A comédia da vida materna, parte II: a missão

E a pediatra das crianças pediu exames de fezes. Daqueles que não se colhe em laboratório, e sim, no recôndito do lar. Todo ano ela faz isso. Deve se divertir um bocado imaginando as pobres mães (pais não dão conta, morrem de nojo) travando uma luta inglória com frascos esterilizados e pazinhas traiçoeiras, à espera de uma boa amostra de cocô.

Não satisfeita com o trivial, e para meu desespero, ela pediu logo três amostras. Vejamos: dois filhos, total de seis porções a serem colhidas (em dias alternados), armazenadas e entregues no laboratório, no máximo em 12 horas. Lá vou eu, inspecionar o relógio de hora em hora, enquanto verifico, não sem demonstrar alguma ansiedade, a predisposição deles em consumar o ato. Rezo para que não seja antes das sete da noite; se for, o prazo vai para as cucuias e a produção, para o esgoto.

Ela também pediu exames de urina. Embora feitos no laboratório, esses representaram igualmente um ato de bravura – crianças raramente alinham necessidade, desejo e horário, gostam de brincar de acender e apagar a luz no banheiro e sempre querem ver como é o sabonete. O que dirá realizar o outro – de altíssima complexidade – em meio à rotina doméstica e sem diploma de enfermagem ou certificado de contorcionismo. Epopeia é o mínimo. Nos faz questionar o porquê de, um dia, termos desejado perpetuar a espécie.

Quem não tem filhos pequenos não faz ideia, mas uma coleta dessas não é simples. Requer prática, habilidade, destreza e, sobretudo, estômago. Adultos se programam, conseguem estabelecer um razoável planejamento refeição/toilette, agem sozinhos. Já com a gurizada, é preciso estar eternamente alerta, apetrechos ao alcance, pois qualquer hora pode ser hora. E se perdermos essa hora, é como diz Adoniran em seu Trem das Onze: “só amanhã de manhã”.

Mãos à obra: eu organizo o movimento, oriento o Carnaval, ponho-me a postos e não perco a cria de vista. Ao ecoar do chamado, empunho frasco e pazinha, saio voando. Muitos serão os alarmes falsos, até que chegue a Hora H. Ela chega e, nesse momento, faz-se mister evocar uma energia superior, rogando ausência momentânea de olfato e frescura. O mais velho se posiciona no vaso sanitário, eu me concentro. “Espera um pouquinho, filho”. “Senta mais para cá”. “Assim está bom?”. “VAI!”. Nesse instante, a caçula, sugestionada, chama do outro banheiro: “Também estou com vontade!”. Não há alternativa: o pai terá que enfrentar seus limites. Pelo menos, até eu estar liberada para acudi-lo.

É assombrosa a possibilidade de avaliar se uma pessoa está saudável ou não através da análise de seus dejetos. As universidades poderiam formar médicos tarólogos, com poder de visualizar a saúde de seus pacientes através dos arcanos, dispensando, assim, as constrangedoras coletas de substâncias orgânicas e mal-cheirosas.

A delicada operação é concluída. Ainda há, porém, a bizarra finalização: manter as amostras na geladeira. No dia seguinte, todos almoçarão fora. Não há paz quando se sabe que elas – ainda que triplamente acondicionadas – estiveram próximas aos tomates.

As cenas se repetem por mais duas vezes nos dias seguintes, com pequenas variações e, eventualmente, alguns acidentes. Ao todo, três idas ao laboratório. A recepcionista já sorri quando me vê.

“Ser mãe é padecer no paraíso”, disseram. Com direito a passeios pelo purgatório, admita-se. Mas missão dada é missão cumprida. Dias depois, a recompensa: resultados negativos.

Ao sucesso, com ou sem Hollywood

Antigamente, para ter sucesso, bastava fumar um Hollywood. Ao menos, era o que prometiam as lendárias propagandas dessa marca de cigarro, ao apostar na fórmula aventura & música.

Hoje, basta se matricular numa escola de inglês ou num curso de graduação. Nove entre dez desses anunciantes usam o termo “sucesso” para seduzir aspirantes a um lugar ao sol na praia corporativa. Como se sucesso fosse meio, e não fim. Como se garantia fosse para chegar ao topo. Topo? Só sabe do topo quem escalou montes, contemplou paisagens, sentiu o ar rarefeito, chorou ao pensar na família, achou que não ia dar, e deu.

Sucesso na vida profissional: procura-se a definição, desesperadamente. O estreito desejo de chegar à presidência da empresa a qualquer custo, ou a larga ilusão do contra-cheque de cinco, quase seis, dígitos, em troca de uma perigosa parceria com o tinhoso? Encravar-se na calçada da fama ou passear por ela, livre feito um passarinho?

O sucesso, talvez, seja mais simples: aquele diretorzão lhe parar no corredor para pedir uma dica – de qualquer coisa. Tirar trinta dias de férias, ninguém do escritório lhe procurar nesse meio tempo e, de verdade, tudo estar bem. A moça do café lembrar do seu aniversário, e lhe trazer um que ela acabou de passar. Acordar, nos dias úteis, de razoável bom humor.

Sucesso na profissão, para ser honesta, é ter um bebê em casa e conseguir dormir uma noite inteirinha, antes de ir trabalhar. Sucesso é seu filho brincar de ser você trabalhando – e se divertir muito. Sucesso é office-home, e não home-office.

Para não dizer que não se falou em flores, sucesso também é costurar o próprio vestido e as amigas perguntarem onde você o comprou. Alforriar os cabelos da chapinha e da escova progressiva – essas paroxítonas para suposta beleza. É o esmalte durar uma semana, sem lascar. Ter, todo ano, uma mamografia com resultado negativo.

Sucesso é ver o manacá que você plantou dar sua primeira florada. É clicar, no exato, único e derradeiro instante, o beija-flor na varanda lhe dando alô.

Sucesso é acertar o ponto da massa de nhoque, abrir embalagem de iogurte sem rasgar a tampa. Sucesso é apanhar a manga mais alta, suculenta e sem bicho, lá no sítio do seu pai.

Sucesso, sucesso mesmo, é apagar as velinhas no 115º aniversário, como fez a mulher mais velha do mundo, ano passado. É tirar “Let it be” no piano, depois de apenas dois meses de aula.

Sucesso é o cãozinho de três patas subir e descer escada, na boa. Ou aquele que saiu no jornal, só com as duas de trás, feliz da vida na sua cadeirinha de rodas.

Sucesso é terminar o quebra-cabeça de cinco mil peças. Caprichar num origami e todo mundo acertar o que é. Interpretar o I-Ching com a devida sabedoria. Sucesso é não desafinar na serenata. Sair na ladeira sem precisar do freio de mão.

Sucesso é aquele que vem atrás da gente, e não o contrário.

Sucesso é ter uma lista enorme de coisas que, se não levam ao sucesso, faz a gente imaginar que sim. Isso é Hollywood.

