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Da coragem

Arte: Richt
Arte: Richt

Desde que deixei de tingir meus cabelos, há duzentos e vinte e seis dias, e passei a exibi-los na cor que Deus quer – e quis Ele que fossem, na maioria, brancos – , tenho ouvido de tudo. O mundo é feito de três tipos de mulheres: as que acham horrível deixá-los à mostra, as que acham bonito, e as que acham bacana, mas não para elas.

Dos predicados a mim atribuídos por conta da atitude, “corajosa” é o que eu mais acho graça.

De tanto ser considerada uma mulher de coragem por assumir meus fios albinos, deduzi que a possibilidade de ser chamada de velha assombra as mulheres mais que o câncer de mama. A coloração está em dia. A mamografia, nem sempre.

Não foi preciso respirar fundo para dizer bye-bye às colorações que me acompanhavam há vinte anos. Tampouco tremi, pensando o que seria de mim sem elas.

Coragem, para falar a verdade, é usar salto de quinze centímetros.

Coragem é almoçar fora todos os dias, sem a garantia de que o rapaz que preparou a sua salada lavou as mãos depois de ir ao banheiro.

Coragem é desembolsar quatro dígitos em uma calça jeans. Feita do mesmo tecido, aliás, que a vendida na loja de departamentos, cuja etiqueta não ultrapassa dois.

Corajosa é quem devora a caixa de Amandita à uma da manhã. Ou quem levanta às cinco para fazer ginástica, antes de ir trabalhar.

Coragem é entrar em um prédio em chamas para salvar o bebê que está lá dentro.

Coragem é discordar, com propriedade, do presidente da empresa na frente dele e da turma do Conselho.

Coragem é topar um emprego de assistente social na região mais violenta da cidade.

Coragem é sair do armário.

Coragem é ter o terceiro filho.

Essa mulher, sim, é valente.

Assumir os cabelos brancos, perto disso, é fichinha. Sou café com leite. E, já que o assunto é branco, mais leite que café.

Eu, que de bravura tenho pouco a expor, só fiz descobrir que branco é apenas mais um tom para a gente se divertir. Mais uma opção, assim como o castanho e o vermelho, na paleta de cores da mulher possível.

Notas:

1. Eu disse que ia de branco, um dia.

2. Vem ver meu “Diário de um cabelo branco no Facebook.

A moda em quatro atos

Arte: Gustavo Peres

I

Chamo a vendedora e aponto na vitrine:

– Aquela ali, roxa.

Ela entorta a cabeça, espreme os olhos, mira o objeto do pedido:

– Ah, a berinjela.

– Não, a roxa – repito.

Tal a mulher-elástica, ela alcança com a mão a peça por trás do vidro:

– Esta aqui?

– Isso! A roxa.

– Ah – diz, voltando ao seu tamanho normal – A gente chama de berinjela.

II

– Bonita, sua écharpe. Nude vai com tudo, não?

– É. Bege é muito fácil de combinar.

– Nude, querida. Nu-de.

– Bege.

– Nude.

– Bege.

III

Leio na revista: “A noiva usava uma headband sessentinha”. Penso, logo, falo: “Isso é uma tiara”. A manicure passa o palitinho na acetona e, enquanto capricha na limpeza dos restos de esmalte, ensina: “Ninguém mais fala assim. É headband”.

IV

– Experimente este – sugere a vendedora (outra), trazendo um escarpim. É um off-white tranquilo, não aquele brancão.

Cogito pedir a ela que repita, preciso checar se entendi direito. Então o branco não só fôra rebatizado, como ganhara sentimentos. Oh oh.

Berinjela não é exatamente roxa e nude não é propriamente bege. Há, de fato, uma sutil diferença (identificada com a ajuda do cromossomo X). A casca do legume, por exemplo, é mais que roxo; esbarra no marrom-café, flerta com o vinho. Nude (nu em inglês), dizem, puxa para a cor de pele. Pele de quem, minha ou sua? É “núdi” ou “núde”que se fala? Fato: é um bege clarinho com uma pitada de rosa. O off-white nasceu branco, mas ganhou pinceladas de algum tom que ninguém sabe dizer qual é. A tiara? Bem… melhor deixá-la em paz. Tirando o vegetal – repare –, todos os termos são importados.

Ouvi, certa vez, uma vendedora (eu adoro vendedoras) classificar um casaqueto na cor “maçã verde”. Não podia ser só verde, tinha que ser associada a alguma coisa de comer, igual verde limão. Aliás, com ou sem hífen?

O século XXI trouxe – pleonasmo proposital – novidades verdadeiramente novas. O mercado de trabalho que o diga: há quinze anos não tinha isso de ser designer de games ou analista de redes sociais. Simplesmente porque essas ocupações não existiam. O processo vivido pelas cores não é bem assim. É neologismo fashion. Modas da moda. Sujeitas, portanto, às mudanças dos ventos.

A rainha, assim como o rei, está nude.