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Pelo universo

Arte: Víctor BS

Catei o gato e o enlacei. Ele miou curto, concedendo-me o prazer da contradança. Saímos rodopiando pela cozinha, o feijão no fogo. Faltava a música, então cantei “Across the universe”, baixinho, na sua orelha.

Está certo que troquei uns versos de lugar e esqueci outros. Eu cantava ao vivo, não havia playback. Ele percebeu, mas não disse nada.

Felinos entendem bem do refrão: nada muda o mundo de um gato. Acordar, comer, lamber a pata, alongar-se, quentar ao sol ou abrigar-se da chuva, dormir, caçar passarinho, dormir, caçar lagartixa, dormir. Mesmo que não tenha dono, sua agenda é a mesma (talvez com alguma privação), somada à fuga perante o inimigo.

Eu, que vivo cantando “Nothing’s gonna change my world”, sei que minto. O meu, na verdade, já mudou um bocado. A ponto de eu não reconhecê-lo. Não conto com tanta invencibilidade. É que tudo fica mais bonito numa canção.

John Lennon adorava gatos.

A história da humanidade é feita de guerras, revoluções e modas. A dos gatos, não. Eles permanecem praticamente os mesmos em suas gatices desde que foram domesticados, coisa de dez mil anos atrás. Os gatos não mudam de ideia. Sua revolução está na ponta da língua áspera. A moda deles segue a única tendência possível: liberdade. E um barbante será sempre um bom entretenimento.

Encontrá-los pelo mundo é uma espécie de déjà vu. Sejam os bichanos franceses, norte-americanos, libaneses, japoneses, angolanos ou apenas os que zanzam pelos telhados da rua de cima, é o mesmo teatro, o mesmo balé, o mesmo filme. Se querem carinho, vêm, vão, fingem não estar nem aí com você. Cavilosos, se escondem e voltam; hasteiam o rabo-antena, tombam no chão, esfregam-se em tudo. É a senha: “Vem”. Em dois minutos estão trançando em suas pernas. Se não querem papo, também nisso são todos iguais: ignoram. Entocam-se n’algum buraco, adentram alguma cerca, escalam o muro mais próximo, seguem pelo universo. Gato é um ser manifesto.

Todo mundo deveria saber imitar gato.

Repeti para ele, à exaustão, o mantra “Jai guru deva”, caprichando no “om”. Conectado com seu deus, o Grande Gato, ele o compreende melhor que eu. Fizemos mais uns passos, o feijão ficou pronto. Então ele, com o rabo, me disse: “Agora chega”. E pulou do meu colo.

Para Benta.

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All You Need Is Love (ainda sobre as gentilezas)

Ninio Romantico/Flickr

I

Um dia o Carlos, meu cunhado, chegou em casa com um presente para minha filha. Era uma enorme tartaruga de pelúcia cor-de-rosa. A tartaruga tinha um zíper na barriga, e nela quatro ‘ovinhos’ feitos de pano. Dentro, os filhotinhos. A tartaruga poderia ficar grávida e não-grávida, e as tartaruguinhas nasciam quantas vezes a gente quisesse. Era só colocar os bichinhos de volta na barriga e começar a brincadeira de novo. Enquanto minha filha se divertia com a novidade, meu cunhado revelou: Eram cinco ovinhos. E cadê o outro?

Foi assim. O voo estava lotado. Uma mulher estava com sua filhinha pequena no colo, que chorava sem parar. A mãe tentava distraí-la, cantava, contava histórias e nada. Os passageiros – meu cunhado, inclusive – já se incomodando com a situação, mas fazer o quê? Criança não quer nem saber, quando quer chorar, chora mesmo.

Foi quando o Carlos teve uma ideia. Pegou a tartaruga que estava embrulhadinha no bagageiro, e não teve dúvidas. Ou melhor, teve, mas era um quase caso de vida ou morte. Ele abriu-lhe a barriga, retirou um dos ovinhos e o deu à menininha. Como num passe de mágica, ela abriu um sorriso e parou de chorar. E todos viveram felizes para sempre.

Está certo, meu cunhado teve outra motivação, além da compaixão: o desejo de viajar em paz. Mas tirante isso, o gesto foi, no mínimo, uma gentileza das boas. Capaz de fazer a diferença na vida daquela garotinha, naquele momento. E da sua pobre e desesperada mãe. Eu, que não sou pessoa das mais gentis, tenho aprendido nos últimos tempos: todo mundo pode fazer alguma coisa por alguém, sempre. Algo simples, que não nos tira do caminho, não nos atrasa e não nos onera. Juro: a vida fica melhor assim.

Minha filha adorou o presente com o bichinho a menos. Até porque ela nem sabia da quinta tartaruguinha – que deve estar até hoje na casa da menininha.

II

Existe um lugar na blogosfera chamado Crônicas de uma menina feliz (não faço o link aqui de propósito, só mais adiante). A dona dele, uma brasileira que vive na Alemanha, dedica-se a uma atividade singular. Ela faz desenhos para os outros. Mas não são simples desenhos. Quero dizer, são desenhos simples, que ela própria chama de ‘bobinhos’, mas que não são nem um pouco simples na sua natureza. Ela desenha a vida das pessoas. Gente que ela nunca viu na vida lhe manda histórias de suas infâncias, contando suas doces memórias, e ela põe tudo no papel. Depois, todo mundo pode ver na tela. Às vezes, ela fica sabendo de uma história (triste ou feliz), se comove, e lá vai ela desenhar. Com um capricho de dar gosto.

Quando encontrei esse site, absolutamente por acaso, resolvi lhe mandar algumas das minhas histórias, assuntando se ela não gostaria de desenhá-las. E não é que ela gostou da ideia? Antes, fez uma espécie de entrevista comigo: quis saber como eram meus pais, meus irmãos, que roupas eu usava quando criança, como era a casa onde cresci.

Quando vi o post de hoje no seu site foi impossível não ficar com os olhos rasos d’água. Fiquei impressionada, e comovida, com sua habilidade para captar os detalhes do que lhe contei, das fotos que lhe enviei, traduzindo tudo em desenhos transbordantes de carinho e delicadeza. Como se as pessoas da minha família (até o gato) fossem seus velhos e queridos amigos. Ganhei mais um presente diferente e bom este ano, além dos que eu já contei aqui dias atrás.

Essa moça é uma verdadeira retratista de boas lembranças. Ela doa seu tempo e sua energia, simplesmente para fazer um agrado. Pensei com os botões: por que uma pessoa faz isso? O que move um desconhecido a nos endereçar tamanha gentileza? Sim, porque podemos ser gentis com quem está à nossa volta. Mas quando o somos com quem não conhecemos, propriamente dito, o sentido muda. É outro papo.

O que a move é simplesmente a alegria de imaginar a alegria das pessoas vendo seus desenhos, que são dela mas que pertencem, de um jeito muito especial, às pessoas retratadas neles. Aquele sentimento que, de um jeito ou de outro, é o que  funda o trem das nossas vidas.

É preciso registrar uma coisa: ela havia me avisado que publicaria minha historinha hoje. Então, este post aqui já estava meio pronto desde ontem, eu só estava esperando ver no que a coisa tinha dado para completá-lo. Prestem atenção: lá no finalzinho de seu post ela resolveu colocar uma música. Que também já estava aqui desde ontem e é, inclusive, o nome deste post. Ninguém combinou nada. Para quem acredita em coincidências…

III

Ave Beatles.