Perdidos

O menino com camiseta de Homem Aranha olha ao redor e não reconhece os rostos que passam apressados. Dá meia-volta e confirma: está perdido. Nem seus superpoderes podem lhe acudir naquele momento. Trata de fazer, então, a única coisa para a qual está verdadeiramente preparado: abrir o berreiro.

Eu não era criança de me perder na rua, no supermercado, na praia. Nunca deixei minha mãe maluca, procurando desesperadamente por mim na multidão. Também nunca fui esquecida dentro de carro ou na escola depois da aula. É experiência não vivida, faltante em meu portfólio infantil.

A moça gorda e cheia de sacolas para e conversa com o garoto. Tenta acalmá-lo e, com a mão livre, faz-lhe um carinho nos cabelos. O clone de Spider Man continua a chorar. Pessoas se juntam à sua volta, fazem-lhe a guarda, querem pegá-lo no colo. Mais ou menos como no segundo filme da série, numa emblemática inversão de papéis entre protetor e protegido, quando Peter Parker conta com a ajuda dos passageiros do metrô para salvá-lo do inimigo.

(À gente grande não é facultado perder-se. Gente crescida é obrigada a saber voltar para casa. Perdeu o direito fundamental de não saber onde está, não pode ser anunciada em alto-falante. Não está autorizada a recorrer ao segurança do shopping e pedir ajuda. Quem virá lhe buscar? Ao adulto perdido não cabe compaixão; ao contrário, culpa-se. Ninguém se comove com o quarentão sem rumo, que não sabe o que quer ser mesmo já tendo crescido. Quem afaga cabeça de marmanjo que não tem ideia do que fazer da vida? Quem dá colo aos perdidos no tempo e no espaço?)

A Dona Aranha não vem pelas paredes, mas surge no final do corredor, com a aranha-caçula nos braços, ralhando em público com o mais velho. Que que o Marcus Vinícius tinha que ter parado para ver a vitrine com o Fusca feito de Lego? Ela continuou andando, achando que ele a seguia. Mas não, foi coisa de minuto, “Ele ainda me mata do coração”. Não enquanto ela ainda conseguir ativar sua teia materna, invisível e poderosa.

Mais uma identidade secreta revelada. Se não está fácil para super-herói, imagine para nós.

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3 comentários sobre “Perdidos

  1. Também nunca me perdi pela vida. rs Brincávamos com os filhos, nos shoppings, “escondendo-nos” deles, atrás de pilastras, isso para mostrar que eles tinham que ficar atentos a nós. rs Uma maldadezinha. Mas deu certo, também nunca se perderam de nós. Beijo!

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