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Ao sucesso, com ou sem Hollywood

Antigamente, para ter sucesso, bastava fumar um Hollywood. Ao menos, era o que prometiam as lendárias propagandas dessa marca de cigarro, ao apostar na fórmula aventura & música.

Hoje, basta se matricular numa escola de inglês ou num curso de graduação. Nove entre dez desses anunciantes usam o termo “sucesso” para seduzir aspirantes a um lugar ao sol na praia corporativa. Como se sucesso fosse meio, e não fim. Como se garantia fosse para chegar ao topo. Topo? Só sabe do topo quem escalou montes, contemplou paisagens, sentiu o ar rarefeito, chorou ao pensar na família, achou que não ia dar, e deu.

Sucesso na vida profissional: procura-se a definição, desesperadamente. O estreito desejo de chegar à presidência da empresa a qualquer custo, ou a larga ilusão do contra-cheque de cinco, quase seis, dígitos, em troca de uma perigosa parceria com o tinhoso? Encravar-se na calçada da fama ou passear por ela, livre feito um passarinho?

O sucesso, talvez, seja mais simples: aquele diretorzão lhe parar no corredor para pedir uma dica – de qualquer coisa. Tirar trinta dias de férias, ninguém do escritório lhe procurar nesse meio tempo e, de verdade, tudo estar bem. A moça do café lembrar do seu aniversário, e lhe trazer um que ela acabou de passar. Acordar, nos dias úteis, de razoável bom humor.

Sucesso na profissão, para ser honesta, é ter um bebê em casa e conseguir dormir uma noite inteirinha, antes de ir trabalhar. Sucesso é seu filho brincar de ser você trabalhando – e se divertir muito. Sucesso é office-home, e não home-office.

Para não dizer que não se falou em flores, sucesso também é costurar o próprio vestido e as amigas perguntarem onde você o comprou. Alforriar os cabelos da chapinha e da escova progressiva – essas paroxítonas para suposta beleza. É o esmalte durar uma semana, sem lascar. Ter, todo ano, uma mamografia com resultado negativo.

Sucesso é ver o manacá que você plantou dar sua primeira florada. É clicar, no exato, único e derradeiro instante, o beija-flor na varanda lhe dando alô.

Sucesso é acertar o ponto da massa de nhoque, abrir embalagem de iogurte sem rasgar a tampa. Sucesso é apanhar a manga mais alta, suculenta e sem bicho, lá no sítio do seu pai.

Sucesso, sucesso mesmo, é apagar as velinhas no 115º aniversário, como fez a mulher mais velha do mundo, ano passado. É tirar “Let it be” no piano, depois de apenas dois meses de aula.

Sucesso é o cãozinho de três patas subir e descer escada, na boa. Ou aquele que saiu no jornal, só com as duas de trás, feliz da vida na sua cadeirinha de rodas.

Sucesso é terminar o quebra-cabeça de cinco mil peças. Caprichar num origami e todo mundo acertar o que é. Interpretar o I-Ching com a devida sabedoria. Sucesso é não desafinar na serenata. Sair na ladeira sem precisar do freio de mão.

Sucesso é aquele que vem atrás da gente, e não o contrário.

Sucesso é ter uma lista enorme de coisas que, se não levam ao sucesso, faz a gente imaginar que sim. Isso é Hollywood.

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O que você quer ser depois que tiver crescido?

Ilustração: Rodrigo Müller/Flickr.com

Na rádio, a consultora em recursos humanos lia no ar e-mails dos ouvintes. Invariavelmente, eles pediam orientações para turbinar o currículo ou aprender a fazer o tal do network. Naquele dia, ela leu a mensagem de um médico bem-sucedido: dono de clínica, professor universitário e, de uns tempos para cá, palestrante. A vida estava ganha. Faltava algo, porém. Ele ainda queria crescer, pessoal e profissionalmente. E não sabia qual passo deveria dar. O programa corria sem novidades, não fosse o fato de o caro ouvinte em questão ter… setenta anos. Idade em que noventa e nove vírgula nove por cento das pessoas já penduraram as chuteiras. Não lembro qual foi a dica da consultora no caso, que também deixou escapar sua surpresa. Mas crucifiquei-me por, às vezes, ter tanta preguiça diante da vida.

A lendária pergunta “o que você vai ser quando crescer?” – e todas as suas variações – é uma senhora maldade. Querer arrancar isso de um jovem é dizer na entrelinha que, por ora, ele não é nada. Que ele está à toa na vida, vendo a banda passar. Questionar isso a uma criança, por mais inocente que seja a intenção, é dar um nó em seus tenros neurônios. Ela cresce acreditando que ainda falta muito tempo para se preocupar em ser alguém. E, por ora, segue sendo nada. Pior: passa a crer, piamente, que só será alguém de verdade, socialmente importante, quando escolher uma profissão. E profissão, para um bocado de gente, serve só para ganhar dinheiro. O difícil nessa história é saber qual é o ovo, qual é a galinha. A escolha da profissão, mesmo que da boca para fora, para todo mundo achar bonito – “Quero ser astronauta” – ainda é um rito de passagem, com poder de condenação assim que o aspirante a gente passar no vestibular: Serás advogado para sempre. Mas os ventos parecem estar mudando.

Até pouco tempo, assinalar com xis o curso desejado no formulário do vestibular significava decidir, ainda no início da vida, o que se faria pelo resto dela. E ai de quem marcasse ao mesmo tempo Direito e Educação Física, cadeiras nada afins. O candidato não tinha culpa se gostava, de verdade, das duas coisas. Passava por indeciso ou maluco. Hoje, sabe-se da importância dos múltiplos interesses ao longo da carreira. Não por acaso, o candidato se depara com um sem-número de opções de cursos que seus avós nem sonhariam. Sempre houve, claro, quem guinasse a carreira cento e oitenta graus aos trinta, quarenta anos. Ou quem se recusasse a aguardar o fim da vida na poltrona, com uma manta xadrez sobre as pernas. O que chama atenção, agora, é que esses comportamentos, longe de serem regra, tampouco são exceções, inaugurando um interessante meio-termo entre uma coisa e outra.

Aquele médico da rádio já era bem crescido, talvez tivesse netos e bisnetos. Mas continuava caçando coisas para ser, ainda que na mesma profissão escolhida há mais de cinquenta anos. Gente que faz isso não é doida varrida. É gente reinventada, para usar um termo já cunhado pela modernidade.

Vou lá me consultar com ele. E pegar uma receita de ânimo, atitude e fé.