Da costura e do corte (ou Crônica de minuto #2, revista e ampliada)

Arte: In Pastel

Juntou que fiz aniversário e, no mesmo dia, comecei um curso de corte e costura. Era parte dos desejos antigos e explicáveis: minha mãe costurava. Cresci em meio às linhas, agulhas, tesouras, fitas métricas.

Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas.

Inventei de perpetuar a tradição e, aos dezesseis, confeccionei para mim um macacão de popeline lilás, sob suas pacientes instruções. Foi a única peça que costuramos juntas – insuficiente para que eu absorvesse seu saber, o bastante para despertar a fome de pano.

Já sem ela, na faculdade, arriscava e abastecia meu guarda-roupa através do maquinário herdado. O corte e a costura tomaram ares de adivinhação, tentativa, erro, sorte. Funcionava. Faltava-me, porém, a técnica materna.

Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não pode mais fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.

Vasculhei os armários em busca de retalhos para a primeira aula. Encontrei uma panaiada tão antiga quanto o desejo de costurar direito. Cortes e retalhos do passado, gentilmente poupados pelas traças.

Foram todos comigo para a aula. Dentre eles, um, velhíssimo, intacto em sua abstrata estampa de cores, ainda tão cheias de vida. Presente de quem, afinal? Para mim ou para minha irmã, que também costumava ganhar os seus? Como surgira no acervo têxtil da família, e como resistira a tanta mudanças de endereço? Eu bem que já tentara, várias vezes, fazer algo dele. Sua personalidade, no entanto, sempre trouxera dúvidas sobre o que poderia vir a ser – blusa? Saia? Écharpe? Talvez nem ele soubesse direito o que queria ser. Cogitei, há algum tempo, usá-lo para outro fim – pensando na hipótese dele, de fato, não ter nascido para vestir ninguém. Era tecido arrogante, eu duvidava que fosse se dar bem com outros panos num mesmo traje. Como um animal de estimação ciumento, que não autoriza seu dono a ter mais ninguém. Deu nisso: ele sempre retornou ao fundo do armário, que é para onde vão as coisas da categoria “depois-se-vê”.

Professora bateu os olhos nele e vi ali certa surpresa. “É seda javanesa, não se faz mais dessas!”. Explicado estava, ele não era um tecido qualquer e sabia disso. E não era ele, era “ela”. Naquela hora, no turbilhão sereno das lembranças, vi as tias falando “javanesa”. Mas jamais havia associado: javanesa é gentílico de Java. Java fica na Indonésia. A gente vive falando coisas sem prestar atenção às origens, aos significados. Por que a camiseta é regata? E a gola, olímpica? A calça, capri? Só sei que a ancestral seda, num processo tardio, em breve sairá de seu casulo reverso.

Corte é rompimento, morte. Costura, união. Corte e costura, de tão antagônicos, são complementares. Um não vive sem o outro, eles se precisam para que o feitio se dê.

Por isso vou estudá-los. Para, além de ser autora da minha própria moda, aprender a viver com os dois. E também para mostrar que não perdi o fio da trama, tampouco abri mão dos sonhos já alinhavados. Será meu presente de Dia das Mães a longo prazo. Entregue à Dona Angelina com beijo e abraço apertado, embrulhado em papel-saudade.

A moda em quatro atos

Arte: Gustavo Peres

I

Chamo a vendedora e aponto na vitrine:

– Aquela ali, roxa.

Ela entorta a cabeça, espreme os olhos, mira o objeto do pedido:

– Ah, a berinjela.

– Não, a roxa – repito.

Tal a mulher-elástica, ela alcança com a mão a peça por trás do vidro:

– Esta aqui?

– Isso! A roxa.

– Ah – diz, voltando ao seu tamanho normal – A gente chama de berinjela.

II

– Bonita, sua écharpe. Nude vai com tudo, não?

– É. Bege é muito fácil de combinar.

– Nude, querida. Nu-de.

– Bege.

– Nude.

– Bege.

III

Leio na revista: “A noiva usava uma headband sessentinha”. Penso, logo, falo: “Isso é uma tiara”. A manicure passa o palitinho na acetona e, enquanto capricha na limpeza dos restos de esmalte, ensina: “Ninguém mais fala assim. É headband”.

IV

– Experimente este – sugere a vendedora (outra), trazendo um escarpim. É um off-white tranquilo, não aquele brancão.

Cogito pedir a ela que repita, preciso checar se entendi direito. Então o branco não só fôra rebatizado, como ganhara sentimentos. Oh oh.

Berinjela não é exatamente roxa e nude não é propriamente bege. Há, de fato, uma sutil diferença (identificada com a ajuda do cromossomo X). A casca do legume, por exemplo, é mais que roxo; esbarra no marrom-café, flerta com o vinho. Nude (nu em inglês), dizem, puxa para a cor de pele. Pele de quem, minha ou sua? É “núdi” ou “núde”que se fala? Fato: é um bege clarinho com uma pitada de rosa. O off-white nasceu branco, mas ganhou pinceladas de algum tom que ninguém sabe dizer qual é. A tiara? Bem… melhor deixá-la em paz. Tirando o vegetal – repare –, todos os termos são importados.

Ouvi, certa vez, uma vendedora (eu adoro vendedoras) classificar um casaqueto na cor “maçã verde”. Não podia ser só verde, tinha que ser associada a alguma coisa de comer, igual verde limão. Aliás, com ou sem hífen?

O século XXI trouxe – pleonasmo proposital – novidades verdadeiramente novas. O mercado de trabalho que o diga: há quinze anos não tinha isso de ser designer de games ou analista de redes sociais. Simplesmente porque essas ocupações não existiam. O processo vivido pelas cores não é bem assim. É neologismo fashion. Modas da moda. Sujeitas, portanto, às mudanças dos ventos.

A rainha, assim como o rei, está nude.

Olho por olho

Arte: Ruggero Turra

Acomodo o laptop sobre a pia do banheiro. Acesso o tutorial que promete, passo-a-passo, um belíssimo par de olhos esfumados. É hoje!

Antes, achei graça no termo, recorri ao dicionário:

esfumar. [Do it. sfumare.] V. t. d. 1. Desenhar a carvão. 2. Esbater com esfuminho. 3. Sombrear com esfuminho. 4. Desfazer em fumo. 5. Enegrecer com fumo; esfumaçar. P. 6. Desfazer-se em fumo. 7. Desaparecer a pouco e pouco.

Igual receita, com ingredientes e modo de fazer, separo o que vou precisar. Corretivo, lápis preto, sombra, pincelzinho esfumador, curvex, máscara para cílios. No entanto, se com as panelas revelo alguma intimidade, o mesmo não acontece com meu próprio rosto. Invariavelmente, rendo-me ao básico, por preguiça, falta de talento e tempo (não necessariamente nessa ordem), com o costumeiro argumento “Vou só ali, mesmo”.

De imediato, detecto a necessidade de apontar o lápis, o recado que marido deixou de manhã no espelho do banheiro o arruinou (nunca reclamar disso, eis uma das regras de ouro do casamento). É aí que começam os problemas: impossível, apenas com conhecimentos humanos, limpar o apontador depois.

