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Pé de gente

foto-montagem / arquivo pessoal

Sessão de RPG. Estou deitada, meus pés suspensos. Atados por uma espécie de cinto, ligado à uma roldana que os mantêm no ar. Sozinha na sala, encaro-os por dez minutos, como parte do exercício que promete reestruturar globalmente minha postura. Por dez minutos, não são as unhas cor de vinho ou a gérbera tatuada em preto e branco no pé esquerdo que escaneio. O que procuro, neles, são os pés dos meus filhos. Que arquivos genéticos, dos meus, transmiti aos deles?

Beijei, de manhãzinha e à exaustão, dois pares de pés. Os dele, caídos fora do edredon amarfanhado, ao lado da tartaruga azul de pelúcia. Os dela, gentilmente alinhados com o gato negro de verdade. Aproveitei e medi, conferi, cheirei os minipés que ajudei a construir, célula por célula. Namorei-lhes a geografia já tão decorada. Varri-lhes as solas, descobri por onde andaram e imaginei por onde ainda andarão. Levei nisso tudo bem menos que dez minutos; o passo do tempo no quarto deles é outro. Agi com cautela e silêncio, para que não acordassem. É a melhor hora (mas não única) do dia para a adoração. O raro momento em que seus pés estão quietos. A inquietude inviabiliza o fetiche maternal.

O fisioterapeuta reaparece, quer saber se está tudo bem. Não, não está. Não há um só detalhe nos pés dos meus filhos que tenham puxado aos meus. Nem a unha do mindinho, nem o formato do dedão, nada. É tudo diferente, sabe? – lamento em pensamento. Não, ele não sabe. Ajeita qualquer coisa na roldana e sai novamente, precisa ver o paciente da outra sala.

Beijo mais os pés de meus filhos que seus rostos, será? Os pés que já habitaram meu ventre – cada par a seu tempo – , muitas vezes passeando sob minhas costelas, me fazendo rir em plena reunião de diretoria. Cujos retratos ilustram suas carteiras de saúde, carinhosamente mantidas desde seus nascimentos: horário em que vieram ao mundo, tipo sanguíneo, primeiras observações médicas, “RN a termo”, notas do teste de Apgar, evolução de pesos x alturas, vacinas que tomaram. A racionalidade de um filho, enfim. No documento, fundamental mesmo é o pezinho carimbado na contracapa, a primeira pegada, o marco zero de suas biografias em progresso. Reparo no desenho que forma a planta de seus pés. Há uma espécie de árvore (genealógica?) desenhada ali, posso ver suas ramificações. São legítimos pés de gente, a me dizer que a história não para por aqui. E se não carregam de mim os traços externos, hão de levar dentro de si, por onde caminharem, algo de mim. Sobretudo, meus beijos exagerados.

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As árvores

Arte: Adrian McO-Campbell
Arte: Adrian McO-Campbell

No caminho da escola Nina, sete anos, vai perguntando quem é o quê na família. Vou explicando que meus irmãos, as irmãs de seu pai e os respectivos companheiros são seus tios e tias. E que os filhos de todos esses, meus sobrinhos, são seus primos.

Hoje estamos só eu e ela. Olho pelo retrovisor e quase posso ouvir sua cabecinha trabalhando, estabelecendo as conexões da nossa frondosa árvore genealógica que, passadas gerações, uniões, desuniões e novas uniões, já deve ter formado uma bela floresta. Pensa que é fácil entender como é que a gente é, ao mesmo tempo, mãe, filha, neta, bisneta, prima? Uma miscelânea de parentescos para explicar um único personagem, em um único galho da imensa árvore.

Quando eu tinha a idade da Nina, gostava de fuçar os álbuns de fotografias da família. Via a galeria de rostos conhecidos e outros desconhecidos – entre estes, alguns causadores da minha existência. Acostumei-me a ver os antigos em preto e branco, como se assim eles fossem na vida real. Pensava quem mais, além de mim, teria um bisavô sem cor.

