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Alô, doçura

– Ensina-me a viver.

Não, não é o filme que conta a história de amor entre Maude e Harold, sessenta anos mais novo que ela. Sou eu, conversando com o pacotinho de açúcar. Ele – o pacotinho – tem sempre uma dica imperdível para melhorar a minha vida e os meus relacionamentos. Refinado, ele sabe o que devo fazer para chegar lá. Alô, doçura: você não sabe da missa, a metade.

Tem um que diz “Saia mais com seus amigos”. Mas não há nenhum que fale “Arrume uma babá”, “Trabalhe menos” ou “Deixe de ser preguiçosa”.

Outro, mais orgânico, garante que “Um simples sorriso muda tudo”. Eu digo que um bom palavrão, dos cabeludos, também.

Os pacotinhos do bem-viver são a versão moderninha da ditadura da felicidade. Cinco gramas de teoria industrializada, com uma galeria de frases de efeito compradas prontas. É a psicologia de varejo, bem intencionada, adoçando seu café.

Em alguns, faltam complementos que o pessoal do marketing esqueceu de colocar. “Elogie mais, com cuidado para não se tornar um baba-ovo profissional”. “Plante um futuro melhor, e comece por saber como foi que deixaram este açúcar tão branquinho”.

Há ainda as sandices plenas, que vão do “Diga menos não” (não válido para quem tem filho pequeno da pá-virada) ao duvidoso “Invente menos problemas”. Ou seja: inventar pode, mas sem exagero. Um por dia está bom?

Para terminar, tem o “Viva intensamente”. Pago bem para quem definir, com razoável coerência, que diabos, afinal, é viver intensamente. Se é fazer bungee-jump na Rio-Niterói ou dormir o dia todo. Ficar com as crianças em casa nas férias ou se mandar para um retiro no Nepal. Comer doze Danetes de uma vez ou ler a obra completa do Manoel de Barros.

Quem segue à risca os mandamentos dos pacotinhos de açúcar é, para dizer o mínimo, um chato de galochas.

A vida é doce, mas costuma vir com defeito, acessórios que você não pediu, e não dá para trocar. É um pacote, ou pacotinho, completo.

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