A parte da sombra corre razoavelmente bem. Animada, faço, com o lápis, um traço rente à pálpebra, como faz a dona do vídeo. Aprendo que há a pálpebra móvel, de cima, e a fixa, de baixo. E eu, achando que só telefonia tinha disso. Confirmo uma antiga suspeita: toda mulher entreabre a boca quando passa lápis nos olhos.

Maquiagem está para mágica, assim como os efeitos especiais estão para Hollywood. Não fossem as moças que fazem esses tutoriais gente de carne e osso, eu juraria que elas se utilizam de um ou de outro.

Esfumador entra em ação. Receio ter sido literal à definição do termo, marido perguntará onde foi que arrumei carvão. Tiro tudo.

Maquiar é como manobrar caminhão: ver os outros fazerem parece tão fácil.

Quem sempre anda de cara lavada, quando se maquia, corre o risco de sair de casa com a sensação de usar um rosto que não é seu. E esse, que parece não lhe pertencer, pode ter olhos de ver coisas que você não enxergaria. Perigo?

Refaço o procedimento. Bom de vídeo é poder pausar, rever e continuar, na hora que se quer – diferente da vida real. As pálpebras (fixa e móvel, conforme aprendido) se ressentem com a esfregação e não colaboram. Não sou vidente, mas sou acometida de uma premonição: o pior está por vir, quando chegar em casa com sono e tiver de limpar tudo antes de dormir. Parodiando o bandido arrependido, direi: o rímel não compensa.

Comparo o resultado final: nem sombra (ops) do que está na tela. E meu espelho não vem com Photoshop – ainda bem. É assim que vou hoje.

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Arte: Jim Devlin

Se você anda irritadiça, raivosa ou está pelas tampas, não convém assistir TV, muito menos ligar o rádio. Poderá topar, a qualquer instante, com um anúncio de feirão de carros. E, esteja você interessada ou não em adquirir ou trocar seu bólido, fique certa: o apoteótico clima do comercial a levará a um quadro de confusão mental, e você terá ímpetos de jogar a mãe do trem, matar a família e ir ao cinema depois.

A locução, sempre apressada, e a trilha sonora, infalivelmente nervosa, somam-se, no caso da TV, ao abuso do zoom in e zoom out e toda sorte de efeito gráfico. De estética acintosa, os típicos anúncios de feirões deveriam ser vetados pelo Conar e entrar na categoria dos alucinógenos, sendo, inclusive, proibidos pelo Ministério da Saúde.

Em algum lugar do passado, o lado sombrio da publicidade convencionou que, para fazer sucesso e aumentar as vendas no varejo, anúncio de carro deveria ser ruidoso e frenético (ao mesmo tempo), para despertar no potencial, porém desavisado, consumidor o súbito e irreversível desejo de comprá-lo. Ora, pessoas compram carros porque precisam deles, e não porque nãopodeperderessaoportunidadevaisernessedomingocorra!

Mas o cidadão de bem, zonzo, acaba indo ao evento. Sai de lá com um veículo financiado em 72 meses, com taxa de juros de 20% ao ano, crente que fez um ótimo negócio. Ao seu redor, carros suspensos por guindastes, música estridente, pipoca, malabaristas. O feirão virou circo; adivinha quem é o palhaço.

E tudo começou com uma inocente mensagem, tão curtinha – trinta segundos, só.

Coisarada (baseada em uma estante real)

Arte: Andrea Joseph

Na estante de D. tem de tudo. E um tanto mais.

Tem porta-retrato sem retrato, ainda na embalagem. Vela, durex, elástico de cabelo e colírio. Três pequeninos bonecos de louça, sendo duas meninas e um menino. Uma bola de baseball e um frasco de cola Tenaz.

Tem aditivo para limpeza de para-brisa. Correspondência aberta e fechada. Etiqueta de cinto (sem o cinto), escrito “cor cinza ‘silver’”. Uns livros.

As coisas ali vão chegando e ficando. Sem censura, nem triagem, tudo é bem-vindo. Não há gavetas. É nas prateleiras que a vida vem, acumula e não vai.

Bala de goma, batom, garrafinha com mensagem e broche de uma das meninas superpoderosas, que eu não sei qual é. Nunca sei.

Chaveiro de ursinho, cupom de sorteio do supermercado, preenchido e jamais posto na urna. Recibo de doação para entidade assistencial. Caixa do telefone celular com os acessórios (o telefone D. perdeu). Mais livros.

A estante fica no quarto e parece tragar tudo que dá sopa em seu entorno. Nada é rejeitado. Em ordem caótica e serena, fragmentos de mundo vão se arquivando. D. nunca está só.

Uma sombrinha, um transformador, uma – só uma – luva de couro. Calendário do ano, sacolinha plástica vazia, bem dobradinha. Frasqueira de zíper quebrado, dentro se vê outra sombrinha. É cinza, mas não ‘silver’.

Uma lembrancinha de chá-de-bebê, uma lanterna, um marcador de páginas, de borboleta, a não marcar página alguma. Um carretel de náilon e uma coleção de documentários em VHS.

Calculo quanto tempo D. levou para deixar seu acervo público de coisas como está, e quanto ele durará. Sabe-se que as faxinas físicas precedem as mentais. Temo pelos bonecos de louça; que o destino não os separe. Nem tudo inanimado é, necessariamente, ausente de ânima.

Pirulito de São Cosme e Damião, frasco de álcool, rolinho tira-pelo, vaso em formato de abóbora. Papelzinho de recado e Bic preta, com os quais rascunhei este inventário. Incompleto, por sinal; meu olhar não alcança a parte de cima.

Na estante de D. tem tanta coisa, mas tanta, que deve até ter felicidade.

Das combinações

Arte: India Amos

Só a mesinha do canto disponível na padaria, para lá que vou. Ao lado, três moças. Repousadas na cadeira próxima a elas, três bolsas.

Como nos passatempos dos tempos de criança – aqueles de levar o coelhinho à cenoura, o macaquinho à banana e outras trivialidades da natureza – , brinco de ligar as moças às respectivas bolsas. Sem, contudo, pista prévia. Nenhum conhecimento, como os treinados na infância.

Analiso.

Moça 1: alta, loira, cabelos longos. Meio gorda.

Moça 2: morena. Nem tão alta, tampouco baixa. Cabelos curtos e enrolados. Bem magrinha.

Moça 3: nem gorda, nem magra; típica M. Baixa. Cabelos lisos e curtos. Ruiva.

Bolsa 1: enorme, clássica, preta.

Bolsa 2: moderna e amarela e pequena.

Bolsa 3: a média das outras, artesanato bonito que só.

Eu que não caio na tentação do óbvio, reunindo as aparentes evidências. Prefiro exercício demorado, inspirador de sinapses sofisticadas. Cruzo os dados preliminares, faço média ponderada, tiro a prova dos nove. Invento sinastrias, observo os gestuais, sondo os pedidos. Nem assim arrisco a combinação correta; a intuição se dissolveu na cafeína e a razão foi ver se estou na esquina.

