Arquivo do autor:Silmara Franco

Miniférias.

Caros e caras

O blog está de miniférias, e volta em duas semanas.

Beijos!


Baila comigo

arte: Shiko

arte: Shiko

Em tempos de desespero hídrico, paulistas, mineiros e fluminenses apelaram aos rituais mágicos para que a água retornasse às torneiras áridas. Entrou em cena a dança da chuva, a performance ancestral que promete eficácia na geração de torós.

Se o elemento água, artigo em falta nos canos do sudeste, pode ser trazido de volta com uma dancinha, por que não promover um grande baile nacional, quiçá mundial, a fim de evocar atitudes escassas, esquecidas, evaporadas com o tempo, levadas com o vento?

Uma dança da gentileza, por exemplo. Com precipitações abundantes de amabilidade para socorrer, entre tantas necessidades, o trânsito das pequenas, médias e grandes cidades. Só não é recomendável realizá-la na hora do rush, no meio da avenida.

Dança da paciência. Solitária, em par ou em grupo, para que escorra sobre cada um o dom da serenidade e da calma, a fim de melhor lidarmos com todos e tudo, de infâncias a velhices, de sofrimentos a injustiças, de chatices a arrogâncias. (Comigo, confesso, nunca funcionou; venho dançando há décadas, e ela ainda não deu o ar da graça por aqui. Talvez eu que não esteja fazendo direito os passos.)

A dança da tolerância, para alumiar mentes obtusas diante do diferente, e a dança da compaixão, até que ela, assim como o amor cantado por George Harrison, venha para cada um.

Sólidas ou líquidas, são muitas as coisas faltantes neste mundo. Invente a sua coreografia, e bote todo mundo na roda. Os deuses responsáveis hão de se sensibilizar. “Dance bem, dance mal, dance sem parar”.

Não custa tentar.


Bom para

adaptação de "Restless Harmony", Philip Kirk

adaptação de “Restless Harmony”, Philip Kirk

Começo do mês. Pagou a mensalidade da academia usando o último cheque do talão. Preencheu-o e cruzou-o com dois traços, paralelos à perfeição, riscados a quarenta e cinco graus no canto superior esquerdo da folha. Destacou-o do canhoto e anotou, em letras maiúsculas: bom para dia 20. Sublinhou o 20, a fim de não deixar dúvida ao pessoal do contas a receber. Guardou o canhoto na carteira, a carteira na bolsa. Então, deu-se conta: ela própria vinha, ampla e geralmente, pré-datando sua vida. Há anos.

Como se tudo que planejasse, almejasse e sonhasse, ficasse sob uma espécie de etiqueta “bom para”, guardado numa pasta imaginária, esperando o dia de ser descontado. Ou vivido.

O namoro de onze anos e o casamento “bom para” depois que comprassem o apartamento. Depois que o reformassem. Depois que o mobiliassem. Depois que tivessem certeza.

O velho hobby como novo ganha-pão, “bom para” o dia em que todas as condições para tanto lhe soassem mais-que-perfeitas.

O tão desejado endereço na praia, “bom para” depois que se aposentasse.

Depois. Depois. Tantos outros depois.

Mensalidade quitada (ainda que não, propriamente), rumou à esteira. Desinfetou-a com a toalhinha umedecida de multiuso e configurou o treino daquela noite. Iniciou a caminhada a três quilômetros por hora, e o cheque pré-datado não lhe saía da cabeça. Aumentou a velocidade para quatro, cinco, seis quilômetros por hora, sem que ela, contudo, saísse do lugar. Era a mentira da esteira; ela não percorrera um metro sequer. Galopava agora a nove mentirosos quilômetros por hora. A transpiração, no entanto, era real. E a fez perceber que aquela corrida de faz-de-conta, embora condicionasse seu corpo, representava suas vontades, sempre programadas para depois. Seus planos pré-datados, assim como a esteira, em verdade não a levavam a lugar algum. Todos os “bom para” emitidos ao longo do tempo, simbolicamente, haviam se transformado em data impossível, inalcançável, com vencimento para um dia depois de nunca. Interrompeu a corrida, sua respiração era ofegante, a testa líquida.

No vestiário, olhou-se no espelho. Então seus sonhos não tinham fundos?

Apanhou suas coisas e já ia cruzando a porta quando a recepcionista a chamou. Esquecera-se de assinar o cheque.


