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Noia

– Crédito, por favor.

Digito a senha e percebo (ou invento) olhares próximos. Na dúvida, faço um balé com os dedos a fim de desorientar o espião imaginário. Tornei-me paranoica digital, crente que todos querem invadir minha conta-corrente, roubar meus tostões, fazer compras no E-bay em meu nome.

Danço os dedos em volta do tecladinho, finjo que digito 2, mas aperto o 5. Faço de conta que é zero, quando na verdade é 9. Fiquei craque no ilusionismo numérico. Divirto-me, confundindo não sei quem. Teclo enter, vitoriosa: “Não contavam com a minha astúcia”.

Se vou na loja de conveniência cheia de gente e o caixa eletrônico fica ao lado dos salgadinhos, a neurose é potencializada. Debruço-me sobre a máquina e praticamente faço amor com o teclado. Ninguém fica sabendo se saquei ou fiz transferência.

Certa vez, ao pagar o café, pude jurar que o moço do caixa observava, de soslaio, o movimento dos meus dedinhos. Não hesitei: inseri a senha errada, crente que o blefe o despistaria. Na nova tentativa, girei a maquineta, desfavorecendo a visão do candidato a meliante. Ainda bem que eu havia pedido um macchiato duplo. Cafeína suaviza qualquer noia. (Ou não.)

Amo quando, ao redor das maquininhas, há aquela pequena barreira, impedindo olhares alheios sobre a combinação numérica secreta. Eu, no entanto, aprimoraria a coisa: aumentaria a altura para dez centímetros. Quinze, talvez. Só eu e Deus, que é de confiança, saberíamos minha sequência de seis dígitos.

É medo urbano, contemporâneo e explicável até certo ponto. Pois sei que não sou seguida e observada em tempo integral quando saio às ruas. Não chamo atenção, principalmente quando uso minha Hering surrada ou estou com uma de minhas bolsas favoritas, já carcomida pelo tempo (não dou, não dou, não dou). É que toda metrópole, não sem razão, é produtora de paranoicos.

E olha que nem contei: jamais deixo a chave de casa dentro do carro nos estacionamentos. Sempre penso que o manobrista vai descobrir, pela placa ou outra pista, o meu endereço e fará cópia da chave enquanto eu não volto.

É grave, doutor?

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Biometria

“Passé/Futur”, an untrained eye, 2008

Eu não gosto do leitor biométrico do caixa eletrônico. Ele duvida da palma da minha mão. Pacientemente, reinicio o procedimento, já hesitante acerca da própria identidade. Será meu destino tão nebuloso assim?

Após cinco tentativas, ele cospe meu cartão e diz que não pode realizar a operação. Tenho garantias de RG a oferecer, nome de pai e mãe, data de nascimento. Ele desdenha. É a quiromancia digital, com previsões nada animadoras acerca do meu saldo.

A praça da Sé era meu caminho na volta do colégio. Ao sair da estação do metrô, era preciso fugir do assédio das ciganas, legítimas ou falsificadas, espalhadas ao longo do calçadão, seduzindo os ingênuos com a promessa de revelar-lhes o futuro através das linhas das suas mãos. Aquele negócio de adivinhação, pensava, não devia pagar bem. Eram todas maltrapilhas, geralmente descabeladas e invariavelmente desdentadas. Pegavam pesado na maquiagem, quase sempre nos mesmos tons dos seus vestidos multicoloridos e de suas bijuterias ordinárias. Eu andava apressada, mas havia tempo de observar os que caíam nos seus contos. Às vezes, um resto de previsão chegava aos meus ouvidos, “Você vai se casar no ano que vem”.

Bancos e ciganas são semelhantes. A cigana pega seu dinheiro e depois lê sua mão. O banco lê sua mão e depois lhe dá o dinheiro. Os dois querem sua grana. Ambos lhe enganam, e com a sua autorização.

Eu dispensava as ciganas da praça, já sabia meu futuro: dali trinta minutos, devoraria um pratão de arroz, feijão e “mistura” em frente à TV da sala. Era hora do almoço e eu chegava em casa faminta, depois de cinco horas de aula. Também sabia meu futuro, logo após a sobremesa: descansar um bocadinho e pegar os livros. Preparar-me, enfim, para o futuro que parecia tão distante. Eu que li errado; o futuro era logo ali. Às vezes, penso que ele já passou.

Faço nova tentativa. Posiciono minha mão, dedos estatelados como mostra o desenho no painel. Seguro o ar para não movimentar nenhuma impressão digital. Tenho a impressão de que a máquina me olha com olhos de big brother, e também analisa meu penteado, confere minha roupa, será que gosta da minha echarpe de bolinhas? Eu confiro o tempo lá fora, vem chuva.

Que revelações o leitor biométrico do caixa eletrônico, esse cigano de lata e plástico, me reserva? Terei sorte no amor? Farei uma grande viagem? Viverei feliz para todo sempre? Ou serei assaltada na saída?

A biometria diz que eu sou única. Mas só a cigana fala de amor.

Dois pastel

Peço pastel de queijo – “Bem branquinho, por favor” – e suco de laranja. Com gelo, sem açúcar. A antiga barraca do parque não é das mais asseadas, então evito os passeios do meu olhar detetive. Pago adiantado. Na carteira, sobra o troco miúdo; esqueci de sacar e não há notícia de caixa-eletrônico por perto. Depois do advento do cartão de crédito, é sempre assim.

O vinagrete fresquinho lembrou a reportagem da TV, ensinando não encostar a colher no pastel, porque ela é compartilhada com centenas de pastéis e, consequentemente, centenas de mãos e bocas. Orientação impossível de acatar, o bacana é botar o vinagrete lá dentro. Mando a lição às favas, “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraída”. Amém.

Encerro o pastel, mais um? Penso nos trocados, não estou certa se são suficientes. Gastronômica ironia do destino: faltam cinco centavos para o pedido. Cinco! Agrupo, por valor, as moedas no balcão e conto de novo, bem devagar. A mágica não se faz, continua faltando. Ensaio reivindicar fiado, pedir desconto à vista, sugerir anotar na caderneta. Fico sem jeito, constrangida por não ter disponível dindim para um salgado. Nessa hora, tanto faz se falta pouco ou muito. Além do mais, o dono do lugar, com semblante de poucos amigos, há de ficar bravo. “Se cada cliente resolver fazer isso…” – eu sei, eu sei.

Vasculho todos compartimentos da bolsa. Naquele dia, cinco centavos representavam a diferença entre sonho sonhado e sonho realizado, barriga cheia e barriga, digamos, quase cheia. O valor de um dinheiro está na importância que lhe é atribuída. Por que não pedi guaraná, mais barato, em vez de suco?

Limpo os dedos no guardanapo, faço bolinha, acerto o cesto. O jeito é passar vontade e ir para casa. Ou esperar a vontade passar. Tomo o rumo do estacionamento, na esperança de que tenham instalado ali, nos últimos dez minutos, um banco 24 horas. O guardador de carros, quando viesse pedir o seu, acreditaria se eu lhe dissesse “Hoje não tenho”?

Paulistano, reza a lenda, pede “um chops e dois pastel”. Naquele dia eu, que desejei pastéis no plural, teria que me contentar com pastel no singular.

Ao entrar no carro, o lampejo. Estico o braço no nicho do console e lá está ela, reluzente, única. Troco do pedágio ou compaixão de algum anjo  dado a fazer mágica. Nunca imaginei ser tão feliz ao ver a efígie de Tiradentes. Não resta dúvida: volto e traço o segundo pastel. Quer saber? Mais gostoso que o primeiro.