A moça 3 bebe chá, as outras, café. Mas o da 2 tem espuma de leite. A 1 fala alto, a 2 só ri. Todas estão com calor, apenas a 1 cantarola a música que toca no rádio.

As aparências não enganam, quem se engana são os observadores. Está tudo escancarado, resta decodificar.

Torço, mas nenhuma delas precisa apanhar caneta na bolsa, ir ao banheiro. Não há sinal de SMS chegando.

É quando a bolsa 1 ameaça escorregar pelo vão da cadeira, tão grande é. O momento, tenso, pede concentração no olhar. Congelo meu gole. A dona a apanhará, por certo. É agora! Mas a bolsa é interceptada pelo solícito garçom, bem na hora H. Moças 1, 2 e 3 agradecem, uníssonas. Volto à estaca zero.

A bolsa 1 é da mesma cor do cinto da moça 3. A moça 2 tem o antebraço tatuado de flores, não seriam do mesmo tipo das bordadas na bolsa 3? A moça 1 sofre com a escoliose, uma bolsa do tipo 2 é altamente recomendável.

De que servem as coincidências quando a dúvida estraga tudo?

Exagero na duração do lanche, no afã de conhecer proprietária e propriedade. Meu prazo, porém, termina; a carruagem de abóboras me aguarda do lado de fora. Sondo a hipótese desesperada de abrir meu coração às três, “Poderiam me esclarecer uma coisa?”.

Nem dá tempo: outra mesa parece precisar de uma cadeira extra. E não há nenhuma vaga em toda a padaria, exceto a sob minha mira, objeto da angústia. A mãe com o bebê no colo, tímida, pergunta, “Posso?”. Moça 2 (a que ri de tudo) diz “Claro!”, apanha de uma vez as bolsas 1, 2 e 3 e as realoja sobre o móvel onde o garçom, aquele sem graça, guarda os talheres.

A vida não é bela.

Fwd:

Arte: Amédée Forestier

Amigo ou parente assim, todo mundo tem. Você recebe a notificação, chegou e-mail do Fulano. Pensa: desta vez ele, ou ela, vai contar novidade. Casou, mudou de emprego, vai ter bebê, descasou, fez matrícula na pós, está pensando em largar a engenharia e sair por aí fotografando passarinho. Ou, quem sabe, dirá apenas que está com saudades. Ingenuidade sua. Ao bater o olho no Fwd: do assunto, já sabe: mais um forward. O décimo da pessoa – esta semana.

Você pausa o olhar na tela, avaliando se convém bloquear o amigo de uma vez por todas. Afinal, nem sempre foi assim, mas de uns tempos para cá ele nunca escreve para saber como vão as coisas, se você passou no concurso, como foi a sua cirurgia, se você ainda tem o telefone daquele homeopata. Não, ele não quer saber de nada. Seu prazer é encaminhar, ao infinito e além, tudo que recebeu por e-mail. É fissurado no repasse, viciado em retransmissão. Sem se dar conta que, assim, a amizade entre vocês ruma a uma espécie de backward. O amigo virou spam.

Então, você lembra: passou seu aniversário e ele não se manifestou (embora conhecedor da data, a mãe e você são do mesmo dia). No rátimbum dele, porém, você sempre dá um jeito e manda o alô por e-mail, que a vida é mesmo corrida. (Mas não precisa ser maratona.) Ele ignora e, dia seguinte, nova missiva coletiva na sua caixa postal. Alertando sobre novo golpe na praça. Golpeada, na verdade, fica a relação de vocês. Polícia!

Responder para um mandador de forward é monologar, falar com paredes sem windows. Ele não responderá, ocupado demais em seu espetáculo-solo. Fwd: é bom; Fwd:Fwd: é sensacional; Fwd:Fwd:Fwd: é a catarse. Para ele, compartilhar é preciso; viver não é preciso. Sem assunto, ele conta com os assuntos dos outros. Tem um milhão de amigos e nenhum. Quer ser lido, mas não acessado.

A solução para o caso não é empurrar a situação com a barriga – nem backward, nem forward. É na base do stop mesmo.

A que será que se destina (uma crônica autorizada)

Ade McO-Campbell

“Você chegou ao seu destino”. Apertou os olhos, conferiu o número da casa. Desligou o motor, desconectou o GPS. Apanhou no banco a carteira – só carteira, bolsa não havia, nunca há – e desceu.

Fez reconhecimento visual da rua. Nunca fora para aqueles lados, apesar de ter vivido a infância ali perto. Mas a dica era quente, “a mulher lê um tarô que é coisa de Deus”, diziam as moças do escritório. “Ou do Diabo”, pensou, enquanto trancava o carro. Pagaria para ver. Precisamente, duzentos e cinquenta reais em dinheiro vivo. Não aceitava cheques.

Em instantes, estaria diante também de outro destino: o seu. Tocou a campainha, o cão latiu nos fundos. A mulher surgiu no vitrô, já a esperava. Convidou-a para entrar. “Quem lê cartas é uma espécie de GPS”, pensou, observando os móveis muito antigos dispostos ao longo do corredor. O satélite, no caso, é o baralho. Feito de papel-cartão, colorido, misterioso, letras, números, símbolos. Com ele, a mulher seria capaz de indicar-lhe o melhor caminho (mais curto ou mais rápido) para chegar ao seu destino.

E desde quando se chega a um destino, se ele se move o tempo todo?

Destino vira, fácil, fácil, desatino. E, hoje, destino não se contenta mais com baralho, borra de café, horóscopo, palma de mão. Rendeu-se à tecnologia do GPS. O destino é moderno.

Sentaram-se frente a frente, diante da pequena mesa coberta com pano alaranjado de bordados dourados. A mulher sorriu, embaralhando as cartas: “Me fale um pouco de você”.

Agora ela teria que fornecer algumas coordenadas, sua posição no universo. Quem era, a que vinha. A única informação saiu em meio a um sorriso, no tom do pano: “As coisas não vão muito bem…”

Isso a mulher sabia. Ninguém a procurava quando tudo ia bem. Assim como ninguém usa GPS se conhece o trajeto. (Às vezes, usa; só para confirmar se o caminho que conhece é mesmo o melhor. Com a mulher das cartas também acontece, vez por outra, de apenas precisar comprovar o que o consulente já sabe.)

Ela tentava organizar as perguntas que faziam bagunça na sua cabeça, mas não conseguia. “É que ando meio perdida…”. Não fosse a ajuda do GPS, ela também teria se perdido ao tentar chegar ali. Ainda que já houvesse morado no bairro. Que destino tivera sua memória? Sabia, no entanto, que esquecera de atualizar seu mapa de vida.

Conversaram por mais de hora. O caminho estava dado. Se ela insistisse em ignorá-lo, sua rota seria recalculada, o tempo todo. E nunca chegaria a lugar algum.

