Pela metade

Foto: Harshad Sharman/Flickr.com

Prestem atenção nas coisas que não foram terminadas. Aquelas que ficaram pela metade, ou nem isso. Prédios inacabados, por exemplo. Toda cidade tem os seus. Largados crus, eles parecem instalações de alguma exposição de arte esquisita. São interferências destoantes na cidade que pulsa noutro ritmo. Viram esqueletos urbanos, incompletos e sem razão. A gente se acostuma com eles, mas não deveria.

Todos os dias, esses prédios ficam à espera de alguém que os conclua. Enquanto isso não acontece, vivem um drama com jeitão de Shakespeare: são ou não são? Não compreendem porque acabaram assim. Ninguém lhes contou que, em determinado momento, alguma coisa deu errado. Que alguém mudou de idéia, ou o dinheiro acabou, ou uma lei tratou de impedir que fossem para frente. E, como nas obras nem sempre é possível apertar a tecla undo, alguém determinou que seria melhor deixá-los ali, semi-erguidos. Os quase-prédios, enfeando a cidade.

Agora prestem atenção nas obras que a gente vai embargando pela vida. Todo mundo tem as suas. As ideias, as vontades, os projetos de vida que são só sonhados. Os que não saem “da planta”, ou que faltam uma parte. Ficam inconclusos, ocupando espaço lá dentro da cabeça. Iguaizinhos aos prédios tristes com cor de abandono, espalhados pela cidade.

A gente se acostuma com eles. Mas não deveria.

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10 comentários sobre “Pela metade

  1. Ah, Sil… que pena que vc está de férias! Precisava tanto conversar sobre isso…
    (Quer dizer, que pena pra mim, né? Porque espero que esteja sendo ótimo! Divirta-se!!)

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  2. E pensar que estive tão perto de você e não lhe dei nem um murro na sua cara!
    Estou precisando retomar minha arquitetura. Obrigado por me lembrar!

    um beijo [tão carinhoso quanto nosso encontro de sábado].

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  3. Nossa! Que bela metáfora, Silmara!
    Acho que tenho uma cidade fantasma dentro de mim, pois há tanta obra, iniciada no terrreno da imaginação, mas incabada no terrreno da realidade…
    Nada, embargado por irregularidades. É só falta de tempo, ou de organização…

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    1. Cumadra.

      Há quem se especialize, eu, por exemplo, mas claro que com uma justificativa genial sacada do fundo do baú que minha malandragem depurada pelos tempos de velhaquice vivenciada dentre outros velhacos que fui encontrando pelos livros, musicas, quadros, filmes, ensaios e papos de padocas nas esquinas das cidades onde tomei e tomo cervejinhas que nem sempre estão geladas mas servem pra profundar uma certa falta de censura pensamential compulsiva e que deixam meu bolso cheinho de anotações de coisas por fazer ou escrever ou compor ou só pensar quando tiver vontade de descobrir que diacho to fazendo aqui sem terminar o que comecei sem me sentir um inútil vagabundo vira-lata distraído pelos cheiros das esquinas onde passa tanta gente correndo pra fazer o que precisa pra não se sentir menos e menor por que inacabou seus planos e sonhar seus sonhos.

      Na minha lista quase uma “capivara” de bandido condenado a 321 anos de cadeia vou organizando mental e coraçãomente cada inacabação pruma incadernação vindoura, soube que são umas 664 no livro do Kipling ou nos outras centenas que tratam do tema incadernatício e quase me convencem que a vida é quase que uma sucessão de vidas onde se aprende cada dia um pouco entre os nossos pares que nem sempre fazem par mas que , por falta de talento e falta de vidas mais esclarecedoras, a gente inventa que são como nós que sabemos como cada um deve ser sem mesmo saber como somos nós mesmos que inventamos milhares de trilhos de trens que não vão pra lugar nenhum mas tão lá pra dizer que existem trilhos que já foram deixados por outros que estavam indo e indo e, de repente, foram construir novos trilhos pra outros lugares mais interessantes naquele momento em que o caminho lhes pareceu dar em nada como naquela musica do Gil que é que nem um trilho em plena selva amazônica onde nem as tribos não contatadas ainda passaram… trilhos, coisa linda feita de palavras e palavras, pensamentiações elaboradas por gente como eu que só olha os trilhos dos outros e por algum tempo sigo por eles até que meus trilhos originais cuja arquitetação me dá prazer que nem dá prazer pra cientista de microscópio caçando víris de pandemias que apareceram ontem.

      Trilhos e trilhares sem mágoas, pra qualquer lugar em qualquer tempo, fazem o caminho que só o caminhante sabe que existe quando olha pra trás…expliquei? Senão, começo tudo tra veiz.

      Braço!

      Cumpadro.

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