Mãos cruzadas

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arte: Kenyon Cox

Se me deito de costas e, instintivamente, cruzo as mãos sobre o peito, trato rapidinho de mudar. Que essa é, sempre foi e será posição de quem partiu desta para melhor, esticou as canelas, bateu as botas.

O manual dos bons modos dos mortos – que só é lido pelos vivos – diz que defunto que se preze deve permanecer assim em seu derradeiro leito. Quem será que inventou isso?

Só sei que disfarço, desentrelaço os dedos, ponho a mão no travesseiro, me viro de lado. Qualquer coisa que desfaça em mim a pose mortis. Vai que Dona Morte está pelo bairro, resolve aparecer e não confere direito. É risco que não se pode correr.

Quando criança eu ia (obrigada) aos velórios dos parentes, e ao me despedir deles no caixão (de novo, obrigada) meu olhar se demorava nos dedos entrelaçados sob o véu, num tom funesto de azul-frio com cinza-pedra. Minha avó. Meu avô. Minha bisavó (queriam que eu a beijasse; fugi). Que coisa, de minha mãe não me lembro. Não me lembro, aliás, de nada dela no dia em que foi cremada. Apenas que eu vestia, e isso me recordo bem, um macacão de popeline lilás costurado por mim, sob suas doces e pacientes instruções.

Até hoje, não gosto de ver ninguém dormindo, nem cochilando, de barriga para cima e mãos cruzadas no peito. Como se essa postura não pudesse pertencer ao mundo dos vivos. E justo essa posição vem ser das mais confortáveis. Quando o corpo repousa plenamente na horizontal, cabeça e mente alinhadas. Cotovelos apoiados, uma mão abraça a outra, quase em prece. (Será por isso?)

Se vou dar beijo de boa noite nos meus filhos e, por acaso, estão assim… Não chego a tentar mudar; vão perguntar o porquê. E não quero perpetuar a crendice. Resignada, sigo para minha cama, repetindo: “Deixa de ser besta, Silmara”.

Porque eu sou mesmo muito besta. Paciência.

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4 comentários em “Mãos cruzadas

  1. Juro que eu nunca parei para pensar em como se vão os mortos. Minha relação com a morte é de respeito. Gosto dela. Admiro. Até porque sempre fez a gentileza de avisar-me das perdas. Nunca fui levada a velório, mas estive em um, certa vez. Coisa de criança. A gente estava jogando bola e caiu no quintal. Ninguém queria buscar a bola na casa do morto e lá fui eu. Pulei o muro e vi aquele monte de gente. Fui espiar e vi o corpo sendo preparado na mesa para ser colocado no caixão. Foi meu único contato com um morto e sonhei com ele várias vezes. Fim.
    Eu tenho cisma em dormir de barriga para cima porque numa família de italianos, todos morrem por comer além do que aguentam. A nonna sempre dizia para não dormir nessa posição para não morrer. Olha o trauma aí. rs
    bacio

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  2. Dear, também tenho um perrengue com a tal pose de mãos cruzadas no peito. Mudo rapidinho, como se alguém tivesse vendo…vai que, né? Mas, por amor, já beijei ‘dead people’. beijos

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  3. Meu pai dormia assim, com as mãos cruzadas. Não me lembro de como foi enterrado. Lembro-me que estava bonito. A morte enfeia. Mas ele estava bonito, sereno. Meu filho tb, às vezes num cochilinho da tarde, dorme assim. Tb não gosto. Sou besta! rsrs Beijo, Silmara.

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