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Crônica de minuto para um feriado

Foto: Romana Klee/Flickr.com

A mais nova da mesa ganhava todas as rodadas do jogo da velha. Ela escolhia sempre o x (para dar sorte?), analisava a estratégia da adversária e, poucos movimentos depois, fechava o jogo. Até que as amigas resolveram acabar com a farra: “Agora você vai ficar com o o. Resignada, ela aceitou. E iniciou a partida. Não deu outra: ganhou de novo. “Você está proibida de começar”, decretaram. Ela se recolheu, concordou com a cabeça. Aguardou a oponente posicionar seu x. Pensou um bocadinho, fez a jogada, aguardou a resposta. Pimba, ganhou de novo. As demais confabularam. Nem o trote na sorte, tampouco a revogação do direito ao primeiro lance haviam dado jeito. E todas ali eram macacas velhas no esporte. O café. Só podia ser o café. “Traz um chá para ela”, a da ponta pediu ao garçom. A contragosto, ela serviu-se da infusão de hibisco com limão. Ganhou. Trocaram de lugar na mesa, culpando o leste de favorecê-la. Dispensaram o x e o o , substituídos pelos saquinhos de açúcar e adoçante, respectivamente. Confabularam novamente, sem sucesso. Ela continuou papando todas.

O jogo não era mais delas. Pediram a conta.

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De volta para o futuro

Foto: Gilberto Filho/Flickr.com

Outro dia minha neta fez um passeio com a escola. Foram ao museu. Ela voltou encantada com as coisas que viu. E particularmente impressionada com um objeto, muito popular antigamente: a chapinha. Quem diria. Uma engenhoca com traços de duas eras tão distintas – a Moderna e a Medieval – ser capaz de tanto sucesso no passado.

Minha neta não sabe da missa a metade. Quem se recorda do Curvex, do contraditório Invisible Bra (absolutamente perceptível), da ombreira e do Botox? Dos velhos desfiles de moda com moças de olhares sombrios e roupas que precisavam de legendas? E das meias-calças que não duravam uma temporada? O que me fez lembrar de outro nonsense de outrora: a depilação com cera.

E fazer supermercado? Nada mais insólito: os produtos iam das prateleiras para o carrinho, do carrinho para a esteira, da esteira para as sacolas, retornavam ao carrinho, passavam para o porta-malas, e somente depois de todas as etapas é que chegavam à despensa. Nem dá para explicar como é que esse processo perdurou por tanto tempo.

Quem se lembra de quando não se reciclava lixo, o esgoto ia para o mar e a gente quase cozinhou o planeta?

Lembro-me de existir dono que não recolhia a caca do cachorro na rua, de gente que abandonava cachorro, comia cachorro, atropelava cachorro e ia embora, como se nada tivesse acontecido. Tempos bicudos, aqueles.

E como era triste a época em que as mulheres ganhavam menos que os homens, tinham que se vestir como eles no trabalho e, dependendo da profissão, nem tatuagem podia aparecer. Parece que as coisas já melhoraram: o trabalho voltou a ter sua função original e praticamente não se vê mais por aí quem endoideça – ou morra – por causa dele. E pensar que naqueles tempos também se morria de tanta coisa sem sentido: bala perdida, fome, gripe, raiva.

Minha neta quis saber se eu já usei chapinha. Sem graça, como quem confessa já ter usado algum tipo de droga, revelei que sim. Mas só uma vez, quando conheci seu avô – tratei de explicar.

[Nota: não tenho neta, viu? Digamos que eu tenha inventado essa história mais ou menos em 2045.]