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Feliz aniversário. Ou nem tanto

Ilustração: Juan & Diego/Flickr.com

Pior que fazer aniversário em 24 ou 25 de dezembro, é fazer no dia 26. Se no primeiro caso já se corre certo risco de ser esquecido, no segundo é batata. Quem nasce no Natal pode ter a sorte de ouvir “Parabéns a você” junto à “Noite feliz” – com coro puxado só pelos parentes de primeiro grau. E olhe lá. Quem nasce no dia 26 está fadado a não ter festa, nem presente. Porque a festança foi há algumas horas. Sobram pouca energia, disposição e champanhe para o dia 26. O que sobra é comida. Requentado ou ‘transformado’, o resto do peru vira o prato principal do almoço do aniversariante. Para complicar, 26 de dezembro está a apenas cinco dias de outra festa, o réveillon. Nesse intervalo insípido, o nascido nesse dia tem duas opções: acostumar-se a passar seu aniversário em branco ou conformar-se em antecipá-lo e dividi-lo com outro aniversariante. Muito mais famoso.

Em 2009, 26 de dezembro caiu num sábado. E sábado logo após o Natal não é dia de fazer ou se preocupar com muita coisa. Exceto se a roupa branca para o ano novo está em ordem. Já eu, nesse dia, saí de casa com uma missão: encontrar um chapéu florido para minha filha. Pedido feito junto ao primeiro abraço do dia, ela ainda de pijama, olhinhos semiabertos de sono e preguiça. Como é que eu poderia lhe negar? Na busca, parei em frente a uma vitrine. Recostada junto a ela, uma moça de cabelos longos. Muito brava. Braços cruzados, telefone encaixado entre cabeça e ombro. Alternando entre a tristeza e a cólera, ela colocava seu interlocutor – namorado, suspeitei – na parede: por que não poderiam se encontrar naquela hora? Então não almoçariam juntos? Ela estava morrendo de fome. Bufou, fez muxoxo, olhou desesperançosa para o céu, afastou por um instante o telefone do ouvido para não ouvir a ladainha do lado de lá. Encerrou a conversa, irritada: “Mas hoje é meu aniversário!”. Mais que fome de comida, a moça tinha fome de comemorar seu nascimento como fazem as pessoas de seis de abril, dezenove de agosto, trinta de outubro.

Eu imagino como você se sente, moça. Tanto dia para nascer. Aposto como você nutre uma simpatia inconsciente pelo parto cesáreo. E uma antipatia gratuita pelo Papai Noel. Confesse aqui para mim: seu namorado estava lavando o carro, não estava? Sábado é dia de lavar carro.

Encontrei um chapeuzinho bem bonito, com delicadas florzinhas cor de rosa e lilás. Não serviu, ficou pequeno. E não deu vontade de ir trocá-lo. Deu foi pena de você, moça dos cabelos compridos. Sei não. Mas acho que, no fim, você levou um chapéu do seu namorado. Sem direito a flores.

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