Insulfilm

foto: Rudi Gude

foto: Rudi Gude

Entrou na concessionária e pediu para colocar Insulfilm nos vidros. “O mais escuro que tiver”. O vendedor mostrou os tons e apontou, “Este aqui a polícia pega”.

“É esse que eu quero”.

“Tem certeza?”, estranhou o vendedor. “Se fizerem você tirar, perde a garantia”.

Ela fez sinal de positivo, pediu que tocasse o serviço. Garantias ela já não tinha há tempos.

Em duas horas, saía da concessionária numa espécie de bat-móvel. Testou a invisibilidade ao parar no sinal. Encarou o motorista ao lado e mandou-lhe um beijo. Nada. Para que não restasse dúvida, mostrou-lhe o dedo do meio. Nada. Sorriu e engatou a primeira. Estava protegida.

Entrou no consultório, segunda sessão. Enrodilhava pequenas mechas de cabelos nos dedos, um por um, enquanto o terapeuta anotava coisas num caderno marrom e, de tempos em tempos, a fitava. Fitava mais do que anotava. No décimo dedo, ela anunciou, “Queria por Insulfilm no meu coração. O mais escuro que tivesse”. O terapeuta repousou o caderno no braço da poltrona, também marrom. (“Bom mesmo seria blindá-lo”, ela pensou baixinho.)

Assim como nos vidros do carro, ela queria uma fina e escura película ao redor de seu músculo involuntário. Mais que evitar calor, ela não queria que soubessem o que acontecia ali dentro; as tristezas públicas dão trabalho. Também tinha medo de que lhe roubassem os motivos, as razões, os direitos ao recolhimento. Queria ficar a salvo de assaltos e sobressaltos.

Entrou no consultório, sétima sessão. Cortara os cabelos pela manhã, seus dedos agora ficavam à toa no regaço. O terapeuta quis saber se ainda pensava no Insulfilm cardíaco. Ela sorriu. Ele anotou.

Dois meses depois, foi parada em uma blitz. O policial, cumprindo a previsão do vendedor, encasquetou com os vidros de seu carro. Pediu para ver os documentos. Deu a volta no veículo. Inspecionou o porta-malas. Falou pelo rádio com algum colega, conversaram por consoantes codificadas. Devolveu-lhe os documentos, ela roía as unhas. “Vai ter que tirar”, disse, apontando para as janelas.

Décima nona sessão. Já conseguia enrolar uma nova mecha no dedo indicador, enquanto o terapeuta contava da proltrona nova, vermelho-escuro, adquirida em um brechó. “Só duzentos e cinquenta reais, acredita?”. Em seguida, abriu o caderno, agora vermelho-claro, e quis saber como andavam as coisas. A certa altura, tornou a lhe perguntar se ainda sentia vontade de ter o Insulfilm dentro dela. Ela disse que não, pois sempre haveria alguém lhe pedindo para tirar. Desenrolou a mecha e aproveitou para contar: “Fizeram-me arrancar o Insulfilm do carro duas vezes”.

“Desistiu, então?”.

“Não”.

Vendera o carro.


Crônica de minuto #56

arte: Jairo Souza

arte: Jairo Souza

Alguém morre e logo se conjuga:

– Descansou.

É a secular, esperançosa e bem-aventurada ideia de que, ao morrer, ganha-se de presente o repouso absoluto. Seja porque a pessoa livrou-se do sofrimento da vida nem sempre fácil no planetinha azul, porque se foi sem aviso-prévio ou porque viveu o bastante.

Estão pensando que é assim, é? Que morre-se e entra em férias eternas? Que se muda para um céu de infinita varanda com sofás fofos e macios, poltronas reclináveis, música da boa e suco de frutas vermelhas à vontade? Que o universo celestino é um dolce far niente sem agenda, sem relógio, sem calendário e muita, muita soneca?

Talvez estejamos todos redonda e mortalmente enganados.

Liberta da carcaça e agora transmutada na luz e energia originais, a alma ainda não chegou ao seu destino. E se a pós-vida terrena exigir de quem se foi, em vez de folga, trabalho dobrado? Tratamentos, estudos, reflexões, revisões de lições que ficaram para trás, atualizações de mundo, planos para um retorno.

Viver dá trabalho, morrer também. A vista, de lá, certamente é bonita. Mas Deus não dever dar mole, não.


Corrija-me

arte: Robin Ator/r8r

arte: Robin Ator/r8r

A vida começa aos quarenta. Ou, no caso da mulher, quando ela conhece o corretivo.

