Andar a pé eu vou (que o pé não costuma falhar)

Arte: TataliaL

De casa até o próximo compromisso são três quilômetros. Tenho a opção de ir de carro, como de costume. E posso também rodar dois quilômetros e quatrocentos metros, deixar o carro lavando no posto de combustível (necessário, após sessão de biscoitos e chicletes no banco de trás) e fazer o restante do trajeto de seiscentos metros a pé.

Verifico os calçados: sapatilhas. Conforto garantido, lá vou eu, ineditamente, de segunda opção. Eu, que não tenho vocação para andarilha. Sou feita de rodas. E meu motor, no quesito exercício, não é flex.

“Lavagem simples, por favor. Não, não precisa de jet cera”. Apanho o canhoto onde a placa do bólido está escrita num garrancho e me despeço, “Volto lá pelas tantas”. Estreio a calçada fervente e meus neurônios se agitam em divertidas sinapses. Para conferir as novidades do velho trajeto, nada como mudar a posição e a velocidade do observador. A pé, tudo fica em câmera normal. Lenta, não.

E em câmera normal, observo o inobservável a sessenta por hora. Dez vezes mais rápido do que as coisas, de fato, acontecem. Não te contaram?

A pé, sou autorizada a seguir pela contramão e dou de cara com vistas nunca dantes vistas. Vejo, de frente, meu caminho ao contrário. É a vida em ré maior.

Passo pelo balão e sua dinâmica circular. Estou no centro de um carrossel urbano. Ao meu redor, cavalos de cento e vinte motores.

Desço a rua, vejo a placa cravada em frente à uma casa, anunciando a panaceia milagrosa à base de babosa que promete tratar tudo. A cura do câncer, quem diria, está num jardim!

Continuo.

A pé, as casas parecem maiores no close do olhar, da audição e do olfato. Maximizo os sentidos para decupar outra dimensão da rua, aquela que normalmente não acesso do meu aquário 1.4 com oxigênio-condicionado.

Vejo meus filhos na porta de uma escola em horário de saída. Mas não são os paridos; são os filhos dos outros. No trânsito de mochilas de rodinhas, um chama “mãe” e eu atendo, instintivamente, com olhar e ouvido atentos. O timbre infantil é coletivo. Uma vez mãe de um, mãe de todos.

Continuo. Sou a versão feminina de Johnny Walker.

Tanto lixo, vontade de sair varrendo tudo. A cidade também é minha casa. Minha casa grande e minha senzala. Sou dona e escrava da rotina urbana. Quero alforria sem açoite.

Atravesso. Meu GPS interior avisa: “Você chegou ao seu destino”.

Três horas depois, tomo o rumo do posto. Para concluir a round trip, escolho o outro lado da calçada para imprimir minhas próximas pegadas. Novo ângulo, novas fotografias: trilhas de formigas apressadas, ipês amarelos batendo papo, gente falando sozinha, restos de construção, um edifício-cadáver, minha sombra no muro.

Por trinta minutos – quinze para descer a rua na ida, quinze para subir na volta – , fui uma recém-chegada à cidade. Meus olhos de migrante-por-um-dia viram o que o cidadão motorizado não vê. O que, ao lado de ter o carro limpo novamente, não deixa de ser uma vantagem.

Nota: comecei esta crônica crente que estava abafando com o título. Porém, depois de uma rápida busca no Google, percebi que há nada menos que 4.470 ocorrências dessa expressão. Ou seja: mais difícil que me por para caminhar é ser criativa na internet.

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7 comentários em “Andar a pé eu vou (que o pé não costuma falhar)

  1. Adoro andar à pé. O mais gostoso é sentir o cheiro que vem das casas. Cheiro de roupa lavada. Cheiro de comida sendo preparada. Cheiro de família. De vida!

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  2. Sil, você tem O DIREITO de usar a expressão que 4470 pessoas usaram na internet. Pela simples razão de que seu texto não é só o título. E nem 4,47 pessoas fazem minimamente parecido. 😉
    (Sim, eu leio posts antigos, clicando nos links abaixo do post do dia!)

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  3. mesmo com prá lá de 4 mil títulos parecidos vc consegue nos levar junto pela calçada de ida e de volta… sem igual…!!
    beijinho Sil!
    e um ótimo fim de semana!

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  4. rs. A gente sempre acha que está inventando a roda…acontece muito comigo. Aprecio sua capacidade de colocar no papel (ou seria no site?) coisas tão cotidianas e de torná-las tão interessantes.
    bjs e um excelente final de semana.

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  5. KKKKKKkkkkkkkkkk Silmara foi ótima sua nota kkkk. Menina, nunca imaginei que a expressão fosse tão usada! Mesmo assim, seu texto ficou ótimo, como sempre! bjsss

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