Arquivo da categoria: Crônicas de minuto

Crônica de minuto #55

Luca foi fazer lição de casa e precisou pesquisar o significado de uma palavra. Alcançou o livrão na estante e, antes mesmo de abri-lo, espantou-se:

– Quanto pesa esse dicionário, mãe?

(Comprei o velho Aurélio com um dos meus primeiros salários. A edição é de 1986.)

Não sei quanto pesa a reunião de todas as palavras ditas diariamente em português. E também as não ditas, as só pensadas, as ensaiadas, as ocultas e as mentidas. As curtas, as compridas. As simples, as não. Quem pesa mais, o sinônimo ou o antônimo? Quanto pesam as cento e dezesseis palavras que compõem este texto?

– Um dicionário tem o peso do mundo, filho. E, veja você, não é difícil carregá-lo.

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Crônica de minuto para quem não acredita em Papai Noel

Arte: Kohei
Arte: Kohei

Luca quis porque quis saber se quem dava os presentes para ele e para a irmã no dia de Natal era o Papai Noel ou nós. Fui insistentemente inquirida ao longo do dia. Desconversei o quanto deu; Nina, a caçula, crente de carteirinha, estava sempre por perto.

Disse que não escreveria cartinha coisa nenhuma. “Quero ver se ele adivinha o que eu quero ganhar”. Expliquei que Papai Noel não é Deus, nem anjo ou qualquer outra entidade dotada de onisciência. E que não gosta de ser testado. Ele pensou, pensou, e anunciou: escreveria, então, mas a esconderia no quarto. Por um segundo, imaginei-me fuçando gavetas, revirando a estante.

Se ele apontou a opção – ele ou nós – é porque alguma pista ele já tinha. Não havia mais o que esconder. Mesmo assim, fugi da inquisição. Quem sou eu para desmascarar o bom velhinho?

A objetividade me doía. Foi como pisar descalça em um chão pelando. Falei sobre crença, fantasia, imaginação. Deixei na entrelinha. Fui covarde. Logo eu, sempre tão na lata. No fim, quem deu as respostas foi ele mesmo. Eu apenas confirmei.

Num misto de regozijo e decepção, ele ainda não sabe direito se desacreditar no Papai Noel é um bom negócio. Anda preocupado, questionando se sua ‘descoberta’ foi precoce ou tardia – ele tem nove, um pé nos dez. Receoso, também, pelos presentes que virão. Sobretudo, encasquetou que Natal perdeu a graça.

(Que podia eu, que não nutro simpatia pelo circo do Natal, lhe dizer? Que acho um saco o presente-obrigação? Que me cansam o peru, a neve forjada, a Missa do Galo? Só gosto de Jesus e queria lhe desejar feliz aniversário, sem firulas.)

Dei-lhe um beijo para selar sua descoberta e um abraço para me despedir da sua infância. Ele prometeu ajudar a manter o segredo para a irmã. Ganhei um aliado. E Papai Noel, mais um parceiro.

 

Crônica de minuto #54

Arte: Jim Media Art
Arte: Jim Media Art

Sei que estou envelhecendo quando, ao preencher um cadastro eletrônico, vou muito lá embaixo para selecionar o ano do meu nascimento.

Sei que envelheço quando invoco com o manobrista do estacionamento que põe o meu banco para trás.

Sei que, além de envelhecida, estou mais impaciente que de costume quando pulo todos os anúncios do You Tube assim que é dada a deixa.

Sei que envelheço quando, ao fim de um dia com as crianças e suas energias infindáveis, cantarolo repetidamente “Eu quero o silêncio das línguas cansadas”.

Sei que envelheci quando lembro, não sem alguma nostalgia, de quando eu ia à loja da Telesp pagar a prestação do plano de expansão.

Sei que não só estou envelhecendo como ficando distraída, quando tenho ideias brilhantes do tipo desenvolver um alarme sonoro para pias de banheiros públicos, acionado automaticamente sempre que um anel é esquecido ali.

Sei que estou envelhecendo quando prefiro dormir de estrela do mar a dormir de conchinha – ainda que a praia não seja a minha praia.

Envelhecer é ônus e é bônus.

Crônica de minuto #53

Foto: Degilbo
Foto: Degilbo

Qualquer escritório, repartição, escola, escrivaninha, balcão ou mesa sabe: a quantidade de clipes que se vão nunca é igual, sequer semelhante, à quantidade de clipes que voltam. Ao fechar o movimento do dia, a diferença no caixa sempre estará lá. A contabilidade não bate: saiu mais clipe do que entrou. Não falha. Fica-se sempre devendo.