Pagou com cinco notas de cinquenta e agradeceu. A mulher a acompanhou até o portão, despediram-se. O cão, em silêncio; anunciara a chegada, mas não a partida. Seria uma mais importante que a outra?

Entrou no carro, conectou o GPS e o desconectou em seguida. “Não precisa”, ponderou. Voltar é sempre mais fácil.

Para N.

A vidente

Ilustração: Shelly

Quisera ser etérea, capaz de passear para trás no tempo e observar gênios da humanidade, prêmios Nobel, líderes de nações, inspiradores de gerações inteiras, antes de serem o que foram ou são. Lá, quando brotaram no planeta. Quando usavam fraldas, aprenderam o abecê e nem sonhavam o que viriam a ser. Eu seria uma vidente. Só que especializada em passado.

Poderia, também, não ser etérea coisa nenhuma, e sim, testemunha anônima de carne e osso, vivedora das épocas em questão. Uma cozinheira aflita, uma médica mal-humorada, uma professora gentil – figurantes que permeassem, por acaso e sem intervenção, a vida de tais gentes. Com a qualidade de, vivendo no passado, ser sabedora do futuro. Que, no caso, é hoje.

Só para espreitar, por exemplo, Millôr Fernandes pirralho. Ainda Milton, nos seus dez anos de idade, órfão, morando com o tio e vendo, como o próprio contou, “o bife só no prato dos primos”. E ponderar se a falta do bife o ajudou – ou não – a fazer melhor o que ele trataria de fazer dali uns anos.

Flagrar Madonna tomando banho de chuveirinho, onde o mais longe que seu pensamento alcançava era do quê iria brincar logo em seguida.

Espiar, feito vizinha enxerida qualquer, Caetano Veloso em seus primeiros passos, desengonçado como todo bebê, sob o olhar atento de Dona Canô.

Fazer coro, disfarçada de parente, no “parabéns a você” de Luís Inácio Lula da Silva em seu aniversário de quatro anos. (E ficar com pena; não teve bolo.)

Ver Fernanda Montenegro fazendo lição de casa e penando na matemática. Fernando Pessoa em frente ao espelho e a primeira barba na vida. Martin Luther King brincando com um caminhãozinho de madeira no quintal. Steve Jobs na cantina da escola, contando os cents que faltavam para o cheeseburguer. Da Vinci ardendo em febre, no colo do pai. Sidarta Gautama reclamando das minivestes reais, pinicavam muito. John Lennon banguelo e cheio de vergonha. Pelé balbuciando “bo-la”.

O propósito do desejo é ingênuo: provar que todos nascem iguais. E assim permanecem, até o dia em que seguem pelo caminho que lhes foi soprado e deixam de ser iguais. Preciso, porém, ser ciente de que, estando no passado, não posso, nem devo, interferir no que quer que veja ou ouça. Nem contar nada a ninguém. Para não atrapalhar o mundo.

É desejo sem serventia, então. Só vaidade. Orgulho de ser detentora de visões privilegiadas e, no entanto, incompartilháveis. Mais proveitoso seria desejar o fim da fome no mundo, a salvação das tartarugas-marinhas, os números sorteados na Mega Sena. Mas não. Invento de querer ser vigilante do que foi. Fotógrafa do anterior. Fiscal de pretérito.

Tolice pura. Videntes, de passado ou futuro, nunca são muito levados a sério.

Cidadania de supermercado

Separo o lixo reciclável, faço compostagem do orgânico, poupo água. Ajudo ONG, tenho compaixão pelos seres vivos (menos barata), freio para animais na rua. Não uso (mais) as vagas para idosos, não paro em fila dupla na porta da escola, não fecho cruzamento. Sou uma boa pessoa.

Só não me peça para levar carrinho de supermercado de volta no lugar. Isso eu não faço. Sou acometida de súbitas e incontroláveis preguiça, indisposição e pressa – tudo junto ou separado. Abandono-o num canto, na esperança de que não vá atrapalhar ninguém. Rezo para o moço que os recolhe passar logo, conduzindo sua ruidosa centopeia de rodinhas. Arruíno, eu sei, o bom andamento do estacionamento. Fosse infração de trânsito, eu não poderia mais dirigir por cinco encarnações. Sou rápida no delito, finjo-me invisível. Entro no carro e, como se tivesse acabado de assaltar um banco, bato em retirada. O sentimento de culpa me persegue. Ao entregar o cartãozinho ao moço, na saída, seu olhar parece me acusar, “Eu sei o que você fez”. Como num filme policial, cogito parar, descer com as mãos levantadas e, ré confessa, suplicar por misericórdia, “OK, eu ponho no lugar!”

Ser cidadã dá trabalho. Cansa. Demora. É preciso paciência, tempo, alegria, resiliência, bom humor, coragem – quase tudo de que é feita a vida. Há dias, no entanto, que todas essas coisas faltam. Fazer o quê? O problema é quando isso coincide com dia de supermercado.

Não descarto a possibilidade de minha conduta antissocial ser uma retaliação inconsciente contra o atual sistema dos supermercados, cuja dinâmica de compra seria impossível de ser explicada, com alguma coerência, a civilizações superiores de outros planetas que por ventura nos visitassem. O número de vezes que se carrega e descarrega um carrinho (com ou sem sacolinhas plásticas), desde a entrada no estabelecimento até que tudo esteja guardado na despensa, é surreal. Pode ser que os avanços da psiquiatria proporcionem terapia adequada para meu caso. Ou então, o caminho será contar com regressão de vidas passadas, benzedeiras, florais de Bach.

Talvez eu seja como os gatos: se a ordem coincide com o desejo, feito. É por isso que se chama um e às vezes ele vem, às vezes não. No segundo caso, o felino ignora o candidato a chefe, inspeciona o vento, lambe a pata. E, cônscio de si, não obedece. Fazendo uma livre associação: se o lugar dos carrinhos for ao lado de onde estacionei, eu levo de volta. Caso contrário, também desobedeço. Só não lambo minha pata, que fique claro.

Vai ou racha

Ilustração: Adreson Vita Sá

Nada deve ser mais ocultado num casamento que calcanhar rachado.

É preferível revelar o que aconteceu naquela viagem a Porto Seguro quando vocês ainda namoravam, fornecer detalhes da república onde você morou no tempo de faculdade, falar das suas vadiagens adolescentes e até confessar que já beijou uma mulher, a expor na relação um par de calcanhares prejudicados. Será o fim. Restará, apenas, decidir quem fica com a Nespresso.

Antes seu marido descobrir que não foi você a autora do salmão ao molho de gengibre que o conquistou no primeiro jantar na sua casa, que você espia o Facebook do sócio dele todo dia e que aquele vestido não custou cento e cinquenta reais, do que vocês terem uma noite de amor interrompida por um carinho, digamos, mais cortante sob os lençóis. Pior: ter que explicar por que namora sempre de meia soquete.

