As casas
13 mar 2012 10 Comentários
em Poesias Tags:casa, coisa, gente, lar
Ilustração: Ekaterina Mitchev
Toda casa tem remédio vencido
Livro nunca lido
E ralo fedido
Toda casa tem tapete de bem-vindo com desenho engraçadinho
Forno de microondas um pouco sujinho
E xampu de ponta-cabeça, para aproveitar o restinho
Toda casa tem quintal razoavelmente bagunçado
Muito papel velho guardado
E um revisteiro, nem sempre atualizado
Toda casa com recém-nascido tem cantiga no ar
Uma visita craque em fazer bebê nanar
E quilos de fraldas que, pena!, não vão se reciclar
Toda casa com criança tem árvore de Natal
Bola murcha no quintal
E um Miojo providencial
Toda casa de gente preocupada tem leite desnatado
Dinheiro bem guardado
E portão com cadeado
Toda casa com gato tem sofá desfiado
Pelo pra todo lado
E pelo menos um vídeo dele, bem engraçado
Toda casa tem, inclusive, coisas que não rimam
Como vaso sem planta
Filme de viagem que ninguém assiste
Ímã de geladeira de lugar que já fechou
Controle remoto com pilha fraca
E cupom de promoção que não vale mais
Toda casa tem mais coisas que o necessário
Mas ninguém sabe
Que toda casa, coitada, tem é medo de cair.
Nota: este poema é a maior prova de que um texto, às vezes, tem vontade própria. Nascido para ser coisa de adulto, teimou e pendeu para o infantil o tempo todo. Não teve jeito: ele venceu.
Poesia de vento
28 set 2010 8 Comentários
em Poesias
Ilustração: Kathryn Harper/Flickr.com
.
Escrevi uma letra para a música que o vento fez
Quando anunciou a chuva de ontem.
Gravei meu quintal chovido em sonho
Para o dia que ele não for mais quintal de ninguém.
***
Estudei fora e dentro de mim
Só não fiz dever de casa
Eu nada devia.
***
Ganhei de aniversário uma vida, mas ficou pequena
Troquei por outra, dois números maior.
***
Fotografei o cheiro de feijão no fogo
Passei perfume na flor sem cor
Desenhei a risada da minha filha num papel de pão
Aqueci a foto da minha mãe no peito
(Ou foi ela que me aqueceu)
Deitei no colo do meu filho
Chamei-o de pai
Ele riu
Sabe que já foi meu pai.
***
Beijei o passado, flertei com o futuro
Casei-me com o presente.
Formei-me cedo, tive filhos tarde.
Não vi a hora de ser feliz.
***
Entrei no Messenger, Deus não estava online.
Atendi o telefone, era eu mesma
E não era engano.
***
Fiz sopa de palavras no jantar
Estava com tanta pressa
Esqueci de por os pontos finais.
***
À meia-noite, fingi que dormia
E deixei a Cuca me pegar.
O fio da antiga meada – II
26 mai 2010 6 Comentários
em Outras coisas, Poesias Tags:morte, nascimento, vida
Mais um da pasta vermelha, dando sequência à sessão retrô do blog. Este aqui eu escrevi quando tinha dezessete anos. O ano era 1984. Foi uma encomenda: minha irmã deu as três primeiras palavras, e pediu que eu escrevesse o resto. Ficou assim.
Foto: J.Mark Dodds/Flickr.com
Já era tarde e ninguém o escondia mais
Surgia da profunda dor o pavor, o calor, o senhor
Brusco alívio de amor
Enternecida, a mão que o afaga
Sorri que agrada; deseja, mas não fala
Alisa o pedaço de corpo que já se esquiva
Já não era dor, nem pavor
Era cor
Cor do corpo que transmite luz
Na doce dança que não mais traduz
A leveza do já partir
E a tristeza de mãe, de não poder ir
Fere. Estilhaça.
O pequeno corpo tão cheio de graça
Que ri sem graça, pois que graça ter?
Se ao nascer já parte
Não. Não há cores que a agrade
Parece assim, luz que ofusca, mas não arde
E reanima o pavor de todos nós
Pois que senão, já era tarde.
O fio da antiga meada
14 mai 2010 13 Comentários
em Outras coisas, Poesias Tags:adolescência, Deus, juventude
Hoje eu vou arriscar. Em vez de um texto recém-saído dos meus miolos, postarei este aqui. Eu o escrevi quando tinha dezesseis anos, para uma redação do colégio. Nem tem nome. Mas lembro do professor tê-lo lido em voz alta para a classe. Desde então, ele está guardado numa pasta vermelha de elástico (quase tão velha quanto ele), junto a muitos outros, registrados com caneta e máquina de escrever. Naquele tempo ‘pen’ era uma coisa e ‘drive’ era outra, e essas palavras ainda não andavam juntas.
