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Pra não dizer que não falei dos testes em animais

Foto: Cam-Fu
Foto: Cam-Fu

Vou logo avisando: eu também realizo testes em animais. Todos os dias, praticamente. E faço isso desde que me entendo por gente. Nenhum ativista, até hoje, veio tirar satisfação.

Muitos bichos, de várias espécies, já passaram pelas minhas mãos. Atualmente, conduzo pesquisas aleatórias, inventadas ao sabor dos ventos, com três exemplares de Felis catus.

Em meu lar, os três gatos, ex-abandonados ao Deus-dará das ruas, são mantidos com o sol da manhã no quintal e da tarde na varanda, ração da boa, água fresca à vontade e acesso irrestrito às camas – ou qualquer outro lugar onde eles cismem de ficar.

Costumo testar-lhes a paciência várias vezes ao dia, acordando-os de suas sonecas. Só para dar um beijinho.

Estudo também o impacto de seus ronronados no meu estado emocional, e aproveito para testar a maciez de seus pelos, sempre que eles passam por mim ou dão sopa no sofá.

Um dos meus testes prediletos, de altíssima complexidade, consiste em fingir que meu dedo é uma minhoca gorda e suculenta escondida sob o lençol, só para averiguar se seus instintos caçadores estão em dia. Sempre estão.

Dentre os vários testes aplicados aos bichanos, um dos mais importantes é o que determina, no quesito diversão, a preferência por barbantes ou bolinhas de papel. Anos de estudos demonstraram que as bolinhas mais interessantes são as feitas com comprovantes de compras do cartão (de crédito ou débito), o que constitui dado dos mais relevantes para a economia do país.

Vou anotando, mentalmente, os resultados numa planilha imaginária que não serve para nada, exceto tornar meus dias mais felizes.

De todos os testes, o único que ainda não apresenta conclusão consistente é a tentativa de identificar em qual gene felino se encontra o hábito ancestral de tentar pegar o próprio rabo.

Os objetos dos meus experimentos não são, no entanto, apenas os felinos. Costumo, esporadicamente, realizar experiências com exemplares avulsos de Canis lupus familiaris, igualmente advindos das ruas, e eventualmente de Columbina passerina, os filhotes de rolinha que teimam em cair dos ninhos nos jardins do meu condomínio. São todos bem-vindos ao meu universo empírico.

Conviver com um animal é, em si, uma das mais ricas experiências científicas, sensoriais, sociais e afetivas que há. Descobri que os bichos (não apenas os domésticos) são, em si, o melhor remédio contra solidão, loucura, raiva e rabugices em geral. E que são a melhor tradução da amizade, essa ciência tão inexata que não se comprova, tampouco se reproduz in vitro.

Talvez descubra, um dia, que a “cobaia” sempre fui eu. Sou permanentemente testada em minha compaixão e capacidade de cuidar e amar sem nada exigir em troca. Quem sabe, também descubra que nós é que deveríamos ser submetidos a algum teste, a fim de validar nosso merecimento ao pedestal do mundo.

Tem gente, em nome da ciência, dedicada a fazer da vida dos bichos, entre eles os beagles, irmãos do Snoopy, uma experiência infeliz.

Deixa a turma do Charlie Brown saber disso.

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A revolta dos poodles

poodle

Vira e mexe, aparecem aquelas faixas pela rua. Gente que perdeu seus bichinhos de estimação. Alguém viu o Totó por aí? Sempre presto atenção nelas, procuro decorar a descrição e ficar atenta. Mais gente deve fazer assim, pelo menos por alguns quarteirões. Mas depois a gente esquece e vai cuidar da vida. Como se tentar ajudar um bichinho que se perdeu a voltar para o carinho dos seus donos também não fosse cuidar da vida.

Gosto de ver como os donos descrevem os detalhes de seus amigos de quatro patas. Um é tímido, outro manca de uma pata. Tem os que precisam de remédios diários, o que me coloca numa aflição danada. Tem também a “criança doente”. Pode até não existir criança nenhuma na história, mas a mentirinha é do bem. Até topam pagar para ter o bichinho de volta. Maluco, visto que devolver um animal encontrado é obrigação, assim como devolver qualquer coisa que não lhe pertence. Alguns donos tentam ajudar na identificação, explicam que o cachorrinho é da raça daquele amortecedor, quem se lembra? Outros castigam a gramática: “Procura-se cão bigou“. Gosto de fantasiar que achei, assim por acaso, o Fox Paulistinha perdido, descrito na faixa perto da padaria. Tinha nome de filósofo, fugiu do petshop na véspera do Natal. Ligo e aviso: está comigo! Dou asas à imaginação e imagino um reencontro emocionante, lágrimas, latidos de felicidade e rabinho abanando.

Esses bichinhos se perdem tanto… Por vezes, são roubados. Difícil é entender alguém que rouba um animal que tem casa, donos, uma história. Achou aquele bonitinho? Então por que não adotar um parecido? Tanto bicho abandonado. Vai me dizer que aquele tinha alguma coisa de especial, como adivinhar o futuro?

Mas voltando às faixas: fico pensando se eles se perdem mesmo, ou simplesmente vão-se embora, querem é se pirulitar. Um tempo atrás, me chamou a atenção as faixas de poodles perdidos na cidade. Foram uns três, no mesmo mês, em bairros diferentes. O que me fez desconfiar de um movimento silencioso. Estariam os poodles se organizando e planejando uma fuga em massa? Basta das tosas que os deixam com cara de algodão-doce. As patas peladas, compridas e finas, a bola de pelos crespos na ponta, num esquisito layout. A cabeça pequena, focinho fino e uma cabeleira enorme, toda enroladinha, igual às permanentes que se as mulheres (eu incluída) faziam nos anos oitenta. Chega de roupinhas, enfeites na cabeça, luvinhas, sapatinhos. Fraldas! Esmalte para as unhas. Bizarrices mal inventadas e bem vendidas para pessoas que ainda não decidiram se querem animal de estimação, brinquedo ou filho. Bicho é bicho. E bicho precisa de amor, alimento, abrigo, vacina e respeito. Só.

Seria o início de uma revolução dos bichos, deflagrada justamente por eles, os poodles, símbolo maior do madamismo cafona de outrora, reivindicando uma maneira mais nobre de nos relacionarmos com os bichos? Seria a fuga um protesto para uma profunda revisão no entendimento dos animais? Não somente acerca de frufrus dos ditos domésticos, posto que isso é mero detalhe diante da coisa toda, mas da compreensão de seus papéis, ao lado de todas as outras espécies do reino animal, subjugadas século após século? Quem dera fosse o momento. Ficaria feliz em presenciar um movimento desse quilate.

Retorno aos meus afazeres. E continuo de olho nas faixas.