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Crônica de viagem #2 ou Bom apetite

Arte: Ian Burt
Arte: Ian Burt

Minha moeda não é o euro, mas em voo de cruzeiro a preguiça é real. Estico as pernas o quanto dá, procuro um filme razoável para assistir. A viagem transcorre dentro da normalidade, até onde a poltrona reclina. As crianças estão entretidas com suas traquitanas eletrônicas. São onze horas pela frente para tentar dormir. Sem novidades no ar. Até que anunciam meu nome no alto-falante. “Passageira Silmara Franco. Por favor, identifique-se”.

Danou-se. Que diabos querem comigo?

Fico bem quietinha em meu assento, aguardo que repitam. Vai que confundiram a pessoa. Chamam novamente. Já vejo a aeronave inteira pondo os olhos sobre mim, cochichando. Um holofote a me cegar, enquanto malvados homens de dois metros e capuzes pontudos reviram minha bagagem de mão, leem meus caderninhos, querem saber por que tantos batons. Torço por uma turbulência providencial, para desviar o foco da situação. Nenhuma instabilidade à vista, porém.

Penso rápido: apesar de ter seiscentos amigos no Facebook, não me recordo de nenhum deles ser ligado à Al-Qaeda.

Também não tenho nada suspeito em minha bagagem, exceto a echarpe de bolinhas coloridas comprada de um camelô, após breve e assertiva pechincha em portunhol no solo madrilenho.

Minha foto no passaporte é tão ruim assim?

OK, eu confesso. Comi quatro croissants de uma vez só, no hotel. Zerei o estoque do café da manhã, não deixei nem um para contar história. E também peguei as últimas panquequinhas. Abalei a hotelaria local. Andanças abrem o apetite.

Está bem, está bem. Fui eu quem derramou vinho nas roupas que a indiana vendia na feira, no pequeno vilarejo francês. Foi sem querer. É verdade que morri de remorso, depois. Enquanto o anjinho empoleirado em meu ombro direito choramingava em franco-indiano, implorando para que eu me entregasse, ressarcisse a dona da barraca e ficasse com a peça, o diabinho, no outro ombro, sugeria que eu relaxasse; não haveria de ser assim tão grave. Um pouco de Vanish resolveria. Agora, por minha causa, a aeronave está prestes a desviar sua rota e retornar ao aeroporto. A indiana estará à minha espera, cobrando os vinte euros pela calça danificada.

Ou será que o comandante lê o blog, comprou meu livro para o filho dele e quer um autógrafo?

Nem uma coisa, nem outra – logo fico sabendo. Era só a aeromoça querendo saber quem havia pedido cardápio especial – peixinho – pro jantar.

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Crônica de minuto #3

No avião, o moço da poltrona ao lado apanhou o celular e, antes de desligá-lo, contemplou demoradamente as duas meninas que lhe sorriam através do display. Suas filhas, não tive dúvida. Assim como não tive dúvida dos seus pensamentos naquela hora. O amor é uma coisa tão previsível. Mas só de vez em quando.

(E dá um belo papel de parede.)

Feliz Natal

Foto: Karl Eschenbach/Flickr.com

Era trinta e um de maio, domingo. Chuva fina na cidade. E ele acabara de nascer. Pela segunda vez.

Na primeira, há trinta e nove anos, também era trinta e um de maio. Também era domingo. E também chovia no Rio de Janeiro. Seu pai estava ensopado, nenhum táxi queria parar. Sua mãe, menos ensopada, aguardava sob a marquise do velho prédio onde moravam. Contava os minutos. Os intervalos entre as contrações ficando menores. E os dos táxis, maiores. Foram salvos pelo dono do mercadinho, que passava pela rua e reconheceu seu pai.

Foram os três para a maternidade, na Kombi sem bancos atrás. O homem e o pai foram na frente. A mãe atrás, deitada. Por pouco, muito pouco, ele não nasceria ali, em meio às três caixas de mamão papaya e seis engradados de laranjas. Mas acabou nascendo pelas mãos do médico de plantão que não tinha nome. Suas únicas palavras, nos trinta e seis minutos em que estiveram juntos – mãe, pai e médico – foram: É um menino.

Vinte e quatro horas depois os três deixavam a maternidade. Na porta, uma mulher sentada no chão dividia um sanduíche com um cão. Acenou para eles e disse: Feliz Natal! O pai estranhou – não era dezembro –, mas a mãe não. Às vezes mães sabem mais coisas que os pais. Quando criança, gostava de vê-la montando o presépio, contando histórias de três magos que eram reis. Ele queria saber o que era o Natal. Ela explicava que é o nascimento de alguém. Ou renascimento.

Na segunda vez, uma viagem a trabalho. Primeira vez em Paris. Mala feita e terno novo. E um congestionamento interminável até o aeroporto. Perdeu o avião.

Frustrado, tomou o táxi de volta para casa com passagem, mala e terno. Pararam em um sinal e lá veio o moleque, sem ligar para a chuva. (Moleques e sinais parecem ter sido feitos um para o outro.  Mas atenção: não são.)

Com pena do garoto encharcado, comprou dele um Mentos. Ao devolver o troco de três reais, ele abriu um sorriso e disse: Feliz Natal, moço! O motorista achou graça, não era dezembro.

À noite, ele, que aprendera muitas coisas com sua mãe, entenderia o que o moleque dissera. O avião que perdera se perderia no mar poucas horas depois de decolar. Antes de dormir, em meio à prece, atinou. Ninguém precisa perder um voo que não houve para nascer de novo. Todos os dias.