E a culpa é toda sua. Passa o verão metida em rasteirinhas, anda descalça pelo quintal curtindo sua fase natureba de “conexão com a terra”, capricha no hidratante da região superior e negligencia a inferior. Pensa que só as formigas e seres rastejantes notam seus pés e que semiárido é somente uma região do nordeste. Não, querida. Passível de justa causa, sola de pé desertificada tem peso dois em relação à celulite. Depois não reclame. Nem chore de saudade dos tamancos e dos sapatos Chanel.

Se o problema lhe assolar, mantenha o segredo a sete chaves (e jogue todas fora). Veja o que aconteceu a Aquiles. Em períodos de seca, para poupar o relacionamento e a palmilha dos seus calçados, lance mão de tudo que disserem para você fazer. De simpatias a receitinhas caseiras – sempre escondida, na calada da noite. Invista uma grana preta naquela dermatologista que não atende nenhum convênio. Faça promessa para Santa Rita, a das causas impossíveis. Se nem ela topar, peça emprestado ao marceneiro de sua confiança a lixadeira e a politriz. Recorra ao SUS.

Ou vai, ou racha.

Das causas desconhecidas

Ilustração: Lamerie

E Leo foi encontrado em sua casa, mortinho da silva, numa manhã de segunda-feira. Era dezembro, pouco antes do Natal. Causa desconhecida, disseram.

De véspera, Leo parecia normal. Recebeu visitas, posou para fotos, tudo nos conformes. Tinha dezessete anos. Vivia com a esposa e a filha no zoológico de Brasília. Leo era uma girafa. Ou “um girafo”, como diria minha filha.

Causas desconhecidas incomodam. Prefere-se as causas reveladas, as que se mostram, entendíveis. O escuro das razões não faz bem à cegueira humana. Já para os bichos, tanto faz.

Foi na escola primária que aprendi sobre os substantivos epicenos, aqueles que só têm uma forma – a girafa, o tatu -, sendo necessário explicar em seguida: macho ou fêmea. Eu gostava das aulas de português, com suas causas sempre conhecidas.

Yaza, a viúva, há de ter sentido a falta do marido nos primeiros dias, no pasto onde costumavam passar o dia e namorar. Girafas viúvas, porém, não fazem escândalo. Não se vestem de preto, não choramingam pelos cantos, não deixam de se alimentar por conta do luto. Não são girafas de Atenas. Nem sabem onde fica isso, tampouco ouviram falar do Chico – desconhecem o assunto por completo e, por isso mesmo, não sofrem.

Com a morte do patriarca, trouxeram de volta Zagalo, o primogênito (filho do Leo com outra girafa, a Bia), que morava no zoo do Rio. Para Evelise, a filhota, foi bom: conheceu seu meio-irmão. E Yaza deve ter ficado feliz com sua presença, um trecho do seu amor. (Ah, humanizar a vida animal é tão alentador.)

Disseram também que Yaza estaria prenha do Leo, os funcionários vinham achando a pescoçuda meio diferente. Fêmeas grávidas, de qualquer espécie, ficam “diferentes”. A natureza dos bichos e das pessoas é cheia de histórias assim: um pai que morre antes do filho nascer, uma mãe que falece no parto. É a vida, tratando de continuar. Com suas causas – sabidas, desejadas, ou não.


Baseado em uma história real (“Zoológico de Brasília ainda não sabe o que causou morte de girafa”)

Das lembrações essenciais

Ilustração: João Grando

Fecho os olhos por cinco segundos: tenho um metro e dez de altura. Visto uma camiseta tamanho 6, estou doida por um picolé e não sei quanto custa a boneca falante que acabo de pedir para minha mãe. Isso mesmo: eu sou criança.

Continuo. Ainda tenho um e dez, mas agora posso existir como se tivesse um e sessenta. Sinto como a primeira, penso como a segunda. E lembro, lembro, lembro.

Este é o exercício das lembrações essenciais, capaz de transportar adultos à infância distante, porém, com os cinco sentidos e a sabedoria (qualquer que tenha acumulado) de hoje. Para que serve? Aprender a se colocar no lugar do outro. Precisamente, no lugar de um filho ou filha que tenha um metro e dez e use camiseta tamanho 6. Um pouco mais, um tanto menos, não faz diferença. O importante é a parte de lembrar.

Suas memórias hão de se agitar e explodir igual pipoca no microondas. Ficarão cristalinas como a água da piscina onde você nadava com seu pai (e os dois pareciam muito maiores do que realmente eram, lembra?). Serão tão vivas quanto as cores da melhor fotografia que você já tirou até hoje.

E então se dará conta que, na idade que seu filho tem agora, você também tinha vergonhas bobas – de perguntar para o moço da videolocadora se tinha A Bela Adormecida – e medos paralisantes, como quando acabava a energia em casa e você não tinha certeza se sua mãe estava por perto, até que ela clareasse o breu da sua angústia, tocando sua mão e dizendo “Estou aqui, vamos buscar uma vela na cozinha?”. Se lembrará da fúria no olhar da sua avó ao ver os antúrios dela, colhidos e enfiados no vaso (ideia sua para enfeitar a mesa), quando encarar seu pequeno confessando ter sido o autor dos desenhos à canetinha nas almofadas, porque ele achou que assim elas ficariam mais bonitas.

Vamos lá, você ainda está com um metro e dez de altura. Vai se lembrar, de repente, que também tinha dificuldade para cortar a pizza sozinha, e não entendia o olhar intolerante dos mais velhos.

Lembrará do seu pânico, solitário e silencioso, no primeiro dia de aula do primeiro ano, quando você não sabia se professores eram pessoas legais ou não, e se você ia poder comprar lanche na cantina, como faziam os alunos mais velhos (os ‘homens’ e ‘mulheres’ de nove anos).

Lembrará como os braços dos seus pais eram longos e alcançavam qualquer coisa no armário, e você se perguntava quando os seus também seriam assim.

Se conseguir realizar esse exercício, talvez você saiba que tudo o que pode fazer hoje – dormir e tomar banho na hora que quiser, por exemplo – representa o máximo da liberdade para seu filho.

Talvez saiba que o medo dele perder você é do mesmo tamanho que o seu de perdê-lo, embora ele ainda não saiba disso, e apesar de cada um ter o seu motivo para.

Talvez descubra por que ele não entende como brócolis pode ser mais importante que biscoito recheado, e que o significado de “fazer sala” não é tão óbvio assim.

Confesso: eu havia me esquecido completamente do exercício. Ontem o retomei. Passei o dia inteiro com um metro e dez de altura. E ainda não voltei ao meu tamanho normal.

Curriculum mater vitae

Ilustração: Doug Miller

Perdi a conta de quantas vezes atualizei meu curriculum vitae nas últimas duas décadas, na intenção de mostrar aos selecionadores de RH quem sou, o que fiz, o que faço e o que sou capaz de fazer. Peça fundamental no jogo nem sempre animado do mercado de trabalho, ele pode definir o rumo de uma vida – para o bem ou para o mal.