O corretivo é o photoshop natural, não-comedogênico, com textura oil-free e, salve!, FPS 30. É a mágica da maquiagem, sem coelho, nem cartola, mas com ilusionismo garantido. A retificação dermatológica de mentirinha, com validade até o próximo demaquilante. Quem se importa?

Corretivo é item de primeira necessidade, como pasta de dente. Pode faltar tomate na geladeira, bisnaguinha para o lanche das crianças, ração para os gatos, mas não pode faltar corretivo no meu toucador. (Lembrando que quem fala ‘toucador’ tem mais, muito mais de quarenta.) O corretivo não me salva da ação do tempo, mas de mim mesma.

Dei-me conta da minha fascinação pelo creminho quando a maquiadora disse “Vou lhe aplicar um corretivo” e, diferente de uma criança amedrontada que aprontou alguma, e eu fiquei feliz da vida.

O produto é mestre: corrige e ainda dá nota. 7 no disfarce do melasma da gravidez,  surgido dez anos atrás e que ainda está estampado na minha pele, feito a cicatriz da cesárea; 8 para as olheiras, 8,5 para as sardas mais rebeldes e 9 para a espinha. Nada mau para quem tirou zero em cuidados com o sol na juventude.

Melhor que corretivo, só os BB e CC cream, aqueles cremes multifuncionais cujos nomes têm esse jeitão meio tatibitati. Um bom exemplar faz pela sua pele, em cinco minutos, o que você não fez por ela em trinta anos. Resolve aquela aparência de peixe deprimido e repara até mau humor matutino.

Tanto amor pelo corretivo me põe na contramão da nova moda: mulheres inventaram de postar nas redes sociais fotos sem maquiagem. A intenção é nobre: combater a ditadura da beleza perfeita e o excesso dos filtros e retoques nas fotografias.

Mas logo agora, que aprendi a esfumar os olhos?

Bem agora, que dá para se embonecar à vontade com batons, blushes e sombras que não são testados na bicharada? Até pouco tempo atrás, arrancar essa informação dos fabricantes era mais difícil que passar delineador.

Justo agora, que estou de cabelos brancos e a maquiagem é a amiga bacana que não me deixa com ares de fantasminha camarada ou de quem tem hemoglobinas abaixo de 6?

Não. No meu rímel ninguém tasca. Muito menos no meu corretivo.

Porque o movimento #semmaquiagem é mimimi em um tom acima da pele: a moça tira a foto de cara lavada, bota na internet, coleta as curtidas e os comentários de “Continua linda”, “Uau”, “Maravilhosa” e depois vai, leve ou integralmente maquiada, cuidar da vida. É cara lavada da boca e olhos pra fora, para inglês ver. Não vale. Não orna.

Corrija-me se eu estiver enganada.


À flor do pelo

foto: Silvia Kalvon

foto: Silvia Kalvon

Tenho gatos.

Gatos têm pelos.

Tenho pelos de gato nas minhas roupas e nas minhas coisas. Todas.

É uma lógica felina, peluda e universal.

Houve época em que, dona de dois gatos brancos, eu evitava as roupas escuras. Depois, veio o siamês com seus cinquenta tons de bege. Em seguida, os pretos. Por fim, a tricolor. Liberei geral.

Uma rápida busca no Google, “como tirar pelo de gato das roupas”, e somos abençoados com quase oitocentas mil dicas, produtos, artigos, teses de mestrado, técnicas, tutoriais. Toalha molhada, luva de latex, esponja. Soluções instantâneas e… inúteis. Há mais pelos soltos de gatos entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Antes de sair de casa, recorro aos rolinhos adesivos. Entro no carro e, apesar de os gatos não andarem ali, lá estão eles, os pelos. Grudados, aderidos, incorporados ao tecido dos bancos. Gatos são onipresentes.

Chego à reunião e me dou conta que minha blusa está cheia de pelos. Discretamente, e em vão, tento me livrar deles. Torço para que os presentes também gostem dos bichanos. Se perguntarem, digo que os pelos são meus amuletos. E que carrego vários comigo, só por garantia.

O rolinho da Scotch-Brite e seus genéricos fazem parte das compras rotineiras e essenciais da casa, como arroz e feijão. Ninguém entende por que tenho tantos rolos de fita adesiva, daquelas largas, perfeitas para a missão. Sou das que testam tudo e compram todas as novidades do setor. Gatos, quem diria, movimentam a economia de um país.

