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Bananas

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

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– Casa sem banana não é casa.

Toda família tem seus parentes distantes. É como se cada fruto da árvore genealógica fosse saboreado por um passarinho, e sua semente fosse parar longe dali, dando origem a uma nova árvore, filha daquela. E dela surgissem novos frutos, especialmente ligados à árvore-mãe. Assim são as famílias: os frutos, numa espécie de migração, vão se estabelecendo em outras terras. A diferença é que, de vez em quando, eles se encontram.

Tio Zuza é tio do papai. Nas migrações ao longo das décadas, ficou longe de todos. Mas mantém o hábito de, três vezes por ano, visitar os sobrinhos-netos. Viaja sozinho. Exibe com orgulho sua carteirinha de idoso: a passagem sai de graça. Ou quase.

Quinta-feira de manhã, desembarcou na rodoviária. Fui buscá-lo. A primeira pessoa a levar uma bronca do tio – soube assim que fechei o porta-malas do carro – foi o motorista do ônibus que o trouxe: como é que podiam deixar alguém viajar trezentos e sessenta quilômetros sem ar-condicionado? A segunda, o vendedor de chiclete no sinal, um moleque de dez anos: por que é que não estava na escola? A terceira, e já em casa, fui eu. Minha infração: ter me esquecido de comprar banana.

Enquanto tentava, em vão, lhe mostrar as qualidades do mamão papaia, estalando de maduro na fruteira, tio Zuza deu de ombros, desistiu do lanche, retornou à sala e foi conferir os porta-retratos sobre a cristaleira, Como espicharam os filhos da Margarete!

Anotei no papelzinho ao lado da pia: incluir um bom cacho na próxima compra. Escrevi ao lado, para pensar depois: de que é feito um lar, então? O que confere, de verdade, alma a uma casa?

Quando um casal de parcos recursos decide viver junto, geladeira, fogão e cama são os itens mínimos para garantir a sobrevivência – e a alegria – na nova moradia. E máquina de lavar? Não, pois sempre se pode recorrer à casa da mãe de um dos dois. Armários? Também não; umas araras, umas caixas bem bonitas de papelão dão conta de organizar tudo até que se consiga mandar fazê-los. Está bem, televisão é fundamental. Porém, o laptop a substitui. E este não pertence à casa, mas sim ao dono. No mais, o que dá o título de lar a uma casa são seus habitantes, suas vozes e seus passos.

A minha tem tudo isso. E mais: secadora de roupa, aspirador de pó, banheira, sofá, cadeira, cachorro, formiga nos tamanhos P, M e G, pernilongo faminto nos dias chuvosos, lâmpada queimada, goteira de vez em quando, cama de casal, cama de criança, cama de gato, embalagem aberta de biscoito, roupa no varal, vela no armário para quando falta energia, leite de caixinha, chinelo pelo meio, feijão no tupperware, copo de requeijão, livros, canetas no finzinho, antenas, tapetes, cardápio de pizzaria na porta da geladeira, iogurte vencido, jabuticabeira sem jabuticaba, conta de água, CD na caixinha errada, desenho de criança na parede, garagem para dois carros, wi-fi, CEP e santo protegendo a entrada. Eu poderia jurar que tudo isso, junto, constituía uma casa.

Mas faltava a banana. A primeira fruta de todo bebê. A base da nutrição humana, depois do leite materno. Amassada com o garfo, em forma de coração, como as que minha mãe fazia. A fruta mais popular do planeta. Embora, tirando a nanica, eu confunda todas as outras espécies: prata, ouro, maçã, da terra. Boa de levar no carro, na lancheira, no escritório. Não requer talheres, não suja as mãos. Não deixa fiapo, nem nada verde nos dentes. Sacia qualquer larica. A fruta iniciática, perfeita e fundamental. Nunca soube de alguém que houvesse escorregado numa casca de banana, nem acho que elas sejam tão baratas assim, para justificar as expressões em torno delas.

De acordo com a sentença do tio Zuza, minha casa não passava de um amontoado de tijolos, cimento, vidros, telhas, fios e coisas inertes. Faltava-lhe o sopro divino. Mas nem tudo estava perdido, e a condenação foi breve: o varejão abriu às seis e meia da manhã.