As mulheres não sabem, mas a partir do momento que dão à luz, passam a montar sua versão particular de CV, chamado curriculum mater vitae, o currículo de toda mãe. Servirá para atestar quem elas são, o que fizeram, o que fazem e o que são capazes de fazer, só que sob outro ponto de vista: o da maternidade.

Ao contrário do currículo tradicional, este não se destina à prospecção de novas oportunidades – posto que mãe é cargo vitalício -, mas ao registro íntimo de uma condição eterna. O meu seria mais ou menos assim:

Formação

Ensinos fundamental, médio e superior completos. Sendo que nada aprendido neles serviu para alguma coisa depois de ter se tornado mãe.

Idiomas

Mamanhês avançado: fala e entende.

Resmunguês e choraminguês avançadíssimos: entende, mas finge que não.

Experiência

Forte atuação em educação infantil doméstica, conciliando métodos modernos e tradicionais, como tapa no bumbum e meia hora de castigo no quarto, visando a autorreflexão do filho.

Sólida, muito sólida, incrivelmente sólida experiência em gerenciamento do tempo, como preparo de lancheiras e transporte escolar em prazo recorde.

Ampla vivência, bem além da desejada, em resolução de conflitos e tomada rápida de decisões, com ênfase em casos onde não se sabe qual filho bateu primeiro no outro.

Foco em sustentabilidade, promovendo doação de roupas e brinquedos usados, e política antidesperdício, almoçando e jantando restos da cria.

Benchmarking com outras mães, pais, professores e benzedeiras em geral.

Participação ativa em festinhas infantis e apresentações de balé e karatê.

Excelentes conhecimentos do universo das histórias em quadrinhos, desenhos animados e séries infantis de TV.

Faro apurado para detectar inflamações de garganta, mentiras e orelhas mal-lavadas.

Ótimas noções de nutrição infantil, adquiridas na marra.

Responsável pelo incremento da população mundial em 0,00000003%.

Nível de reporte: Maria, a mãe de todos, chairwoman do céu.

Cursos extracurriculares

“Motivando crianças a tomar banho sozinhas”

“Como liderar uma equipe-mirim da pá-virada”

“Extração de dentes-de-leite, método prático e indolor”

“Primeiros-socorros: o poder do beijinho”

“A arte da paciência: vivência com monges budistas”

“Técnicas de negociação – módulos I, II e III”

“Autocontrole – módulos I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX e X”

Prêmios

“Melhor mãe do mundo”, por permitir que filhos e seus amigos assumam a cozinha para confecção de cookies de chocolate.

“Pior mãe do mundo”, por exigir o recolhimento diário de todos os brinquedos espalhados na sala.

Principal realização

Implantação de gente bacana no mundo, resultado de trabalho em equipe com o pai.

Comentários adicionais

Não está em busca de novos desafios. Considera o seu de bom tamanho.

Pretensão: ser uma mãe possível.

Escreveu, não leu…

Ilustração: Gustav Söderström/Flickr.com

Desde o momento que ganhei um smartphone, desses que fazem interface com Deus e o Diabo (às vezes, mais um que outro), tenho convivido com um professor de português pró-ativo mas, não raro, equivocado. É o corretor ortográfico, mestre em linguística embutido na engenhoca e que tem me dado um trabalhão. Tenho a opção de ativá-lo ou não. Porém, de razoável utilidade em casos de pressa aguda, ainda não me senti forte e determinada o bastante para dispensá-lo.

As aulas iniciam assim: entabulo a prosa com a comadre pelo SMS, sem notar que algumas palavras digitadas vão sendo substituídas por outras, que ele julga, de acordo com sua experiência e sabedoria, mais convenientes. Oh oh. Nem sempre ele está certo. Às vezes, é tarde demais. Há que se enviar nova mensagem: “Estou lesada”, explico, e não “Estou ‘mesada’”. Esclareço que preciso traçar um açaí duplo, e não um ‘Havaí’.

Ainda pelo smartphone visito, na rede social, a página da amiga na intenção de saber como foi a cirurgia do seu ciso. Ela responde que, felizmente, não precisou operar seu ‘riso’. (Só rindo.)

Comento a postagem bem-humorada de um fulano e risada vira ‘rodada’.

Compartilho que o cantor foi mal no show e ninguém entende, porque vaia virou ‘caia’. Um tombo, então? Eu, no passado, já vangloriei minha capacidade de datilografar rápido e certo.

Acesso o email para informar, em tempo real, que o amigo passou mal e foi levado de maca para o hospital. Concluo a mensagem e clico em “enviar”. A notícia espanta os destinatários, que devolvem: levado de ‘maçã’?

É a era das retificações ortográficas virtuais.

Donos da verdade, os corretores desses aparelhos pensam saber o que é melhor para nossas conversas e manifestações no ciberespaço. Sugerem vasto dicionário de possibilidades, mas sempre batem o pé que a primeira grafia é a melhor. E, num instante de descuido, zás!, assumem decifrar nosso pensamento. Nessa toada, não está longe o dia em que os smartphones terão ideias por nós. Pior: num belo dia eles resolverão ligar, por conta própria, para todos os contatos da nossa agenda. Sabe-se lá o que dirão a eles.

Smartphones levam a sério seu nome, estão ficando demasiado inteligentes. Alto lá: quem manda na minha vida sou eu e o lema é extensivo à minha escrita. O corretor ortográfico pode estar cheio de boas intenções. Porém, vide a antológica frase a respeito delas e o inferno. Seu slogan deveria ser o velho “Escreveu, não leu…” – e eu nem quero ver como é que ele completaria a frase.

Dois pastel

Peço pastel de queijo – “Bem branquinho, por favor” – e suco de laranja. Com gelo, sem açúcar. A antiga barraca do parque não é das mais asseadas, então evito os passeios do meu olhar detetive. Pago adiantado. Na carteira, sobra o troco miúdo; esqueci de sacar e não há notícia de caixa-eletrônico por perto. Depois do advento do cartão de crédito, é sempre assim.

O vinagrete fresquinho lembrou a reportagem da TV, ensinando não encostar a colher no pastel, porque ela é compartilhada com centenas de pastéis e, consequentemente, centenas de mãos e bocas. Orientação impossível de acatar, o bacana é botar o vinagrete lá dentro. Mando a lição às favas, “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraída”. Amém.

Encerro o pastel, mais um? Penso nos trocados, não estou certa se são suficientes. Gastronômica ironia do destino: faltam cinco centavos para o pedido. Cinco! Agrupo, por valor, as moedas no balcão e conto de novo, bem devagar. A mágica não se faz, continua faltando. Ensaio reivindicar fiado, pedir desconto à vista, sugerir anotar na caderneta. Fico sem jeito, constrangida por não ter disponível dindim para um salgado. Nessa hora, tanto faz se falta pouco ou muito. Além do mais, o dono do lugar, com semblante de poucos amigos, há de ficar bravo. “Se cada cliente resolver fazer isso…” – eu sei, eu sei.