Há meses ensaio mostrá-lo aqui, numa espécie de sessão retrô. Claro que, hoje, eu reescreveria algumas partes. Mas resolvi publicá-lo do jeitinho que foi escrito há vinte e sete anos, sem retoques. Certa de que os caros leitores darão um bom desconto para a adolescência ingênua que dele transborda. Pois é isso que eu, afinal de contas, era. Confesso: estou morrendo de medo. E com um pouquinho de vergonha. Lá vai.
Foto: John Ryan Brubaker/Flickr.com
“Quero um Deus que não saiba rezar, que morda a língua e envergonhe a família. Um Deus que não saiba ensinar e que não se preocupe em aprender.
Quero um Deus fantasiado de colombina, que traduza em sons toda a melancolia de viver.
Quero um Deus que morra antes de eu nascer, que é para eu não lembrar nem ter saudades dele.
Quero um Deus meu, que saiba fazer pizza e caipirinha.
Quero um Deus que precise tragar fumaça para se convencer que o mundo é uma tragédia, que se coloque num altar e, embriagado, diga que a vida é linda e que meus pais me amam.
Quero um Deus sujo, que seja pedreiro e que não ganhe nada. Quero mandá-lo embora e depois esperá-lo até que ele volte.
Quero um Deus lindo e fotógrafo, que não use flash e que xingue o juiz de futebol. Quero chorar por achar esse Deus tão lindo.
Quero um Deus morto, que não dê trabalho, e que morra sem dizer um pio, que é para não atormentar.
Quero um Deus triste e que tenha medo de avião.
Quero um Deus que me ouça dizer um palavrão e que ria, me chamando de criança.
Quero um Deus que cante desafinado e que não viva sem mim.
Quero um Deus que me dê chocolate aos sábados, e que goste de me ver de branco.
Quero um Deus gordo, que passe pasta de dente em queimadura.
Quero um Deus que saiba imitar gato e bem-te-vi. Que conte a história do boneco de pau que comeu a maçã envenenada.
Quero um Deus azul que limpe os óculos com a camisa, e que ande com os pés pra dentro, que é para eu rir.
Quero um Deus sozinho, que precise de mim e mande me chamar na escola. Que diga que vai morrer, só para me ver chorar.
Quero um Deus completamente pobre, que diga que é rico e que vai comprar a lua para mim.
Quero um Deus amigo dos ladrões e dos barbeiros, que saiba dirigir caminhão e que me ensine coisas da vida.
Quero um Deus mocinho, que é para eu ensiná-lo que o Papai Noel não mora no Pólo Norte, e sim na América do Sul.
Quero um dia de manhã ir acordar esse Deus com um pássaro ferido achado em nosso quintal, e ele me chamar de criança, fechar os olhos e dormir para sempre.”
Mais vinte coisas que eu não sei
24 fev 2010 9 Comentários
em Poesias
Foto: Filip Bunkens/Flickr.com
Por quem os sinos dobram.
Se Deus gostaria de saber o que eu penso dele.
Como a mãe do João Hélio consegue se levantar da cama todos os dias.
Usar calculadora científica.
Calcular juros.
Calcular o quanto gosto dos meus filhos.
Se vou de azul ou lilás. Ou se nem devo ir.
Porque ainda não queimamos os nossos terninhos. Tal e qual os sutiãs.
O que quer dizer “Bye bye, Cecy nous allons” em Casaco Marrom.
O que eu faria com um milhão de dólares.
Que idioma a minha empregada fala.
Por que ainda não fiz uma cirurgia plástica.
Como fazer mala pequena.
Quanto eu já gastei com sapatos na minha vida.
Como vou cortar o cabelo na sexta-feira.
Porque tenho tanto batom.
Porque comprei outra calça saruel.
Onde foi parar o papel onde anotei as outras coisas que eu também não sei, junto com o telefone da minha amiga.
Onde eu fui amarrar a minha égua.
Onde esta estrada vai dar.
Dezenove coisas que eu não sei
22 fev 2010 16 Comentários
em Poesias
Ilustração: Stewart Ho/Flickr.com
Dar ponto sem nó.
Fazer nó de marinheiro.
Desfazer os nós que andei dando por aí.
Passar delineador.
Passar camisa.
Passar batido.
Como funciona o iPad.
Quanto custa um iPod.
E como pode alguém não gostar de gato.
Tirar a prova dos nove.
Ser à prova de bala e chocolate.
Falar a língua dos anjos.
Ganhar dinheiro.
Qual é o Chitãozinho, qual é o Chororó.
