Crônica de minuto em 3D
22 mai 2012 4 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:cinema, cinema 3D, interatividade, realidade 3D, realidade virtual
Não me convide para assistir um 3D no cinema, eu não vou (mais). Não insista. Não carece pagar meu ingresso, queisso. É que não gosto dos óculos, são grandalhões e incômodos. Ocupam tanto espaço no meu rosto que me distraem, perco várias cenas imaginando como fico com eles. Os fabricantes não precisariam chegar ao ponto de consultar um esteta ótico, mas noções básicas de ergonomia ajudariam um bocado. Da poltrona, me volto para trás; quero conferir quem, além de mim, desistiu deles nos primeiros quinze minutos e assistiu o resto sem. Ninguém. Estou só.
Está bem, não é só por isso. Também não enxergo direito com eles, sou a cega em terras de reis e rainhas e príncipes, todos sentados. Os óculos embaçam. Escurecem, dão reflexos. O efeito especial mais nítido é o que me faz ter a precisa sensação de ter comprado gato por lebre.
Sim, há mais. Quem disse que quero estar ali, no meio da aventura, tal uma espectadora-coadjuvante? Quem declarou que a humanidade ama 3D? Deve ter havido algum plebiscito mundial votando a questão, o qual não fiquei sabendo e, portanto, faltei.
Isso posto, agora sei das três dimensões: desconforto, desserviço, dispêndio.
Realidade virtual, realidade 3D. Excessos de interatividade, exageros da cumplicidade. Viver já é uma experiência sensorial e tanto. Às vezes, sinto falta da realidade, somente ela.
Crônica de minuto para ficar triste num instante
20 abr 2012 5 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:amor, filhos, herói, João Hélio Fernandes Vieites, mãe, Mitchill Guilherme Pereira de Carvalho, morte, pai, super, super-heróis, superpoder, vida
A mãe do João Hélio disse que, naquele dia, gostaria de ter tido superpoderes para salvá-lo.
O pai do Mitchill disse que gostaria de voltar no tempo para mudar o desfecho da história, ou avançar nele, até um dia em que tudo houvesse, enfim, passado.
Outras mães e outros pais, vivedores da experiência de sepultar um filho, também já desejaram ter superpoderes, mas não disseram nada. Superquerer não é superpoder.
Super-heróis, pense nisso, são inspirados em pai e mãe. A coisa da proteção, do cuidado. Uma vez que a estes foi concedido o superpoder de trazer uma pessoa ao mundo, igualmente deveria lhes ser concedido mais um, para mantê-la por aqui. Imitar Ícaro, domar Cronos – não importa qual. Desde que pudessem, através dele, garantir a existência daquele que lhes é confiado.
Aos pais e mães tristes, calados ou manifestos, se não recebem o poder providencial, cabe apenas a capacidade de superação. Que, de certa forma, é um jeito de ser super.
Crônica de minuto #41
06 abr 2012 6 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:banco, cheque, costumes, talão de cheques
Uso cheques há duas dúzias de anos. Nesse tempo, quase tudo mudou no planeta. Menos o talão de cheques. Se antes um durava trinta dias, hoje ele resiste a cinco meses na carteira. Renovo a foto da cria com mais frequência.
De layout essencialmente intacto ao longo do século, necessário no comércio que não se rendeu aos meios eletrônicos de pagamento e útil nas horas em que o “sistema” dá pane, o objeto guarda as características de seus ancestrais.
Inclusive o prolixo canhoto.
Com bankline, cartão de débito e cartão de crédito, nem o cidadão com TOC controla tanto lançamento. Tirando os campos “data”, “pago a”, “este cheque” (e olhe lá), não anoto mais nada. Minha conta-corrente é, não raro, uma barafunda. Ciente de meu saldo, talvez eu não emitisse cheque algum.
Um sorvete para quem põe lá “saldo anterior”. Duplo com cobertura para quem registra, faz as contas e atualiza o “saldo total”. Quem? Quem?
