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Allah-la-ô

Arte: Gwendal Uguen
Arte: Gwendal Uguen

Não é da ciência, da tecnologia ou da sustentabilidade que depende a sobrevivência e a evolução da nossa espécie. Nem da solução para a violência urbana ou do fim da desigualdade social. Não é nem do amor ao próximo, se você quer saber. É do ar condicionado.

Não há respeito, nem gentileza, ética ou boa educação – substantivos de um povo que vai pra frente – que sobreviva quando os termômetros registram 35 graus, com cara de 40. Não é sensação, é desespero térmico.

No calor, o mau humor aflora. A impaciência progride. A rabugice vence. A preguiça reina. A deselegância invade. A pressão cai.

Você troca a feira livre pelo sacolão refrigerado do supermercado, elimina os parques do seu final de semana, ignora as lojas de rua e qualquer outro ambiente que não esteja envolvido com BTUs.

Você resmunga com o frentista do posto porque ele enrola para passar o seu cartão e, enquanto isso, é preciso manter o vidro aberto com o bafo suficiente para cozinhar batatas invadindo seu carro.

Você amaldiçoa os ônibus, os trens, o inventor da gravata, do tailleur. Maldiz até o Papai Noel que vem chegando (dizem os outdoors). Você amaldiçoa qualquer coisa, essa é a verdade. Exceto o ar condicionado.

Buscar os filhos no portão da escola vira martírio, “Ainda não saíram?”. Enquanto eles não aparecem, você se abana como dá, comenta com a mãe do colega que o calor está demais, pensa em ir esperar dentro do carro, assim poderá ligar o ar condicionado. Você se questiona, nessa hora, até o fato de ter tido filhos. Que mulher dá conta de ser boa mãe, se acaba de derreter?

Exercitar-se ao meio-dia em volta da lagoa, no calçadão ou na ciclovia é sauna-suicídio. Quem são esses doidos varridos?, pergunto, enquanto passo ao lado deles – de carro, evidentemente. Confiro o termômetro do painel que marca deliciosos 20 graus internos, em contraponto aos quinze a mais lá fora. Quase sinto a compaixão brotar em meu coração.

Não é no verão que a humanidade prospera. As maiores invenções não se deram, por certo, em dias extraordinariamente quentes – nem o aparelho de ar condicionado. Ninguém escreve um best-seller ao lado de um ventilador. Monalisa, repare, não usava vestes vaporosas quando foi retratada. “O Trenzinho do Caipira” só pode ter sido composta em um agradável outono, ou qualquer outra época em que Villa-Lobos não estivesse suando em bicas.

Até para a Aurora, moça da marchinha de carnaval, o ar refrigerado estaria garantido – caso ela fosse sincera. Qualquer sirigaita mudaria de vida, diante da promessa.

A menos que o ar condicionado faça parte da cesta básica, a previsão é desanimadora. Para quem está no hemisfério sul, daqui até março, só resta o alalaô.

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Os vestidos do domingo

Foto: Leandro Mise/Flickr.com

Domingo passado fui comprar comida para os gatos, estava no fim. Com fila no caixa, meu passatempo predileto entrou em ação: olhar gente. Mais precisamente, as mulheres. Mulher adora prestar atenção em mulher, e isso é coisa que nem mulher entende o porquê.

A primavera, prestes a se despedir, disse ao que veio. Sol de fazer brotar o que fingiu estar seco, brisa quente. Dia branco, preguiça no ar. E todas as mulheres na loja vestiam vestidos. Todas. Como se uma ordem cósmica tivesse sido dada a elas ao amanhecer daquele sétimo dia, véspera do Dia dos Mortos: Vão viver! Obedientes, as mulheres trataram de tirar os seus do armário. Floridos, xadrezes, listrados, verdes, azuis, rosas, amarelos, com alças, sem alças. E numa coisa todas combinaram: o comprimento, mais curto neste pré-verão. Eu, claro, reparei nas pernas todas.

Conferi se eram bonitas ou nem tanto. Se eram gordas ou magras. Longas ou curtas. Branquelas ou bronzeadas. Se o cirurgião vascular teria trabalho por ali ou não. Se tinham ou não manchinhas roxas, dessas que aparecem quando a gente bate na quina da cadeira. Se o formato denunciava a caminhada diária ou a perna para o ar. Brinquei de trocar mentalmente as pernas de um corpo para outro, para ver como elas ficariam – o que não é nada fácil. Brinquei de tentar adivinhar como era o rosto, olhando primeiro para as pernas. Errei feio: as pernas mais gordinhas não estavam nos rostos mais redondos. Nos pés, dá-lhe rasteirinhas e chinelos cheios de bossa. A fila andou e eu pensei: o conforto há de vencer. A redenção dos pés, finalmente.

Quando eu tinha vinte anos, não usava vestido. Suspirava ao lembrar das minhas pernas aos quinze. Queria ter a cabeça dos vinte, no corpo dos quinze: tudo tão no lugar.

Fiz trinta anos, e já voltara a usar vestidos. Mas suspirava ao recordar das pernas dos vinte. Queria ter a cabeça dos trinta, no corpo dos vinte: eu era feliz e não sabia.

Aos quarenta, continuei metida nos vestidos. E ainda suspiro ao pensar nas pernas dos trinta. Queria ter a cabeça dos quarenta, no corpo dos trinta: como é que pode a gente mudar tanto em uma década?

Já que existe certa inteligência nisso tudo, resolvi não esperar meus cinquenta anos. Desta vez, a nostalgia será ao contrário, e vale para todas as partes do corpo. Dou um pulo lá na frente e, sabendo que sentirei saudades de agora, declaro-me, hoje, pronta e perfeita para o que minha imaginação me autorizar a vestir. Tirando o que for tão curto quanto a vida, eu vou é botar o meu bloco na rua.