O que a Paris Hilton tem na cabeça.
Que fim levou Robin.
O que é bom para tosse.
O que será, que será.
O que eu vou ser quando meu filho crescer.
***
PS: o tema rende.
Sete chaves
27 jan 2010 8 Comentários
em Poesias Tags:chave, sete chaves
Ilustração: Dots and Spaces/Flickr.com
Ela levava consigo tantas chaves.
Uma para fechar o tempo em casa.
Outra para fechar a conta no restaurante.
Uma para fechar aquele contrato.
Outra para fechar o boteco.
Uma para fechar o corpo em dia de terreiro.
Outra para fechar a boca e voltar a usar aquele vestido.
E mais uma, para fechar o coração para balanço
Só para descobrir
Com qual delas abriria os olhos.
Conversa de borboleta
02 out 2009 10 Comentários
em Poesias Tags:borboleta, camiseta, flor, girassol, margarida
Foto: Rich/Flickr.com
Na camiseta cor de céu
Mora a borboleta bordada
Em fios de verde oliva e laranja lima.
A borboleta de verdade ficou curiosa e pousou
Para conversar com a amiga
Que estava tão quietinha.
Perguntou seu nome
E a borboleta bordada não respondeu.
Quis saber qual flor ela gostava mais
E a borboleta bordada não respondeu.
A borboleta de verdade desistiu e voou.
A borboleta bordada chamou baixinho
Mas não deu tempo de contar
Que não tinha nome
E gostava das margaridas
Mas preferia os girassóis.
Rostos
29 ago 2009 19 Comentários
em Poesias Tags:revistas, sociedade
Ilustração: Isaac Nazal/Flickr.com
—
Na revista colorida
Sem índice nem número de página
Há sempre alguém se casando
E um fulano que se separou.
Há a mulher que vai ter bebê
Perto da outra que acabou de ter um
Inexplicavelmente enxuta e sem olheiras.
Há uma família feliz em férias
Onde ninguém briga e nenhuma criança chora.
Há alguém querendo aparecer
E outro que faz de tudo para se esconder.
Há uma pessoa fazendo força para ser lembrada
Ao lado da que deveria ser esquecida.
Em meio aos anúncios de sorrisos em liquidação
Surge um beijo sem foco
Uma pose sem graça
E uma legenda sem ambição.
Há recém-apaixonados
Com grandes chances de se desapaixonarem
Até a próxima edição.
Uma traição aqui,
Outra reconciliação ali
E nada que altere a vida.
Sempre tem foto de quarto feito para tudo, menos dormir
Em algum apartamento deslumbrantemente falso
Ou num castelo de mentira
Onde mulheres posam em sofás de aquarela, com pezinhos esticados.
São bailarinas de um espetáculo impossível
Com roupas que não amassam, nem criam bolinhas.
Há sempre as confraternizações esquisitas
De harmonia indecifrável
Reunindo alhos e bugalhos
Brincando de ser amigos de infância.
No planeta-pose até as histórias tristes se dissolvem
Ficando fotogênicas e agradáveis.
Ninguém tem problemas.
Ninguém tem cárie.
Ninguém tem saldo negativo.
Nem chulé.
Revistas assim são estranhas companhias para a espera
Do médico atrasado
Da manicure desapressada
Ou do cabeleireiro ocupado.
Eu, entre um cafezinho e outro,
Deixo que elas sentem ao meu lado
E puxem conversa comigo.
Para o Kim
14 abr 2009 3 Comentários
Ilustração: Dupo X-Y/Flickr.com
.
Kim
Me conta como é ser gato.
Porque gato não precisa fazer nada
Só precisa ir vivendo.
Não tem que apagar a luz ao sair
Nem acender ao entrar
Nem pagar conta
Nem ouvir gente chata.
Não tem que usar roupa
Nem sapato
Nem cobertor
Nem desodorante.
Muito menos sair correndo
Para tirar a roupa do varal
Quando começa a chover.
Kim
Me conta como é que reage um gato
A um assalto.
Olha tranquilo para o bandido?
Não altera um pelo
E lava a pata
E espera o tiro.
Ou nem sabe do tiro.
E quando ele vem
Morre-se, sem maiores delongas.
Mas vem cá: quem é que assalta gato?
Kim
Me diz como é ser gato.
Se é bom ou é ruim
Se tanto faz ou se tanto fez.
Ou isso é um engano danado
Das pessoas que pensam
Que não há nenhuma razão
Nas coisas que são e nas coisas que não são?
Kim
Penso, enfim, que ser gato deva ser um bom negócio.
Mas, me fala, gato é capaz de assistir a um bom filme?