Crônica de minuto para quem está só
03 fev 2012 2 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:arara, carro, cegonha, emergência, estrada, galinha, socorro, solidão
Ilustração: Bill Tozier/Flickr.com
Deu seta, parou no acostamento ao lado do telefone de apoio. “Faltam duzentos e vinte quilômetros, Araras é uma lonjura”. Tirou o fone do gancho, chamou. Enquanto aguardava, na estrada o caminhão carregado de galinhas deixava para trás uma nuvem de penas. “Bicho besta, esse”. Do outro lado a moça atendeu, resmungou um blablablá qualquer e perguntou:
- Em que posso ajudar?
- Nada, não. Só queria conversar um pouco.
Outro caminhão, desta vez uma cegonha, carregada de carros-bebês. Ele, que fora trazido por uma cegonha estúpida, nunca vira uma de verdade. Nem arara. Só galinha.
- Não entendi, senhor. O senhor precisa de auxílio?
- Não. Parei pra prosear. Calorão, hein?
A atendente pôs no mudo e fez sinal para a colega, “Outro doido”.
- Senhor… O senhor se encontra em alguma emergência, houve algum acidente?
Duzentos e vinte quilômetros, ainda. Estrada gosta de solidão, e vice-versa.
- Deixa eu perguntar uma coisa. Você acredita em cegonha?
Solidões podem ser emergentes, mas nunca acidentais. A atendente tinha mais o que fazer. Desligou.
Crônica de minuto para quem não tem o que fazer
29 nov 2011 6 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:"saci de beca", beca, saci
Foto: Alexandre Fávero/Flickr.com
Sempre dou uma olhada no que o Google, principalmente, manda para este blog. São palavras-chave e frases que as pessoas digitam nos buscadores e, sabe Deus como, acabam chegando no Fio da meada.
Quando penso que já vi de tudo (“como fingir que está passando mal”, “teste de qualquer coisa”, “feitiço para voltar atrás no tempo”, “como escrever uma carta para um amigo esposo de sua amiga”, “onde comprar uma engrenagem planetária crônica de nylon”), ele me vem com essa: “saci de beca”.
Que os brasileiros estão estudando mais, eu já sabia. Não imaginava, porém, que o acesso à educação houvesse chegado tão longe. Em quê estarão se formando os pererês?
Se à noite todos os gatos são pardos, de beca ninguém sabe quem tem uma perna só.
Isso é sério. Muito sério.
Crônica de minuto para um feriado
15 nov 2011 1 Comentário
em Crônicas de minuto Tags:antigo, azar, jogo, jogo da velha, novo, sorte, velha, velho
Foto: Romana Klee/Flickr.com
A mais nova da mesa ganhava todas as rodadas do jogo da velha. Ela escolhia sempre o x (para dar sorte?), analisava a estratégia da adversária e, poucos movimentos depois, fechava o jogo. Até que as amigas resolveram acabar com a farra: “Agora você vai ficar com o o”. Resignada, ela aceitou. E iniciou a partida. Não deu outra: ganhou de novo. “Você está proibida de começar”, decretaram. Ela se recolheu, concordou com a cabeça. Aguardou a oponente posicionar seu x. Pensou um bocadinho, fez a jogada, aguardou a resposta. Pimba, ganhou de novo. As demais confabularam. Nem o trote na sorte, tampouco a revogação do direito ao primeiro lance haviam dado jeito. E todas ali eram macacas velhas no esporte. O café. Só podia ser o café. “Traz um chá para ela”, a da ponta pediu ao garçom. A contragosto, ela serviu-se da infusão de hibisco com limão. Ganhou. Trocaram de lugar na mesa, culpando o leste de favorecê-la. Dispensaram o x e o o , substituídos pelos saquinhos de açúcar e adoçante, respectivamente. Confabularam novamente, sem sucesso. Ela continuou papando todas.
O jogo não era mais delas. Pediram a conta.
Crônica de minuto #39
21 out 2011 3 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:atmosfera, azul, céu, chocolate, cores, espaço, filhos, Luca e Nina, luz solar, sol
Ilustração: Gustav Klim/Flickr.com
Luca, sete anos, lança a questão:
– Mãe, como o céu nasceu?