Houve tempo em que eu sentia enorme vergonha por exibir pelos acidentais na calça, no vestido. Como se fosse sinal de falta de higiene, de zelo. Hoje, não mais. De vez em quando, noto olhares enviesados. Assim como também rola a maior identificação com quem também convive com gato. Há sempre uma foto dele no Instagram para mostrar aos outros.

Meu filho, segundo exames, tem moderada alergia a pelo de gato, embora não manifeste sintomas. Algumas pessoas acham um absurdo os gatos dormirem na nossa cama. Nós temos moderada paciência com gente assim.

Tem anfitrião que oferece vinho, cerveja e comidinhas às visitas. Aqui em casa a gente oferece Polaramine.

Uma coisa é certa: Deus fez o gato no sábado, enquanto comia Nutella e ouvia Tom Jobim. No dia seguinte, descansou.

Tudo, então, estava pronto.


Do direito à reclamação

arte: Iv

Fato um: o mundo está melhor agora do que antes.

Fato dois: o mérito é dos reclamões.

Não fosse a reclamação, prima da insatisfação, ainda estaríamos assando peixes em fogueirinhas improvisadas nas mal iluminadas cavernas pré-históricas. Não fosse a Rosa Parks reclamar, negros ainda teriam de oferecer seus lugares aos brancos, nos ônibus norte-americanos. Por aqui, permaneceríamos sofrendo com as festas do vizinho até às quatro da manhã, pois não haveria lei do silêncio. Nem Procon. Pior que tudo isso junto: continuaríamos precisando de abridor para a lata do Leite Moça.

Pessoas cordatas não fazem revolução. Gente boazinha não muda a história. São os reclamadores que movem o mundo, meu bem.

Assim como não há guerra sem sangue, não há evolução sem chororô.

Reclamar pode ser verbo transitivo direto, indireto e até intransitivo, dependendo do contexto. No gerúndio ou no subjuntivo.Tanto faz; reclamar é, no fundo, verbo fundamental. Infinitivo e infinito. E, antes de ser verbo, é instinto. O primitivo e rebelde instinto de não querer assim e querer assado – para benefício próprio ou mundial – e verbalizar essa vontade. Porque há algo comum entre a queixa por ter o cabelo enrolado e não liso, e vice-versa, e a reclamação que ponteia os protestos de um povo. É ela, sempre ela: a centelha da inconformidade, embutida no DNA humano.

Toda reclamação é legítima, ainda que não seja.

A coisa mais odiável de se ouvir, quando se está em pleno queixume, é: “Você reclama de barriga cheia”, “Tanta gente sofrendo e você aí, reclamando”. É desvalorização da reclamação alheia. Censura. Repressão. Cerceamento da liberdade. Que, ironicamente, também configura espécie de reclamação por parte do outro.

Não é porque se vive confortavelmente em uma casa com saneamento básico, energia elétrica e geladeira cheia que se está proibido de reclamar por isso ou aquilo, às vezes mais por aquilo que por isso.

Não é porque se tem saúde, filhos lindos e ar-condicionado que se está impedido de lamuriar, entre um café e outro.

Tudo estar relativamente bem na vida não cancela os direitos reclamatórios, individuais ou coletivos, silenciosos ou barulhentos.

E pode-se, sim, reclamar de algo que não se faça nada, absolutamente nada para mudar. Só para exercitar.

Eu sou amplamente grata, mas não abro mão do direito às minhas reclamações e descontentamentos gerais, ainda que rasos e de baixa complexidade. Minhas superficialidades são cheias de profundezas. E, embora a vida não tenha SAC, sigo adepta da lamúria-canção: “Mas Deus não quer que eu fique mudo, e eu te grito esta queixa”. (Ah, Caetano.)

Aceito elogios, sugestões e, por que não?, reclamações.


O que você faz?

arte: Andrea Joseph

arte: Andrea Joseph

– O que você faz?

Por um instante, tento adivinhar que tipo de resposta o perguntante busca. Se pergunta porque deseja, por mera ou suspeita curiosidade, saber a atividade pela qual sou remunerada. Se pergunta genericamente, sem maiores pretensões, aguardando abreviado esclarecimento. Ou se pergunta por perguntar, para puxar assunto, quebrar o gelo. Mais ou menos como quando se está numa festa em que se conhece apenas um convidado, e ele some. Na dúvida, sorrio e elaboro mentalmente a resposta (quase) completa.

