Baila comigo

arte: Shiko
arte: Shiko

Em tempos de desespero hídrico, paulistas, mineiros e fluminenses apelaram aos rituais mágicos para que a água retornasse às torneiras áridas. Entrou em cena a dança da chuva, a performance ancestral que promete eficácia na geração de torós.

Se o elemento água, artigo em falta nos canos do sudeste, pode ser trazido de volta com uma dancinha, por que não promover um grande baile nacional, quiçá mundial, a fim de evocar atitudes escassas, esquecidas, evaporadas com o tempo, levadas com o vento?

Uma dança da gentileza, por exemplo. Com precipitações abundantes de amabilidade para socorrer, entre tantas necessidades, o trânsito das pequenas, médias e grandes cidades. Só não é recomendável realizá-la na hora do rush, no meio da avenida.

Dança da paciência. Solitária, em par ou em grupo, para que escorra sobre cada um o dom da serenidade e da calma, a fim de melhor lidarmos com todos e tudo, de infâncias a velhices, de sofrimentos a injustiças, de chatices a arrogâncias. (Comigo, confesso, nunca funcionou; venho dançando há décadas, e ela ainda não deu o ar da graça por aqui. Talvez eu que não esteja fazendo direito os passos.)

A dança da tolerância, para alumiar mentes obtusas diante do diferente, e a dança da compaixão, até que ela, assim como o amor cantado por George Harrison, venha para cada um.

Sólidas ou líquidas, são muitas as coisas faltantes neste mundo. Invente a sua coreografia, e bote todo mundo na roda. Os deuses responsáveis hão de se sensibilizar. “Dance bem, dance mal, dance sem parar”.

Não custa tentar.

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4 comentários sobre “Baila comigo

  1. Lindo, como sempre seu texto… Me deu vontade de dancar sozinha, e eu costumo faze-lo… As vezes, sem menos esperar, meu marido me pega dancando com minha cachorrinha, enquanto eu entoo alguma baladinha brasileira, para baixar a saudade e suavizar meu coracao… Adoro ler seus textos, sempre me emocionam, para rir, para chorar, para refletir. Obrigada mais uma vez pela sua contribuicao, voce nao imagina a diferenca que faz quando coloca as palavras no “papel”.

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  2. Dançaria eu até a noite virar dia, a grama virar lama, os pés doerem a não mais suportar, todas essas danças. Descansaria um pouco e dançaria tudo de novo.

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