Inicio uma breve explanação sobre espaço, sol, luz, aquelas coisas. Ele ouve tudo, interessadíssimo. Dou sequência, na medida que meus parcos conhecimentos sobre o tema permitem, e falo das cores, planeta, atmosfera… De repente, não mais que de repente, ele interrompe:
– Quero mingau de chocolate.
Incrível o talento das crianças para zapear pensamento. De céu para chocolate em trinta segundos. Mas faz sentido. Colocar o segundo na boca e ter a sensação de estar no primeiro também leva isso.
Crônica de minuto #38
06 out 2011 6 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:amor, anticonsumismo, consumismo, crianças, dinheiro, economia, filhos, generosidade, irmãos, Luca e Nina, mesada, poupança
Quando Luca, sete anos, recebe sua mesada, pede para ir à papelaria, banca de jornal ou loja de brinquedos. E compra uma caneta, um caderno, gibis, figurinhas ou carrinho do Hot Wheels.
Ele sempre diz à Nina, quatro anos, para escolher alguma coisa “baratinha”. E ela sai de lá com um presentinho do irmão.
Nessa hora, esqueço as campanhas anticonsumismo. Nessa hora, finjo que ensinar a poupar não é tão importante assim. Nessa hora, presto atenção ao melhor da história. E penso que ela daria um belo comercial para aquele cartão de crédito.
Crônica de minuto #37
26 set 2011 3 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:crianças, dentes, dinheiro, Fada dos Dentes, Luca e Nina, presente
E mais um dente de leite do Luca se foi. Ele o deixou sob o travesseiro, na hora de dormir. Todo mundo sabe que a Fada dos Dentes passa na casa das crianças, leva o dito cujo e deixa um dinheirinho no lugar. De manhã, ele veio todo feliz mostrar: vinte reais.
Bem que podia existir a Fada dos Cabelos. Eu juntaria a centena de fios que caem todo dia da minha cabeça e, se ela fosse tão generosa como a colega, ficaria rica.
Crônica de minuto para quem pensa muito
09 set 2011 5 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:ideias, mente, pensamento, tempo
Ilustração: Michael Young/Flickr.com
Repartir um prêmio em dinheiro que você nem punha fé? Não pense duas vezes. Apostar tudo naquele namoro que ninguém põe fé: pense duas vezes.
Ultrapassar aquele caminhão só porque a pressa está maior que de costume? Pense duas vezes. Agradecer ao anjo da guarda por ter escapado de ir para o beleléu, por causa do dito cujo: não pense duas vezes.
Socorrer o cãozinho atropelado que as pessoas fingiram não ver? Não pense duas vezes. Comprar um animalzinho, em vez de adotar: pense duas vezes.
Derrubar o fícus em frente à sua casa porque suas raízes levantaram um bocadinho a calçada, e agora você precisa desviar, de leve, para entrar na garagem? Pense duas vezes. Parar dois minutinhos para fotografar o ipê rosa que amanheceu florido na rua de cima: não pense duas vezes.
Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano? Não pense duas vezes. Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano: pense duas vezes.
Topar uma proposta para trabalhar mais feliz e ganhar um tiquinho menos? Não pense duas vezes. O contrário: pense duas vezes.
Cortar os cabelos porque deu uma vontade súbita, assim, do nada, sem explicação? Não pense duas vezes. Mantê-los longos apenas porque seu namorado gosta, e vive pedindo, com aquele olhar que você conhece bem, para você deixá-los assim? Pense duas vezes.
Adicionar, multiplicar e dividir os bons amigos nas redes sociais? Não pense duas vezes. Subtrai-los da sua vida porque, de vez em quando, eles não concordam com você: pense duas vezes.
Aproveitar o triz de inspiração para guinar a vida praquele lado que ela, há tempos, precisa? Não pense duas vezes. Se pensar uma vez e meia, o triz já era.
Pensar uma, duas ou três vezes. Não pensar. Ter cérebro à vela, com vento comandando o pensamento. Ideia motorizada, para ir o mais longe possível em menos tempo. Mente a jato, para perder de vista o que ficou para trás.
Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe todas.
Crônica de minuto #36
01 set 2011 5 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:filhos, Luca e Nina, mães, stress
Luca ganhou um caderno do Vô Tonico, aqueles escritos “No stress” na capa. Parou ao meu lado e disse:
– Mãe, você precisa comprar um desse.