Inútil

Foto: Jaula De Ardilla/Flickr.com

O médico recolheu o estetoscópio e guardou as mãos nos bolsos do avental branco. O peso delas agora deformava o nome de doutor bordado, com capricho, no bolso esquerdo. Encarou a moça, debruçada na cama sobre os pés do pai, sedenta por uma palavra sua.

– E então, doutor?

Ele correu o olhar pelo lençol amarfanhado e sentenciou:

– Agora é aguardar. Tudo o que podíamos fazer, foi feito. Vamos esperar o organismo reagir. Não é, seu Osmar?

O pai remexeu-se na cama com determinação. Cruzou os braços fortes e cobrou da filha o pedido que fizera dias atrás, assim que dera entrada no hospital.

– Conseguiu achar a Dona Mercedes?

A filha disse que havia conseguido localizar um neto dela, ele prometeu passar o telefone. Mas não garantiu que ela se lembraria dele, afinal já estava tão velhinha. Aposentara-se no magistério há quase trinta anos. E, segundo o neto, andava lelé da cuca, nem queria mais sair de casa. O pai insistiu:

– Eu preciso falar com ela, está entendendo? Temos uma coisa muito antiga para acertar.

A filha sentiu que cabia uma explicação ao médico.

– Meu pai foi aluno dessa Dona Mercedes em… que ano mesmo, pai?

– Mil novecentos e cinquenta e cinco. Eu tinha treze anos.

– Isso, cinquenta e cinco. Agora meu pai cismou que está nas últimas, e não quer partir sem antes ter uma conversa com essa Dona Mercedes. Mas ninguém sabe o que é. E estou tendo o maior trabalhão para falar com essa mulher. O neto ficou meio ressabiado, mas prometeu ajudar. Olhe só, doutor, que novela!

O médico riu.

– Mas o que o senhor quer com sua antiga professora, seu Osmar? Ela reprovou o senhor? – brincou.

– Reprovar, não reprovou – o pai respondeu, enquanto levava a mão à cabeça. Mas um dia eu fiz um questionamento sobre a lição, ela respondeu, eu não aceitei… (fez uma pausa para respirar) e agora quero provar que eu estava certo.

O médico tirou as mãos do bolso, agora já se lia novamente seu nome de doutor. Deu uns tapinhas nos ombros de seu paciente e despediu-se. Amanhã eu venho ver o senhor.

Três dias depois, o pai continuava no hospital. Viravam-lhe do avesso. A filha veio para a visita da tarde. Tratou logo de contar-lhe a novidade: falara com Dona Mercedes. Que, diferente do que o neto lhe dissera, não lhe pareceu lelé coisa nenhuma. Até lembrou da turma de seu Osmar no velho colégio, que nem existia mais. Aqueles moleques gostavam de pregar peça na gente. Uma vez, mexeram no calendário da sala de aula e me fizeram acreditar que não era o dia da prova – contou, rindo, ao telefone. Ainda morava nas redondezas, prometeu ir ver seu antigo aluno.

Foi num sábado de manhã. O pai acordara meio esquisito, a filha achou melhor adiar o reencontro. Poderia ser emoção demais. Mas o pai fez questão e, cinquenta e cinco anos depois, professora e aluno viram-se novamente. Ele não vestia mais o uniforme azul-marinho do ginásio. Em seu lugar, uma camisola cinzenta. Ela não tinha mais o penteado das moças das revistas. Aproximou-se da cama e, repousando suas mãos, ainda firmes, sobre as dele, disse:

– Pois bem, Osmar. Estou aqui.

Apesar da dificuldade que começava a sentir ao construir as frases, ele sorriu:

– A senhora lembra que eu odiava matemática?

– Odiava nada… Você tinha era preguiça de raciocinar! Quando queria, tirava boas notas.

– A senhora se lembra que um dia eu lhe perguntei onde, na vida, eu usaria a equação de segundo grau?

– Disso eu não me recordo, não. Mas devo ter lhe dito que você a usaria, sim. E muitas vezes.

Os olhos do pai ficaram rasos d’água. Suas mãos, trêmulas, grudaram nas mãos da professora. A voz começou a embargar. A filha apertou a campainha ao lado da cama e saiu do quarto, Enfermeira!

– Pois a senhora quis me convencer disso… E eu tive que decorar a maldita. Sabe por que pedi tanto à minha filha para encontrar a senhora? Porque eu precisava lhe dizer uma coisa. Preste atenção, Dona Mercedes: eu nunca usei a equação de segundo grau na minha vida. Para nada!

