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Bege is beautiful

Esquire Calendar,Ren Wicks (1948)
Esquire Calendar, Ren Wicks (1948)

Ela é assunto em blog cabra-macho, pauta de tweet-testosterona, motivo de ojeriza nas mesas regadas à cerveja. Até reportagem na TV já se fez. É quase um levante popular velado. E contra quem? A coitada da calcinha bege. Essa injustiçada da indústria têxtil, condenada sem pecado.

Da cueca bege ninguém diz nada.

São protestos aqui e ali, pró-impeachment da peça. Justo ela, que nos salva sob o vestidinho branco. Ela, que nos livra do trabalho de decidir,  às seis da manhã e ainda escuro, entre a paleta de cores da gaveta. Ela, que habita a delicada fronteira imaginária de Marte com Vênus.

É com ela que as mulheres vão, meu bem. A calcinha bege é delas assim como o futebol é deles. (E tem esporte mais bege?) Usa-se e assiste-se, a despeito do outro. O bege pode não ser o tom mais divertido do mundo. Mas o verso de Alberto Caeiro já ensinava:

“A cor é que tem cor nas asas da borboleta”

Portanto, o protestador incauto que se conforme: a patroa ama. Ela pode até ter a lingerie transadona para de vez em quando – calcinhas que cumprem a escala Pantone inteirinha, fio dental alucinante, espartilho high-tech – , mas é na amiga cor de pele que ela confia e deposita a garantia de seu conforto diário. A etnia parda, quer queira ou não, predomina sua população de roupa íntima. Não desbota fácil. Tem raça.

Desconjurar e militar pelo seu banimento é nhém-nhém-nhém hormonal. O mesmo que achar que a mulher tem o dever de ser sexy em tempo integral; uma máquina de sedução ligada no 220, em stand by até o próximo encontro. Ter obrigação de estar gostosa a qualquer momento cheira a coisa velha. Nada é mais charmoso que o sossego.

Não confundir com lingerie esbeiçada, registre-se. A beginha também precisa estar decente. Nada de correr riscos durante, por exemplo, uma emergência médica.

Quero ver ser gata e segurar a onda numa noite (ou tarde, ou manhã) de amor com uma calcinha cor da pele e sem costura.

Bege is beautiful.

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A moda em quatro atos

Arte: Gustavo Peres

I

Chamo a vendedora e aponto na vitrine:

– Aquela ali, roxa.

Ela entorta a cabeça, espreme os olhos, mira o objeto do pedido:

– Ah, a berinjela.

– Não, a roxa – repito.

Tal a mulher-elástica, ela alcança com a mão a peça por trás do vidro:

– Esta aqui?

– Isso! A roxa.

– Ah – diz, voltando ao seu tamanho normal – A gente chama de berinjela.

II

– Bonita, sua écharpe. Nude vai com tudo, não?

– É. Bege é muito fácil de combinar.

– Nude, querida. Nu-de.

– Bege.

– Nude.

– Bege.

III

Leio na revista: “A noiva usava uma headband sessentinha”. Penso, logo, falo: “Isso é uma tiara”. A manicure passa o palitinho na acetona e, enquanto capricha na limpeza dos restos de esmalte, ensina: “Ninguém mais fala assim. É headband”.

IV

– Experimente este – sugere a vendedora (outra), trazendo um escarpim. É um off-white tranquilo, não aquele brancão.

Cogito pedir a ela que repita, preciso checar se entendi direito. Então o branco não só fôra rebatizado, como ganhara sentimentos. Oh oh.

Berinjela não é exatamente roxa e nude não é propriamente bege. Há, de fato, uma sutil diferença (identificada com a ajuda do cromossomo X). A casca do legume, por exemplo, é mais que roxo; esbarra no marrom-café, flerta com o vinho. Nude (nu em inglês), dizem, puxa para a cor de pele. Pele de quem, minha ou sua? É “núdi” ou “núde”que se fala? Fato: é um bege clarinho com uma pitada de rosa. O off-white nasceu branco, mas ganhou pinceladas de algum tom que ninguém sabe dizer qual é. A tiara? Bem… melhor deixá-la em paz. Tirando o vegetal – repare –, todos os termos são importados.

Ouvi, certa vez, uma vendedora (eu adoro vendedoras) classificar um casaqueto na cor “maçã verde”. Não podia ser só verde, tinha que ser associada a alguma coisa de comer, igual verde limão. Aliás, com ou sem hífen?

O século XXI trouxe – pleonasmo proposital – novidades verdadeiramente novas. O mercado de trabalho que o diga: há quinze anos não tinha isso de ser designer de games ou analista de redes sociais. Simplesmente porque essas ocupações não existiam. O processo vivido pelas cores não é bem assim. É neologismo fashion. Modas da moda. Sujeitas, portanto, às mudanças dos ventos.

A rainha, assim como o rei, está nude.