No comment.
Crônica de minuto #35
22 ago 2011 2 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:"Como nossos pais", educação, Elis Regina, filhos, Luca e Nina, mães, modernidade, pais
Luca:
– Mãe, me ensina a tricotar?
– Ensino, filho. [Surpresa] Mas para quê?
– Para eu fazer um cachecol para você.
A gente posa de mãe moderninha, que cria filho e filha igual, diz que menino pode fazer balé e menina pode fazer judô, ensina que não tem ‘cor de menino’ e ‘cor de menina’.
Aí eles vêm com uma dessa e pronto.
Nada como um filho para escancarar: ainda somos e vivemos como nossos pais.
Crônica de minuto #34
17 ago 2011 4 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:bebê, Camaro, carro, Chevrolet, filho, GM, Luca e Nina, mãe
Luca, sete anos, no banco de trás:
– Mãe, como se faz bebê?
Silmara, quarenta e quatro, no volante:
– É assim: na barriga da mulher tem um ovinh…
– Olha, mãe! Um Camaro do outro lado da rua!
[Ele é d-o-i-d-o com esse carro]
– Uau! Bonito, hein, filho? O motor deve ser 6.2. Puxa vida!
Resolvido.
Crônica de minuto #33
10 ago 2011 Deixe um comentário
em Crônicas de minuto Tags:"Miss you", amor, filhos, Luca e Nina, mãe, música, rock, Rolling Stones, saudade
– Mãe, põe um rock?
Fui ver se tinha algo no porta-luvas. Tinha. Ao primeiro acorde de “Miss you”, Nina, sentadinha no banco de trás, bateu palmas e se remexeu até onde o cinto de segurança deixou. Pelo retrovisor, fotografei-a na minha Rolleyfex particular, aquela embutida na cabeça.
É, filha. Às vezes, você me enlouquece. Mas quando nos despedimos na porta da escola, fico sempre com uma certeza: I will miss you.
Crônica de minuto #32
12 jul 2011 5 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:café, cavalo, compaixão, doceria, gentileza, invisível, invisibilidade, morango, mousse, sociedade
– Vamos?
Sobre a pequena e redonda mesa da doceria, os restos da comilança. Três xícaras de café, meia dúzia de guardanapos melecados. Na rua, ajeito a cria no banco do carro e suspendo o olhar para compreender o sol do inverno. Ali perto, sem que eu os note, estão eles. Os invisíveis: o homem, as duas crianças pequenas, a carroça.
Invisíveis para mim. Não para o marido. Que pede um minuto, atravessa ligeiro a rua, volta à doceria e de lá sai com quatro mousses de morango, embrulhadinhas no capricho. São para os invisíveis. A quarta iguaria é para a presumida e também invisível mãe, talvez a esperar em casa pela turma. Ou não. Nunca se sabe.
Deveria estar na constituição federal: todos têm direito a um doce saboroso e fresquinho nas tardes de domingo.
O pai, tímido, agradece. Não é todo dia que alguém se importa com ele. E com a família dele.
Todos são iguais perante um doce. Crianças, feitas com açúcar e com afeto, são mais iguais ainda. Sejam elas filhas e filhos de quem for.
Falta o último personagem. Este, sim, de invisibilidade insuperável: o cavalo que puxa a carroça. Que também gosta de doce. Mas que nem constituição tem.
Crônica de minuto #31
07 jul 2011 4 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:filhos, Luca e Nina
Luca: Eu não gosto da minha vida.
Eu: Por quê?
Luca: Porque eu tenho muita lição de casa.
Eu: Você está de férias, filho!
Luca: É, mas…
Silêncio.
Entendi o que ele quis dizer. Tem dias que nada do que digam pra gente resolve.
Crônica de minuto #30
28 jun 2011 3 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:amizade, amor, beijo, esquecimento, lembrança
Tenho me preocupado com os beijos. Aqueles, encomendados e jamais entregues.
– Mande um beijo para Fulano.
