecho cruzamento. Sou uma boa pessoa.

Só não me peça para levar carrinho de supermercado de volta no lugar. Isso eu não faço. Sou acometida de súbitas e incontroláveis preguiça, indisposição e pressa – tudo junto ou separado. Abandono-o num canto, na esperança de que não vá atrapalhar ninguém. Rezo para o moço que os recolhe passar logo, conduzindo sua ruidosa centopeia de rodinhas. Arruíno, eu sei, o bom andamento do estacionamento. Fosse infração de trânsito, eu não poderia mais dirigir por cinco encarnações. Sou rápida no delito, finjo-me invisível. Entro no carro e, como se tivesse acabado de assaltar um banco, bato em retirada. O sentimento de culpa me persegue. Ao entregar o cartãozinho ao moço, na saída, seu olhar parece me acusar, “Eu sei o que você fez”. Como num filme policial, cogito parar, descer com as mãos levantadas e, ré confessa, suplicar por misericórdia, “OK, eu ponho no lugar!”

Ser cidadã dá trabalho. Cansa. Demora. É preciso paciência, tempo, alegria, resiliência, bom humor, coragem – quase tudo de que é feita a vida. Há dias, no entanto, que todas essas coisas faltam. Fazer o quê? O problema é quando isso coincide com dia de supermercado.

Não descarto a possibilidade de minha conduta antissocial ser uma retaliação inconsciente contra o atual sistema dos supermercados, cuja dinâmica de compra seria impossível de ser explicada, com alguma coerência, a civilizações superiores de outros planetas que por ventura nos visitassem. O número de vezes que se carrega e descarrega um carrinho (com ou sem sacolinhas plásticas), desde a entrada no estabelecimento até que tudo esteja guardado na despensa, é surreal. Pode ser que os avanços da psiquiatria proporcionem terapia adequada para meu caso. Ou então, o caminho será contar com regressão de vidas passadas, benzedeiras, florais de Bach.

Talvez eu seja como os gatos: se a ordem coincide com o desejo, feito. É por isso que se chama um e às vezes ele vem, às vezes não. No segundo caso, o felino ignora o candidato a chefe, inspeciona o vento, lambe a pata. E, cônscio de si, não obedece. Fazendo uma livre associação: se o lugar dos carrinhos for ao lado de onde estacionei, eu levo de volta. Caso contrário, também desobedeço. Só não lambo minha pata, que fique claro.