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Você recebeu uma nova mensagem

arte: Pierpaolo Limongelli
arte: Pierpaolo Limongelli

Dei para enviar mensagens para mim mesma. Pelo e-mail, Messenger, Voxer ou o aplicativo que estiver à mão. Pequenos lembretes, escritos ou orais, para quando a agenda (de papel; sim, eu uso agenda de papel) não está por perto, ideias para textos, links de coisas interessantes para ver depois, não esquecer de fazer isto, aquilo e mais aquilo outro. Entupo minha própria caixa postal. Tenho mais mensagens de mim para mim que dos amigos. Qualquer hora, endoideço de vez e me respondo.

“Olá! Tudo bom? Recebi a mensagem. OK, buscar o resultado da mamografia na sexta”.

“Gostei do tema da próxima crônica, sobre o hábito inconfesso e incontrolável de espiar o que os outros passageiros estão lendo ou assistindo no avião”.

“E aí, o marceneiro foi?”.

Tem gente que fala sozinha com um interlocutor imaginário. Tem gente que fala consigo sozinha. E tem gente que registra o diálogo. Ou seria monólogo?

No mundo caetano – “Quem lê tanta notícia?” – eu me pego doente, padecendo de um não-dar-conta de absorver tanto conteúdo e lembrar do que precisa ser lembrado, ainda que sejam tarefas básicas do dia-a-dia. A escrita, desta vez não por motivos literários, vem para me salvar. Recorro à tecnologia que, nesse caso, assim como a fé, não costuma falhar.

Dou enter na automensagem e logo vejo a notificação: “visualizada”. Posso dormir sossegada. No dia seguinte, checo as mensagens-missões. Se as cumpro, são outros quinhentos.

Por outro lado, mando tantas mensagens para mim, que vou acabar me ignorando, me apagando sem me ler, me bloqueando, tal faço com os spams. “Ih, lá venho eu de novo”.

Triste fim!

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Mundo de papel

Foto/montagem: Massimo Nota
Foto/montagem: Massimo Nota

Se seres extraterrestres resolvessem (se é que já não o fizeram) fazer uma varredura em nosso pequeno planeta, a fim de analisar este mundo e seus moradores, um item certamente não ficaria de fora dos relatórios: os papeizinhos. Os nossos papeizinhos.

“Humanos gostam de fazer anotações em pequenas superfícies produzidas a partir de fibras de celulose, cujo produto é chamado papel, que por sua vez vêm das árvores observadas na região”, registrariam. Talvez acrescentassem: “E, com frequência, eles os perdem”.

Não estariam os ETs referindo-se aos papéis em geral, os que documentam a nossa trajetória, nem aos livros, e sim, àqueles, soltos, que se lança mão na hora de registrar as coisas “para não esquecer depois”: de promessas de ano novo à listinha de compras da semana; dos projetos dos desejos ao telefone da fundamental nutricionista; dos desenhos concretos às ideias esparsas; das senhas diversas ao nome da canção que acabou de tocar no rádio; do resumo de ontem ao texto para amanhã; as prioridades para hoje. Seja na folha arrancada do bloquinho, na ponta de uma página de revista, em versões autocolantes ou no imprescindível naco de guardanapo, vale tudo para assegurar a lembrança posterior, não perder o prazo, não deixar de fazer.

A despeito da tecnologia, as coisas continuam sendo anotadas em papeizinhos. Parceiro fiel da caneta que não escreve, o papelzinho ainda é a peça mais importante na vida do executivo, da dona-de-casa, do estudante e até daquele vizinho geek. Carrega em si, em letra caprichada ou garrancho, na escrita lenta ou apressada, a estratégia decisiva, a receita testada e aprovada, uma cola providencial, o nome do aplicativo para baixar depois.

Haverá o dia em que o papel do papelzinho na história da humanidade será tão importante quanto as guerras e as revoluções. No pedacinho escrito à mão reside o amor, o ódio, a saudade, a criatividade; o medo da desmemória, a garantia, a salvação.

Quanto aos papeizinhos perdidos… Ah, esses vão parar num universo paralelo, rodeados de frondosas árvores, a celulose-mãe. Escapam pelas gavetas em misteriosos processos, são abduzidos de bolsas e agendas, levados pelos ventos urbanos e não-urbanos. Carregam seus conteúdos para outra dimensão e lá adormecem. Em sonhos, visitam seus donos que, ao acordar, não hesitam: correm anotar.