– Faço força para acordar cedo. Faço banana amassada com aveia e Toddy em formato de coração para meu filho e bisnaguinha na chapa com ovos mexidos para minha filha, de café da manhã. Faço agendas inviáveis e acordos impossíveis com Cronos. Faço tempestade em copo d’água e, das tripas, coração. Faço o bem e, vez por outra, olho, sim, a quem. Faço o que eu digo e faço o que eu falo – tento fazer sentido. Faço amor. Faço guerra, também. Faço de um limão, limonada; de uma alegria, felicidade, e de uma lembrança sólida, nostalgia líquida. Faço muito. Faço pouco. Faço é nada. Mas faço o que posso. Faço caminhos e laços tortos (fazer o quê!). Faço graça. Faço surpresa. Faço coleção de bolsas, caderninhos e cafeteiras. Faço, aliás, juras de amor ao café (e faz tempo). Faço suco de maracujá com gengibre, kibe de soja, hamburguer de abobrinha, bolo de cenoura, arroz e feijão cheios de alho. Para tudo isso, faço supermercado. Faço livros, blogs, amigos. Faço homenagem e piada. Faço rir, faço chorar e faço dormir. Faço ideia. Faço grandes malas e boas viagens. Faço uma fézinha de vez em quando, e já vou fazendo planos. Faço cara feia. Faço pouco caso. Faço que não é comigo. Faço bobagem, faço vista grossa, faço por merecer. Faço o que eu quero, pois é tudo da lei – da lei! Faço as pazes, as camas, as unhas (faço questão). Faço ligações, conexões e intervenções. Faço minhas orações, minhas doações e minhas proclamações. Faço anos todo ano. Todo ano, faço promessas de ano novo. Faço conta e faço de conta. Faço, enfim, alguém feliz. – E você, me diga: faz o quê?


Corrida

arte: Joachim Robert

arte: Joachim Robert

Quando vou às compras, gosto de apostar corrida com a pessoa do caixa – qualquer caixa – para ver se consigo retirar o cartão antes que ela diga “Pode retirar o cartão”. Tenho me saído bem. Deixo o lugar sorrindo, cantarolando “We are the champions”. É minha desordem mental recorrente, my friends.

E essa é a apoteose.

O tiro de largada é quando saco o cartão para pagar. Nesse momento já estou preparada, alongada, aquecida. A pessoa pergunta “Crédito ou débito?”, eu respondo e calculo mentalmente o tempo que ela leva para digitar os comandos (se é Visa etc.). Então, saio em disparada para inserir o cartão antes que ela termine de dizer “Pode inserir o cartão”.

Na sequência, já dona do ritmo, verifico o visor da maquininha, ganho fôlego e corro para digitar a senha antes que ela pronuncie “Pode digitar a senha”.

Enter.

Foco o olhar na tela da máquina registradora que inicia contagem regressiva, geralmente começando em 35 e, quando o tráfego de dados está bom, no 32 (em média) vislumbro “Transação aprovada”. Apanho o cartão antes que ela anuncie “Pode retirar o cartão”.

Alcanço a linha de chegada com um dedo indicador de vantagem. Não tem pra ninguém. Quase esqueço de pedir o CPF na nota.

Não pago mais nada em dinheiro vivo. E desconfio que tenha comprado mais coisas do que preciso.


Rodinhas

arte: Reuben Whitehouse

arte: Reuben Whitehouse

Quando avistei, ao longe, meu filho andando de bicicleta, notei. Faltavam dois elementos na cena, tão cotidiana: as rodinhas laterais. Ele tinha cinco anos e o pai acabara de removê-las. O pequeno estava pronto para duas rodas.

Depois foi a vez da mais nova, no seu tempo, se despedir das rodinhas.

As rodinhas laterais são o apoio, físico e moral, para quem está aprendendo a pedalar. Têm seu valor. São temporárias, com dia certo para sair de cena. Uns as dispensam mais cedo, outros mais tarde, não importa. A independência e sua irmã mais velha, a confiança, virão.

Ou não.

Há quem prefira manter imaginárias rodinhas laterais a vida toda. Com medo de, sem elas, cair. Medo de não saber viver sem. Medo de levar tombo, de se machucar, do Merthiolate. De se ferrar, enfim.

Desfazer, por exemplo, uma sociedade de anos, cujos sinais de desgaste são evidentes, para inaugurar seu próprio escritório, é tirar as rodinhas e ir.