Alguém não está repassando os clipes adiante. Alguém tem mais clipes do que deveria. Não é a distribuição de renda, o maior desafio capitalista; é a justa e igualitária distribuição de clipes de papel. Com o eterno déficit, a pergunta que não quer calar: para onde vão os clipes que não voltam? Mistério insondável.

Há – só pode ser – um universo paralelo aonde todos eles vão parar. Nele, uma poderosa força eletromagnética suga todos os clipes do nosso mundo terreno, sem deixar rastro.

Nem a tecnologia, que tanto reduziu os papéis no planeta, os fez desaparecer com tanta expressividade como o enigma da abdução dos clipes. Sorte do tal universo paralelo, que deve se alimentar de pedacinhos de arame retorcidos, tragados da nossa dimensão enquanto estamos dormindo. E ele – o tal – tem notória predileção pelas coisas miúdas. Das graúdas, não quer nem saber. Alguém já viu cama, geladeira, tapete de três por dois desaparecer assim, do dia pra noite?

Não venço abastecer a mesa onde trabalho, em casa. Inovei, comprei uns coloridos, outros enfeitadinhos, para não perdê-los de vista. Das duas dúzias compradas no último mês, não resta nem meia. Que também (suspiro) estão com os dias contados. Ninguém sabe, ninguém viu. Está certo que tenho crianças, e crianças também são dotadas de uma poderosa força eletromagnética capaz de fazer sumir todas as suas coisas. Algumas, mais tarde, serão recuperadas sob o sofá, atrás da geladeira. Outras se vão, para sempre, no sumidouro do tempo.

Situação semelhante vivem os pregadores de roupas. Vão sumindo, vão sumindo. Quando me dou conta, não há o suficiente para pendurar as camisas no varal. Aliás, as tampas dos potes plásticos e as colheres de café também padecem da mesma sina.

Universo paralelo, tende piedade de nós.

Crônica de minuto #52

Foto: Russ Morris
Foto: Russ Morris

I

Um beijo no rosto, um só, a registrar olás e adeuses. Dado (e recebido), quase sempre, na bochecha direita. Sem maiores delongas, smack! Um par de estalos, quase simultâneo, quase combinado.

II

Dois beijos no rosto, dois, a registrar olás e adeuses. Na dupla conferência de bochechas, quatro estalos gerados. Isso quando há estalo. É o começo do demais.

III

Três, oh!, três beijos no rosto, a registrar olás e adeuses. Beija dum lado, beija do outro, volta ao primeiro lado já beijado e o beija de novo, reforçando a pegada. É tempo, movimento e beijo em excesso, investidos numa breve saudação ou despedida. São seis estalos.

Quantos trocariam três no rosto por um de língua?

Trinta trilhões de beijos beijados por dia no mundo, faz de conta que a conta é essa. Quem começa?

Três, dois, um, já.

Crônica de minuto #51

Arte: Juan María

Ele queria um romance de mão dupla.

Ela insistia na mão única.

Ele acreditava numa conversão.

Ela mantinha distância.

A esperança é verde.

Ele engatou a terceira antes da segunda.

Ela fechou o cruzamento.

Ele foi multado por excesso de paixão.

Ela cometeu infração grave: mudou de amor sem dar seta.

O ciúme é vermelho.

Ele atrapalhara o trânsito com seus sonhos tão românticos.

Ela fora na contramão dos planos dele.

Ele quisera ser preferencial.

Ela lhe dera um balão.

A solidão é amarela.

Crônica de minuto #50

Xampu que deixa o cabelo duas vezes mais resistente. Pasta de dente que deixa o hálito três vezes mais fresco. Pilha que dura seis vezes mais. Sabão em pó que lava duas vezes mais branco. Cloro em gel que limpa três vezes mais. Adoçante que adoça cinco vezes mais.

Eu, consumidora distraída, achando que era a propaganda, a alma do negócio. Não. É a matemática, meu bem.

Como se calcula o frescor de um bafo, a força sansônica de um fio de cabelo, a brancura do uniforme do filho? De que jeito medir o tamanho de uma limpeza, estimar a dimensão da doçura? O doce mais doce que o doce de batata-doce, todos sabem, é o doce de batata-doce.

Eu, que sou mil vezes mais esperta que muita gente, perdi a conta de quantas vezes caí nesse conto. Eu, que tenho duas vezes a idade do publicitário que bola a papagaiada, já conduzi minha compra baseada no apelo. Depois, sequer consegui tirar a prova dos nove.

É normal, às vezes, não parar para pensar. Mas só às vezes.

Hoje, quando vejo anúncio assim, dou três vezes mais risada. E fujo dez vezes mais rápido.