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Sobre bolos e planetas

Ilustração: Heap/Flickr.com

Assim como fazer terno no alfaiate e chamar pai e mãe de senhor e senhora, de tempos em tempos algum costume antigo entra na lista dos extintos, ou em vias de. Nem toda extinção é ruim, o mundo mudou, e coisa e tal. Mas há uma tradição cujo desaparecimento, lento e silencioso, não é um bom sinal: a do bolo feito em casa.

Aquele, que requer a cozinha de um lar para ser preparado, uma receita gostosa, de preferência passada por uma tia, e um bom forno onde possa ser assado. Aquele, que leva ovos de verdade quebrados um a um, com delicadeza, em uma vasilha separada, vai que algum está estragado. A farinha e o açúcar, medidos em uma xícara de louça. As claras em neve. Fermento, só no finzinho. Certa bagunça em torno da pia. Avental com vestígios de chocolate. Um par de olhos vidrados de criança observando tudo. Forma untada, para não grudar. E o insubstituível aroma na casa inteira, depois de trinta minutos.

Um dia, minha mãe ganhou aquela batedeira “planetária”. Presente do meu irmão. A engenhoca tem para vender até hoje, e se chama assim por causa dos movimentos de rotação e translação dos batedores, semelhantes aos dos planetas em torno do sol. Eu ficava encantada com a analogia. Muito mais rápidos que os, na época, nove planetas do Sistema Solar, os dois planetas de ferro do outro sistema, mais barulhento, giravam em torno de nada e completavam um dia e um ano em frações de segundos. Neles, o dia, a noite e as quatro estações eram uma coisa só, homogênea. Como ia ficando, aos poucos, a massa do bolo.

Tudo passado. Estamos na era do bolo abreviado. Basta passar na padaria, no mercado, na confeitaria, e escolher um pronto. De qualquer sabor. Qualquer tamanho. Com todos os tipos de cobertura e recheios. É levar para casa e servir. Não tem mais farinha pela cozinha, nem surpresa ao descobrir, na última hora, que o fermento está vencido. Também sai de cena o olhar da criança, que vai vidrar em outra coisa. A batedeira, aposentada, ainda mantém seus planetas em órbita, agora inertes e sem vida no finito espaço do armário. Acaba, de vez, a história de raspar o restinho de massa na tigela.

O restinho era fundamental. Tão importante quanto o bolo pronto. Minha mãe colocava a massa no forno, marcava o tempo no relógio e liberava a tigela. Era hora de passar o dedo no que sobrara nela. Com o tempo, aquilo se sofisticou, e minha mãe passou a deixar mais massa. O restinho se tornou um ‘restão’. Cada um dos filhos se armava de uma colher, e o lanche da tarde começava ali. Nunca tivemos a dor de barriga que minha avó insistia em profetizar.

Hoje, a gente bem que tenta conciliar velhos rituais com a emergente praticidade. Mas vamos ser honestos: bolo que é bolo não vem em caixinha. É o viés da conveniência, da rapidez. Ao misturar o pó do pacotinho com leite, ovos e manteiga, ainda que numa batedeira, não se está fazendo um bolo. Nem genérico, nem similar. Até o restinho da massa na tigela não terá tanta graça. O que crescerá no forno é uma coisa qualquer – que também serve de alimento, se não houver ninguém muito exigente em casa. Bolo precisa de mão, de rito, de tempo para acontecer. E tempo, a gente sabe, vem das voltas que o planeta dá.