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Companhia

Ilustração: Etringita/Flickr.com

A gente bota Deus para acompanhar todo mundo. Filho, mãe, avô, irmã, sobrinho, empregada. Até vizinho. A ordem ao Todo-Poderoso, vestida de pedido, é simultânea ao beijo da despedida, ao abraço apertado, ao aceno cordial. Deus passa o dia acompanhando gente. O Acompanhador-Geral do planeta. Por isso inventaram a onipresença. Para que ele dê conta. Ainda bem que Deus é boa companhia. E se fosse um chato de galochas, do tipo que conta sempre a mesma piada?

Quando alguém chega de viagem, da rua, do trabalho, da aula, ninguém pergunta se Deus veio junto. Se aceita um cafezinho. Tampouco agradece-se a companhia. É como se não tivesse vindo. As desvantagens de ser invisível. Mas Deus não liga. Tem que acompanhar outra pessoa em seguida. Já está atrasado, inclusive.

E no caso de Deus não estar com vontade deste ou daquele passeio? E se pretendia tirar uma soneca bem na hora em que foi evocado? E se tinha outros planos? Agenda de Deus deve ser toda rabiscada.

E quando a gente pensa, em vão, que Deus se esqueceu de acompanhar Fulano ou Beltrano? Ele nunca vai dizer nem que sim, nem que não. Cada um que tire as próprias conclusões. Todas estarão corretas, aos seus olhos. “Assim é, se lhe parece”. Só não tente testar-lhe a onipotência. Ele não gosta.

Quem pede a companhia de Deus para si ou para o outro costuma ir – ou ficar – mais tranquilo. Marido se despede de mim toda manhã (tão manhã, ainda) com um beijo. Amarfanhada no travesseiro, eu costumava dizer: “Vá com Deus”. Com o tempo, abreviei. Eram palavras demais. Agora só sai “Com Deus”, em adormecente grunhido. Deus me dá um desconto. E sempre entende. Ainda bem que inventaram a onisciência.

Nem na hora de dormir Deus escapa. Quando não está acompanhando as pessoas, está dormindo com elas. Toda noite desejo aos filhos: “Durmam com Deus”. Garantia de sonho bom.

A que horas Deus vai ler jornal? Talvez, naquele instante em que a gente sai, dispensando-o de vir conosco. Aí não é nem para acompanhar, nem para dormir: é para ele cuidar de quem ficou. Enquanto quem ficou cuida da casa, confere o canhoto do talão de cheques, assiste à novela e rega o jardim, Deus aproveita. Vai direto pros Quadrinhos.

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