Nina já sabe, mas quer confirmar: “O Bruno é o quê seu?”. Ter um enteado é como parir ao contrário; é filho que não sai pela barriga, mas entra pelo coração. Conto que ele tem mãe, a ex-esposa de seu pai, e outra irmã, filha do marido de sua mãe e que, apesar disso, não é sua irmã. Agora dei nó. Logo esquecido, assim que ela manifesta seu desejo para que Bruno, quinze anos mais velho, tenha filhos. “É que eu quero ser tia logo”.

Quando explico sobre as esposas e maridos dos cunhados e cunhadas, ela solta: “Mas então eles não são assim tããão da família, né?”. Eu rio. E penso duas vezes antes de registrar isso aqui.

Ela segue, querendo saber de todos. Conclui que para ter filhos é preciso se casar. E eu concordo. Para quê complicar, se estamos somente a três quarteirões da escola?

Já no topo da nossa árvore, agora ela pergunta se os que se foram conseguem vê-la. Digo que sim. Simplesmente porque não poderia afirmar que não. E também porque a vida fica mais bacana assim.

Estaciono, ela se prepara para descer. Antes, confere as trancinhas cor de rosa (ganhou ontem um spray de cabelo). Apanha suas coisas, me dá um beijo e vai. Esquece que brigamos feio um pouco antes, e eu esqueço também. As rodinhas de sua mochila vão arranhando o cimento da calçada e, em coro com as dos outros alunos que passam, compõem a trilha sonora do meu começo de tarde. O chão está forrado de pitangas maduras e esquecidas, caídas do enorme pé em frente à escola. Todo fruto é filho de um fruto anterior. As árvores também têm sua árvore genealógica. Bem mais simples que a nossa.

Espio até que ela entre pelo portão. É bonita, a filha do meu marido, irmã do meu primogênito, bisneta dos meus avós e, quem sabe, mãe dos meus netos. Os daquele galhinho, que ainda nem brotou.

Os filhos dos seus bisnetos

Álbum de família

Fato: os filhos dos seus bisnetos não saberão nada sobre você. Na melhor das hipóteses, muito pouco. Ouvirão algumas histórias nas reuniões de família, verão uma fotografia num álbum amarelado ou num arquivo escondido de um computador. Um vídeo, talvez. Mas, acredite: eles não saberão de você do jeito que você se conhece.

Não saberão para que time você torce, nem se você gosta de rock ou prefere jazz. Ninguém lhes contará que você já foi ao Egito e sabe fazer mousse de maracujá. Nunca imaginarão que você já teve uma banda ou que escreve poesias. Nem que você consegue desenhar cavalo, que é a coisa mais difícil deste mundo. Ou que chegou a dirigir uma empresa, antes de se aposentar e ir viver lá no meio do mato com os sacis. Muito menos que sua paixão é a dança e que você sonhava, secretamente, se apresentar no Municipal. Jamais saberão como é a sua voz. Se a sua risada é estrondosa ou discreta, ou como você gosta de pentear os cabelos. E que você sempre chora nos filmes de amor.

Dos nossos avós a gente costuma se lembrar bem. Com um pouquinho de sorte, dos bisavós também guardamos alguma recordação. Mas poder abraçar os trisavós é para poucos. Tomar um chá da tarde com os tataravós, definitivamente, é raridade. Pena. A gente deveria saber mais das pessoas de onde viemos. Para ter uma ideia de como chegamos aqui e para onde vamos daqui em diante. Mas para isso cada um precisa fazer sua parte: contar muitas histórias aos filhos, várias vezes, até eles enjoarem. Para que eles as contem aos seus filhos e assim por diante.

E, do mesmo jeito que se aprende História – do mundo, do Brasil – na escola, deveria existir no currículo uma matéria chamada “A sua História”. Onde a gente aprendesse a escrever os livros de família de um jeito diferente, cheios dos detalhes essenciais de nós, que geralmente passam desapercebidos. Onde a gente plantasse, em grandes cadernos de desenho, a nossa árvore genealógica, não só com seus ramos e galhos. Com as flores também.