Pouca gente se lembra deles depois. São os beijos esquecidos. Os que aguardam delivery, atrasados em sua missão. Muitos vão se extraviando pelo caminho. Outros, desorientados, seguem beijando o vento, os rostos anônimos e as bocas distraídas.
Deveria existir nas cidades, a exemplo da seção de achados e perdidos, um lugar especial para acolher os beijos na mesma situação. Mas só os perdidos. Porque ninguém acha beijo na rua. Ou acha? E se acha, devolve ou fica para si? Beijo achado não é beijo roubado.
Quando se faz o pedido a alguém, “Mande um beijo”, está dada a ordem ao universo, que trata de criá-lo, à imagem e semelhança da lembrança. O beijo, então, em milésimos de segundos, toma forma, cresce e nasce, deixando para trás o útero insondável do pensamento. Se acaso não chegar ao seu destino, viverá sua vida de beijo pairando sobre o planeta, imigrando entre os países, aguardando o instante da realização. Que, no caso dos esquecidos, é nunca. E beijo órfão não é beijo feliz. Nem aqui. Nem na China.
Crônica de minuto #29
16 jun 2011 5 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:analítico, filho, intimidade, Luca e Nina, mãe, mente analítica, pé, unha
Estava eu a cortar as unhas do pé do Luca. (Gesto íntimo entre mãe e filho, mais que banhar; já dei banho em alguns amigos dele, mas jamais cortei-lhes as unhas.) Num pé, fui do dedão pro dedinho. Noutro, do dedinho pro dedão. Não foi intencional, mas o suficiente para ele observar: “No esquerdo você cortou em ordem decrescente e, no direito, em ordem crescente”. Adoro mentes analíticas. De filho, então, nem se fala.
Crônica de minuto para quem tem filhos (não tão) pequenos
03 jun 2011 5 Comentários
em Crônicas de minuto Tags:"A vida do bebê", apego, bebês, crescimento, crianças, Doutor Rinaldo De Lamare, filhos, livro, maternidade, mães, pais
Ilustração: Leon Rice-Whetton/Flickr.com
Botei reparo hoje: na nossa estante há um exemplar do livro “A vida do bebê”. Aquele do doutor De Lamare, espécie de bíblia de toda recém-mãe. E que diacho ele faz ali se, em casa, o último nasceu há cinco anos? É o mesmo que manter no armário as roupas de grávida; fundamentais na gestação, elas perdem o sentido depois que o rebento vem ao mundo. (OK, ainda servem por alguns meses.) Do mesmo jeito, o livro, essencial nos primeiros tempos dos pequenos, vai se tornando dispensável, como é de esperar. Cumpriu sua missão – e que missão. Mantê-lo na estante não é exatamente como ter à disposição Grande Sertão: Veredas, A Metamorfose, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nem como prevenção: nunca me ligaram, tarde da noite, pedindo ajuda para um bebê com cólica. É o tipo da publicação que carece de rodízio, precisa circular, ir para os pais da hora. Sem esquentar lugar em casa de criança crescida.
Fato: no desafiador jogo da maternidade, mudei de fase. O de sete já dorme fora, a de quatro acessa o You Tube sozinha. A linda bebê da capa do livro já está na puberdade. O dito cujo fará mais sentido em outras estantes. (Quem o quiser de presente, é só dar um alô.)
Fato dois: se vasculhar bem, é capaz de eu encontrar, nas entranhas da casa, objetos que marcaram os primeiros meses, ou anos, dos meus filhos. E que não fazem parte do rol das necessárias e saudáveis recordações, como o primeiro uniforme do Cruzeiro e a primeira Barbie. Culpa da distração, esquecimento ou da roda-viva do dia-a-dia, que engole até a elementar tarefa de reciclar as coisas, se acumulando aqui e ali. Ou, simplesmente, por apego. E não tem pais que resistiram o quanto puderam ao desvencilhamento do cadeirão, das mamadeiras, do peniquinho, das colheres na hora das refeições? Como se – clichê, eu sei – os filhos fossem seres da terra do nunca.
Eu poso de mãe moderna e isso e aquilo, mas terá o tal do livro na estante provado, por a mais b, que não é bem assim? Oh céus.









