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Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

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Medo do medo que dá

Arte: Ricardo Lago
Arte: Ricardo Lago

De criança, eu tinha medo de perder meus pais. Hoje tenho medo de perder meus filhos. Nunca queremos ficar sozinhos no meio da história.

De criança, apavoravam-me a prova de matemática e a professora de matemática. Hoje, dá medo fazer as contas no fim do mês. O que só comprova: o assunto é mesmo um bicho de duas mais cinco, ou seja, sete cabeças.

De criança, escondia meu diário no guarda-roupa, atrás das blusas de lã, com medo de que lessem. Hoje, o medo me faz proteger tudo – celular, computador, cartão de crédito – com senha. E não tenho mais diário.

De criança, tinha medo de falar com estranhos. Cresci, perdi o medo. Depois do Facebook, então, nem se fala.

De criança, morria de medo de engasgar com bala Soft. Hoje, a única bala que me assusta é a perdida.

De criança, tinha medo de casa mal assombrada. Hoje, tenho é de casa mal construída.

De criança, tinha medo de ver gente morta. Hoje, tenho medo de não saber o que lhe dizer, quando topar com uma.

De criança, temia a injeção. Hoje, temo a bactéria.

Certa vez, li num livro: “Dome seu medo!”. Parecia simples. Afinal, era só inverter as sílabas. Medo, no entanto (só depois soube), não é animal selvagem para ser domado. De medo, fica-se amigo. E despede-se com abraço, quando ele se vai. Sempre há de se conhecer um novo.