O quarteto de mãos permanecia colado. Embora algo ali já começasse a se desprender. Duas enfermeiras entraram aflitas no quarto, a filha atrás, celular a postos. Uma inspecionou o soro, a outra conferiu o coração. A que cuidava do soro foi chamar o médico. Um enfermeiro apareceu, ao invés. A filha fechou o celular, plec, e também a porta. Todos ali, exceto professora e aluno, estavam desorientados. Pareciam formigas, quando alguém destrói o formigueiro.

Dona Mercedes arrumou-lhe o travesseiro, preparando-se para a confissão:

– Nem eu, Osmar. Nem eu.

Olhou o relógio: dez e vinte. Não poderia esquecer, o médico iria perguntar.

Nesta data querida

Ilustração: Shelly

Já que você perguntou, eu conto. Este gorro aqui tem mais de vinte e três anos. É do tempo em que eu morava no casarão. A Dona Jandira entrara na sala e desabara os três sacos de lixo sobre o tapete. Mas não eram sacos com lixo. Quer dizer, o que tinha dentro era o lixo de alguém. Mas não para nós. Aquilo era o nosso guarda-roupa. Ninguém ali ganhava roupa nova. Nunca. Sempre usada. Quando Dona Jandira chegava com os sacos, as crianças desciam pela velha escada de madeira curiosas, ressabiadas. Os degraus rangiam, como se também curiosos. Uns sentavam-se e espiavam pelo corrimão. O Francisco era um que nunca descia. Ficava encarapitado lá em cima, com o livro sobre eletricidade no colo. O livro veio num dos sacos uma vez (acho que por engano), ele o pegou e não largou mais. Dona Jandira já estava acostumada. Depois ela separava o que servia nele. Nesses dias sempre tinha um alvoroço no ar. Eu ficava alegre de ver os sacos, mas não entendia porque quase nunca tinha alguma coisa para mim.

Dona Jandira usava os cabelos presos atrás, de um jeito que os olhos dela ficavam até meio puxados. Ela era a presidente do nosso casarão. Cuidava de nós, criava as regras e as mudava, quando ninguém obedecia. Fazia nossa comida, lavava nossa roupa, apartava briga. Dava bom dia e boa noite com beijo. Ela ria o tempo todo, achava tudo engraçado. Acho que era o jeito que encontrava para não ficar doida. Éramos nove, cada um com um motivo para estar ali. Com ela, dez. Mais a Candinha que vinha ajudar, onze. Padre Tomás não contava, ele não vinha muito. No começo eu achava que ele e a Dona Jandira eram namorados. Nunca tinha visto padre que não usava batina. Um dia perguntei e ela riu, como sempre. Disse que ele era casado com Deus. Achei estranho, Deus não era mulher. Eu gostava de sentar atrás das suas pernas quando ela se deitava no sofá para assistir a novela. As pernas eram a rua, uma rua comprida que fazia esquina nos joelhos. Eu colocava minhas bonecas em cima delas e fazia de conta que estavam indo para a minha festa. A bunda era o casarão. Dona Jandira tinha um bundão.

As crianças foram abrindo os sacos e tirando tudo de dentro. Dona Jandira tentando organizar, mas a gente não deixava. Foi vestido pra um lado, blusa pro outro, aquele monte de meias espalhadas. A Sandrinha vestiu uma calça ao contrário, ficou entalada, perdeu o equilíbrio e bateu a cabeça na parede. Eu achei que ela tinha morrido. Mas não tinha, e eu fiquei decepcionada. Seria a primeira vez que eu veria alguém morrer de verdade. Até então os meus mortos tinham apenas ido embora.

Dona Jandira sabia que naquele dia era meu aniversário, ia até ter bolo no sábado. Eu percebi que ela tentava encontrar no saco alguma coisa bem bonita para mim. Eu era a mais velha por lá. Tinha doze anos e usava número dez. Mas nada serviu. Tinha uma camiseta azul-céu linda, com um brasão e a letra F bordada no peito. Imaginei que havia sido de uma menina chamada Fernanda, muito rica, e por certo tinha até etiqueta de nova  quando ela a ganhou. Experimentei, ficou curta. Puxei na frente, para baixo. Mas Dona Jandira balançou a cabeça. Foi pro Francisco. Ele nem gostou dela depois.

