O coco

coqueiro

O Fiat prata acabara de deixar o estacionamento do parque, bem à minha frente. O tráfego, não lá muito veloz, fez com que eu reparasse: um coco sobre o teto do carro. Coco verde, canudinho e tudo. Pendia para lá e para cá conforme as curvas da avenida. E continuava, sabe-se lá como, firme e forte.

Eu poderia ter mudado de pista, distraído-me com o noticiário na rádio ou com o escandaloso ipê amarelo, mas escolhi ficar atrás do carro-coco. Segui-o ao longo do quarteirão, afinal, era meu caminho. Torcendo pelo coco, claro. Ôooa!

Emparelhar e avisar? Pensa, Silmara, pensa.

E se se tratasse de um novo adereço veicular? Não botam bonequinho de Minie nas antenas? Cílios postiços nos faróis? Sei de carro com aquela almofadinha numerada de drive-thru, destinada aos condenados à espera, usada como enfeite. Par de pernas falsas, conectadas à tampa do porta-mala. Que dizer do antológico frango de borracha, depenado, atado ao escapamento? A indústria do bom humor não tem limite. Para inventarem um coco de polietileno com base imantada, canudinho e tudo, é um pulo.

Um tipo de câmera, talvez. Por que não a do Google, disfarçada, mapeando as vias da região? Por via das dúvidas, estando perto, não é recomendável enfiar o dedo no nariz e, sim, manter uma atitude normal de quem sabe que está sendo clicado mas não quer dar na vista que sabe que está.

Quem sabe fosse um experimento social, para aferir níveis de solidariedade e empatia nos grandes centros urbanos? Bolado por sociólogos e psicólogos, a experiência simularia uma situação de rua a fim de verificar até que ponto, no mundo globalizado, as pessoas se importam umas com as outras (e com os cocos abandonados). Babado sério. O resultado sairia num documentário que viralizaria no You Tube e quem resolvesse buzinar e acenar, avisando que há um coco sobre o teto do carro, ficaria mundialmente conhecido por participar do projeto. Observei ao redor: apesar de vistoso e balouçante, nenhum motorista ou pedestre parecia tê-lo notado. O documentário, aliás, iria além, abordando a invisibilidade conceitual das coisas e pessoas no caos concreto das cidades. Babado seríssimo.

Ou, ainda, apenas mais uma pegadinha da TV. O cidadão, bem intencionado, corre tirar o coco antes que ele caia e provoque algum acidente; surge o Sérgio Mallandro vestido de arlequim, “Glu glu, yeah yeah”, acompanhado de garotas trajadas com folhas de coqueiro.

Na rotatória, tive a oportunidade única de ficar ao lado do Fiat. Ele seguiria em frente; eu, à direita. Nunca mais eu saberia do coco. As janelas estavam abertas, quatro rapazes conversavam. Não resisti, desci o vidro e inquiri: “É pra ter um coco aí em cima, mesmo?”. Os quatro se entreolharam com expressão de quem esqueceu o feijão no fogo. Gargalharam. Um deles abriu a porta e, ali mesmo, resgatou o coco abandonado. O trânsito seguiu. Arranquei e pude ouvir, ao longe, uma espécie de apuração interna sobre quem fora o responsável.

Cotidianices numa cidade qualquer, esquecimento comum, inocências urbanas.

Mas se uma fotografia ou vídeo da cena fosse postada na rede social, a patrulha viajandona não tardaria. Porque toda pauta, hoje em dia, requer análise e julgamento. Que irresponsabilidade, a dos rapazes. Comércio informal dos cocos, certeza que há sonegação de impostos. Cocos provenientes de manejo não-sustentável, cadê o Ibama? Vagabundagem (em plena tarde de quarta-feira?). Coco: o aliado das dietas. Coco: o vilão das dietas.

Tempos estranhos, estes, onde tudo pode ser tanta coisa. Menos o óbvio.

E eu nem gosto de água de coco.

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3 comentários sobre “O coco

  1. Adorei a crônica, e ia dizer que não escrevi, Mas fico inventando histórias na cabeça, sobre coisas que vejo, mesmo que não sejam tão inusitadas. Mas… COMO ASSIM, VOCE NÃO GOSTA DE ÁGUA DE COCO?????
    Eu mato e Morro morto por UMA JARRA m ja que um Coco nunca é suficiente. Aqui a gente tem a bênção de poder comprar em garrafas de um litro e tem os lugares certos onde sempre vai ter, doce e geladinha. Sem água de Coco eu não sou eu.

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