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O peso do tempo

Era hábito: parar nas farmácias perto de casa e me pesar nas enormes balanças. Aquelas, antigas. Aferição sem compromisso, meus (poucos) quilos de criança não importavam. Em jogo, apenas o ritual. A parada era o imprevisto, previsto no meio do caminho para comprar o pão do lanche da tarde, o papel almaço para a lição, o bife do jantar. Pousar na balança significava congelar o tempo por um instante, enquanto a rua e sua gente mantinham o ritmo do lado de fora da farmácia. Ao descer da balança, me esquecia do que o ponteiro havia dito e retomava meu passo na coreografia bem ensaiada do dia. O bairro tinha seu balé.

Toda farmácia que se prezava instalava sua balança de propósito perto da porta. Era o convite, a desculpa, o pretexto para entrar. Todos eram bem-vindos, mesmo quem não estava atrás de comprimido para dor de cabeça, injeção, pomada para queimadura. Nas balanças, vi meu peso crescer através das décadas e das dezenas. Trinta, quarenta, cinquenta quilos. Encostei nos setenta, nas vezes em que havia outra pessoa dentro de mim.

As balanças de hoje não convidam mais ninguém a entrar nas farmácias. Encolheram, esconderam-se, são eletrônicas, precisam de tomadas, pedem moedinhas para ver se o peso está de acordo com a altura. As antigas não queriam nada de nós, além da breve companhia. Quem é que tinha ouvido falar em IMC?

Perdi o hábito de entrar nas farmácias só para me pesar. Agora vou atrás de xampus, cremes e até remédios. Vez por outra, quando a balança está ao lado do caixa, verifico os quilos enquanto aguardo o troco. Mas eles continuam sem tanta importância, meu termômetro é a roupa. Reparei que as lembranças, estas sim, valem quanto pesam. E que o peso do tempo é a medida da saudade.