No terceiro saco eu já tinha perdido as esperanças quando ela tirou dele, toda animada, um gorro de lã vermelho. Quer coisa mais simples que gorro? Serve em qualquer pessoa que tenha cabeça. Ficou para mim. Naquela noite a Dona Jandira ficou sentada ao meu lado na cama. Ela fazia cafuné nos meus cabelos enquanto cantava baixinho, bem devagar e quase sussurrando para não acordar as outras crianças… “Parabéns a você… nesta data querida…” E eu fingi que dormia, para ela poder chorar sossegada.

Valsa

Foto: Nicholas Petrone/Flickr.com

– Eu vim cuidar do jardim.

O homem franzino pousou na calçada a sacola vermelha muito velha, encardida e cheia de ferramentas: pazinha, tesoura, luvas e regador. Desconfiada, a mulher de uniforme azul o olhou através das longas grades dos portões de ferro que, quando fechados, formavam uma clave de sol. Ele repetiu, havia vindo cuidar do jardim. A mulher se afastou.

– Espere aí que eu vou chamar a patroa – disse. E correu para dentro da casa.

Deu a notícia. Disse que o homem não era nenhum daqueles que, de quinze em quinze dias, apareciam para mexer nas plantas. Descreveu-o com nojo, apertando as mãos contra o peito. Estava com medo. A dona da casa, contaminada pelo nojo, foi chamar o outro dono da casa. O maestro, debruçado sobre o piano, tentava escrever o último compasso de sua valsa quando ela deu o aviso: um estranho tentava entrar em casa. Em instantes, a paz do lar fora ameaçada: quem era aquele homem?

– Melhor chamar a polícia, sugeriu a mulher de uniforme azul.

A dona da casa ordenou que as portas e cortinas fossem fechadas, Sem dar bandeira, ouviu?, enquanto ensaiava uma coreografia de pânico da sala de jantar para o estúdio, do estúdio para a sala de jantar. Parou para espiar através das cortinas. Quem se atrevia a tentar invadir sua fortaleza? Avistou o pequeno homem que aguardava na calçada, recostado à sombra do flamboyant.

– Ele ainda não foi embora!

Reunidos, os três discutiram hipóteses, traçaram rotas de fuga, um eventual enfrentamento. Não, ninguém havia trocado o serviço de jardinagem. Tampouco era dia, aqueles moços só vinham às quartas, lembrou a mulher de uniforme azul. Não, ninguém havia sido seguido naqueles dias. Nenhum telefonema estranho, também.

– Ele ameaçou você? – o maestro perguntou.

– Ameaçar, ele não ameaçou. Mas o senhor tinha que ver as roupas dele – disse. Era o nojo de novo.

– Então eu vou lá.

A dona da casa disse que ele estava doido, a mulher de uniforme azul fez o sinal da cruz. Mas quando o maestro encasquetava, ninguém podia fazer nada. As duas o acompanharam até o hall de entrada, preferiam assistir escondidas. Ele chegou ao portão e perguntou-lhe o nome. O homem disse que se chamava Theodoro e morava só, longe dali, e aquele era seu caminho desde que conhecera uma moça na rua de cima, Uma médica muito importante. Ela lhe dava, toda semana, comida e remédios. Contou também que era jardineiro, e toda vez que passava em frente à casa do maestro via um jardim fino e bem cuidado. Mas triste.

– Está vendo a dracena? – começou a dizer. – O sol castiga aquele canto o dia inteiro. Ela não gosta. Diferente da pata-de-elefante, que gosta de sol, mas está na sombra. Tem que trocar as duas de lugar, entende? Hoje eu vim mais cedo, só para cuidar disso. Trouxe sementes de girassol para aquele canteiro, quando crescerem os beijinhos vão parecer crianças dançando em volta deles!

E continuou. Disse, sem saber com quem falava, que jardim é que nem orquestra, uma planta dependendo da outra. O maestro, esquecendo-se da suspeita do início, ouvia tudo com atenção. Fez sinal para a esposa abrir os portões. Ela abriu foi um olho deste tamanho. Ele repetiu o sinal, para desespero da mulher de uniforme azul, que já estava roxa.

A clave de sol se abriu, Theodoro carregou suas coisas para dentro. O maestro mostrou o restante do jardim e pediu licença, precisava trabalhar. Beijou a esposa, pediu um vinho e voltou ao estúdio. Encontrara o compasso que faltava para sua valsa. Que agora já tinha nome: O Baile do Girassol.

