Arquivo da tag: Candy Crush

O céu é o limite

arte: Tang Yau Hoong
arte: Tang Yau Hoong

Em avião, gosto de espiar o que as pessoas fazem. É mania de onisciência aérea e, garanto, imperceptível para o sujeito. Sabedora de meus podres, desenvolvi técnicas avançadíssimas com ajuda dos óculos escuros para manter o rosto voltado para o horizonte enquanto, secretamente e sem incomodar ninguém, inspeciono o passageiro da esquerda, direita e até o da frente, na fileira oposta. O de trás, no entanto, me escapa. Preciso aperfeiçoar, talvez com idas programadas ao banheiro dos fundos. No universo das manias, o céu é o limite.

Enxerimento não é mau-caratismo. Pode ser feio, deselegante e invasivo, mas só quando escancarado ou mal-intencionado. Abelhudice silenciosa, despretensiosa e confessa como a minha, mal não faz. O que os olhos dos outros não veem…

Começa na sala de embarque. Esforço-me para saber o que tanto conversa no WhatsApp o homem de moletom azul e Havaianas brancas – só visualizo emoticons coloridinhos e concluo que o papo está animado. Distraio-me com o painel de embarque, confiro o Instagram, busco um café. Logo retorno ao meu passatempo favorito de aeroporto, imaginando o tema da escrevinhação da moça com sete (sete, eu contei) piercings, em seu tablet com capa de borboleta. Toda informação relevante coletada em meu voyeurismo aeroportuário segue para o caderninho.

Na aeronave, aboletada em meu assento, flagro à frente um senhor barbudo lendo Jorge Amado. Nosso destino: Salvador. É coincidência em modo avião.

Enquanto a aeromoça passa checando o cinto de segurança de todos, a moça dos piercings passa de fase no Candy Crush. Cada um com o que lhe é importante.

Fecham as portas, vamos decolar. O moço da poltrona ao meu lado apanha o celular e, antes de desligá-lo, contempla demoradamente as duas meninas que lhe sorriem na tela de fundo. Suas filhas, eu sei. Assim como sei dos seus pensamentos. Amor e medo sempre andam – ou voam – juntos.

Crônica de minuto para quem não joga Candy Crush

Eu não jogo Dragon City, Subway Surfers, FarmVille, Angry Birds Friends, Criminal Case, Fruit Ninja Frenzy, nem Papa Pear. Pet Rescue? Já jogo na vida real. A única coisa que o Candy Crush me faz pensar é em Fanta. Não faço coro à imensa maioria das Causes. Também não compareci a nenhum dos 94 eventos para os quais fui convidada, virtualmente, no último semestre. Sou praticamente uma marginal online, a chata digital que não quer brincar de nada.

O velho vício em jogos agora vem acompanhado de uma nova adicção: enviar solicitações para Deus e o mundo nas redes sociais. O viciado, em breve, contará com uma inédita modalidade de grupo de ajuda: a dos dependentes públicos, já que de anônimos não têm nada.

Declino todos os convites que recebo no Facebook e nem fico constrangida por não dar satisfação. Talvez seja esse meu jogo favorito. Mas sei: não foi assim que mamãe ensinou. Quando alguém chamava, “Quer brincar de esconde-esconde?”, e eu não queria, tinha que, ao menos, dizer o porquê. Agora não tenho mais.