Vasculho todos compartimentos da bolsa. Naquele dia, cinco centavos representavam a diferença entre sonho sonhado e sonho realizado, barriga cheia e barriga, digamos, quase cheia. O valor de um dinheiro está na importância que lhe é atribuída. Por que não pedi guaraná, mais barato, em vez de suco?

Limpo os dedos no guardanapo, faço bolinha, acerto o cesto. O jeito é passar vontade e ir para casa. Ou esperar a vontade passar. Tomo o rumo do estacionamento, na esperança de que tenham instalado ali, nos últimos dez minutos, um banco 24 horas. O guardador de carros acreditaria se eu lhe dissesse “Hoje não tenho”?

Paulistano, reza a lenda, pede “um chops e dois pastel”. Naquele dia eu, que desejei pastéis no plural, teria que me contentar com o singular.

Ao entrar no carro, o lampejo. Estico o braço no nicho do console e lá está ela, reluzente, única. Troco do pedágio ou compaixão de algum anjo. Nunca imaginei ser tão feliz ao ver a efígie de Tiradentes. Não resta dúvida: volto e traço o segundo pastel. Quer saber? Mais gostoso que o primeiro.

Até 70% de desconto

Há três coisas que se aprende, ao longo da existência, que não são de verdade: Papai Noel, coelhinho da Páscoa e liquidações com até 70% de desconto.

As duas primeiras são reveladas ainda na tenra infância, quando flagramos o bom velhinho chamando a mamãe de “querida” na cozinha e descobrimos, num passeio pelo sítio do vovô, que coelhos não põem ovos, nem aqui, nem na China. Muito menos de chocolate.

Já em relação às costumeiras promoções alardeando descontos irresistíveis, os primeiros insights de que não é bem assim vêm quando já somos marmanjas.

É quando você entra numa loja, ávida por pechinchas. Afinal, o shopping inteiro é um gigantesco sinal de porcentagem nessa época. Lá vai você, feliz da vida, crente que levará a bolsa dos sonhos por uma bagatela, o vestido lindão a preço de banana, três pares de sapatos pelo preço de um.

Aí você passa os olhos pelas araras e prateleiras, conferindo com atenção as reluzentes etiquetas promocionais: de tanto, por tanto. Numa rápida conta de cabeça, você constata um mixuruco 15% ou, talvez, 20% de desconto. Resolve perguntar à vendedora onde é que estão as ofertas com 70%. E ela aponta, no fundo da loja, um balaio bonito sobre o balcão, repleto de camisetas de manga curta, malha bem fininha. Brancas. Mais básicas que a cesta que você fornece para sua empregada todo mês. Apareceu o descontão, olê olê olá!

Na mesma loja, você nota que o preço daquela blusa em tie-dye que você chegou a flertar uma semana antes permanece inalterado. “É coleção nova”, esclarece a vendedora. A essa altura, você sente uma incontrolável vontade de tie (amarrar) e dye (tingir) de roxo-fúria a mocinha que, cinicamente, lhe encara.

Frustrada, você cogita a pantalona modernosa que está saindo por 199 contos, 220 antes da promoção. Uau. Você só não sabe se aplicará os 21 reais economizados (10%) na poupança ou renda fixa. Imperdível.

Há uma curiosa lógica comercial em torno das liquidações, determinando que só tranqueiras recebam os descontos maiores. No caso de roupas e calçados, são aquelas peças que ninguém quer, das cores que ninguém gosta, nos tamanhos que ninguém usa. Não deveria ser liquidação, e sim imploração. A chamada: “Pelo amor de Deus, comprem”.

Tão intrigantes quanto a lógica são as remarcações que antecedem as liquidações. Só pode ser obra do além, brincadeira de algum fantasma ganancioso, já que lojista nenhum confessa o crime. Ou então algo mais místico: véspera da liquidação – cafonamente batizada de “sale” -, uma gangue de gnomos peraltas invade, na calada da noite, as lojas e majora os preços, para que os descontos reais sejam bem menores que os panfletados. Nunca viu? A TV que custava R$ 2,8 mil passa, misteriosamente, para R$ 3,7 mil. Os 50% de desconto anunciados no megafone viram, na verdade, pouco mais de 30%. E você achava que gnomos só viviam nas florestas.

Não existe filé com 70% de desconto, meu bem. No máximo, acém. Porque patinho, vamos ser honestas, é quem ainda cai nessa.

Only yesterday

Ilustração: Fractal Ken

É que eu queria dar um presente para meus irmãos mais velhos, com meu próprio dinheiro. Crianças gostam dessas coisas. Fomos à loja de discos e escolhi “Horizon”, vinil dos Carpenters lançado em 1975. Eu tinha o que, oito, nove anos? Como disco presenteia mais de um ao mesmo tempo, eu ficava na sala, encarte nas mãos, cantando “Only yesterday” junto com a Karen Carpenter. Decorava a pronúncia das palavras, sem nem sonhar quais eram seus significados. Foi depois que fiquei amiga do dicionário. Ela falava de um certo ontem para um dia que, agora, é meu ontem também.

Spring era o nome da loja. Num tempo onde lojas de discos vendiam, basicamente, discos. LPs, compactos e K7 (quem lembra?) dispostos nas prateleiras, paredes com pôsteres de cantores e bandas, uma vitrola para quem quisesse ouvir o disco antes de comprar e pronto. Conseguir a letra das músicas em inglês? Só com o encarte ou o professor. VHS, CD, DVD, MP3, Blu-ray… Não havia tantas siglas. Multimídia era palavra ainda não-inventada e a internet não passava de um embrião no secreto útero norte-americano. (Quando conto minhas histórias, às vezes, tenho a sensação de que não estamos falando do mesmo planeta.)

Ficava a uma quadra de casa, na rua da Mooca, zona leste paulistana. Seu dono, batizado Manoel Francisco do Lago Neto, era o Glenn Michael, cantor de relativo sucesso nos anos 70, quando emplacou duas de suas músicas na Rede Globo. Cara meio quietão, cantava em inglês e “Spring” (claro) e “Just imagine” foram temas de abertura do Jornal Hoje (de eterno ontem e sempre) por um bom tempo. Será que, quando pequeno, ele também ficava de encartes nas mãos fazendo coro com seus cantores preferidos? Perdi minha chance no mundo da música.

A canção que abre “Horizon” é “Aurora”, e a que fecha, “Eventide”. As duas são idênticas, exceto pela letra: uma fala de amanhecer; a outra, de entardecer – também numa espécie de ontem e hoje, passado e presente, começo e fim. Achava bonitíssimo uma mesma música ser duas.

A Spring resistiu várias primaveras e finalmente fechou. Não sei do paradeiro do nosso “Horizon”. Nem do Glenn Michael. Só sei da Karen, que morreu de anorexia em meados dos anos 80. Uma das vozes mais lindas do mundo. Das mais melancólicas, também. Tristeza e beleza, além da rima, parecem gostar uma da outra.

Resta-me reencontrá-los nas versões modernas da velha loja do Mané, agora tão atemporais e infinitas no ciberespaço. E foi o que fiz ontem. Somente ontem.

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