O pão que o Diabo não amassou

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser aquele. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais ficar consertando roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora apenas os que eram só amigos poderiam passar lá.

Como eu ia dizendo, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã à noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que fica cada um na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram rareando. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. Desta vez, a mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver a história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma morto do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um mudo aceno e pulou nos ombros do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

Por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

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[Nota: este miniconto recebeu menção honrosa no 4º Concurso Literário de Minicontos e Haicais da Editora Guemanisse (RJ) e foi publicado pela editora, com os demais premiados, em agosto de 2010.]

Os peixes (miniconto para um domingo invernal)

Anderson Augusto/Flickr.com

Ontem falei com o vizinho da casa ao lado, não sabia que ele era vesgo. Ficou irritado quando fixei meu olhar no dele, para entender melhor aquela vesguice toda. Fui avisá-lo que uma moça havia procurado por ele à tarde, e como ele não estava, ela bateu aqui em casa, “Você sabe se o Artur viajou?”. Fiquei sem graça de responder para a moça das botas vermelhas. Eu não sabia o nome do vizinho – muito menos se costumava viajar – , embora ele morasse ali há anos. Mudou-se para a nossa rua no dia em que tia Tetê morreu. Era um domingo frio de agosto, um entra-e-sai na nossa casa o dia inteiro. Gente que vinha saber como havia sido, prestar condolências, comer os salgadinhos da Damiana. Foi o único dia em que ele, o vizinho novo e ligeiramente sem noção, falou comigo: “Animada, a sua casa!”.

Tia Tetê morava conosco desde que tio Jaime ficara louco. Ele cismara que ela queria envenená-lo, e então decidiu que faria o mesmo com ela. Fazia suspense com a pobrezinha: “Vamos ver quem morre primeiro?”. E a tia não conseguiu mais tomar seu cafezinho em paz, sempre achando que ele colocaria alguma coisa na sua xícara. Meu pai não aceitava internar o único irmão. Naquele final de semana de agosto, tia Tetê fora com uns amigos para a praia. Não era acostumada com o mar. Distraiu-se. Acharam seu corpo dois dias depois, inchado e azul. No velório, perguntei ao meu pai se ela engolira muitos peixes, para ter ficado daquele jeito. Eu tinha oito anos.

“Você é o Artur?”, perguntei, assim que ele abriu a porta. Já fui explicando, a moça das botas. Ele encostou a porta atrás de si, como se não quisesse que eu visse lá dentro. Como não a fechara direito, espichei o olhar. Apenas um piano encostado à parede. E mais nada na sala comprida com piso de tacos, daqueles antigos. “Ela ficou de voltar”, avisei. Ele agradeceu e fechou a porta. Não perguntou meu nome. E eu não entendi como nunca ouvira som de piano algum vindo de sua casa, naqueles seis anos.

Um ano depois de tia Tetê, foi a vez do tio Jaime. Ligaram de madrugada em casa. Meu pai sentou-se na poltrona ao lado da janela e chorou. No dia em que foi buscar as coisas do tio no asilo, chorou de novo. Dois ternos, sete pijamas, um par de chinelos, duas alianças de ouro guardadas num vidrinho de maionese vazio e uma bíblia, com metade das páginas arrancadas. Um funcionário contou que nos últimos dias o tio cantava sem parar, numa voz miúda:

A canoa virou

Por deixar ela virar

Foi por causa da Tereza que não soube nadar

Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar

Eu tirava a Tereza lá do fundo do mar

Hoje acordei bem cedo. Artur era seu nome, então. Artur era vesgo. E tinha um piano.

Pela manhã, estudei na sala, em frente à janela. De plantão, caso a moça das botas voltasse. Depois do almoço, apanhei minha mochila e saí. A casa do Artur estava silenciosa e fechada, como sempre. Assim que cheguei à calçada, um carro estacionou em frente à casa dele. Era ela. Desta vez, com brilhantes botas pretas. Carregava com dificuldade um pequeno aquário vazio embaixo do braço. Na outra mão, pude ver um saco plástico com dois peixinhos dentro. Ela me viu, sorriu e tocou a campainha com o cotovelo. Acenei de volta e apertei o passo. O professor da primeira aula não deixa ninguém entrar na sala depois dele.