Anunciar carreira solo, depois de sair da banda que lhe acolheu um dia, mas que não funciona mais, é tirar as rodinhas.

Terminar o velho namoro ou casamento, preso por um fiapo de amor e alguns nós afetivos, é tirar as rodinhas.

Pedir demissão do trabalho entediante, dizer adeus às férias, ao 13º salário e ao tíquete-restaurante, juntar as economias, se enfiar em planilhas e abrir o negócio dos sonhos, é tirar as rodinhas.

Aposentar a escova ou a chapinha diária a lhe torturar as melenas, saber-se livre da ordem estética e andar em perfeito equilíbrio sobre as ondas dos cachos que Deus lhe deu, é tirar as rodinhas.

Para quem cresceu, a casa dos pais e tudo que há nela – segurança, proteção, facilidade – é uma espécie de rodinha lateral. Sair dela é deixá-la para trás. É acreditar que dá para ser dono ou dona do seu nariz e das suas contas. É viver o inenarrável prazer de ter seu canto e, dia sim, dia não, dar uma passadinha ali, só para tomar o café fresquinho da sua mãe. (Às vezes, a dependência não é das rodinhas invisíveis, mas das visíveis roupas lavadas e passadas, do visível almoço sempre pronto, da visível e farta geladeira.)

Dizem que quem aprende a andar de bicicleta não esquece mais.

Sabe-se que quem anda sem as rodinhas não volta mais a usá-las.

Então, experimenta dar uma voltinha sem as suas.


De onde?

arte: René Nijman

arte: René Nijman

– Bom dia. Posso falar com o Fernando?

– Quem gostaria?

– Silmara.

– Silmara de onde?

– De São Paulo. Da Mooca, para ser mais exata. Da barriga da Angelina, casada com o Tonico, meu pai. Nasci na Beneficência Portuguesa, ali no Paraíso. Foi um Deus-nos-acuda naquele hospital, eu não queria saber de nascer, dá-lhe fórceps, vim toda roxinha, não chorava, minha mãe achou que eu tinha morrido e quem chorou foi ela. Mas não morri, e outro dia mesmo estava pensando: sou muito durável. Veja só, tenho quarenta e sete anos. São quarenta e sete anos respirando, sem parar. Inspiro, expiro, inspiro, expiro. Ando pra lá e pra cá, faço isso, faço aquilo, subo, desço, durmo, acordo. Já me machuquei muito quando era criança, rasguei tornozelo andando de skate, cortei o dedo na máquina de frios, tenho a cicatriz até hoje. Bati o carro feio uma vez, engavetei no Minhocão, tive de fazer B.O. de pijama, quem manda dirigir de pijama? Tive sarampo, um febrão que me dava alucinações, via gente pelo quarto, números gigantes flutuando. E tive catapora, estomatite, dez injeções de Benzetacil na bunda, tem noção?, cólica renal em pleno shopping, perdi o jeans da promoção. Pneumonia, gastrite, insolação, devo ter cruzado com muito bandido por aí e nem fiquei sabendo, graças a Deus, quer dizer, fiquei sabendo em duas vezes. E continuo aqui, não é uma coisa incrível? Nunca que um raio caiu na minha cabeça, nunca fui atropelada, nunca quebrei nada. Acredita que meu sonho, quando pequena, era quebrar o braço? Achava lindo quem ficava de gesso, os colegas da escola assinando naquele gesso encardido. Uma vez, fui sozinha na casa de material de construção, comprei gesso e engessei meu braço, improvisei tipoia, fingi o sofrimento. Quando minha mãe chegou em casa levou aquele susto, mas logo sacou, eu fingia mal. Quarenta e sete anos e nenhuma fratura, nenhum osso trincado, nem luxação. Devo ser inquebrável. A inquebrável de São Paulo, da Beneficência Portuguesa. Eu não sou portuguesa, nem descendente. Quarta geração de italianos, precisava tanto ir atrás da cidadania. Sou, de certa forma, da Itália. E da Mooca, da Angelina e do Tonico. Isso para ficar só nesta vida; se você me perguntar de onde, mas de onde mesmo eu sou, espiritualmente falando, só fazendo regressão. Será que sempre estive flanando neste planeta, ou será que já passei por outro? Silmara, de Júpiter. Silmara, de Saturno. Sabia que não é só Saturno que tem anéis? Aprendi com meu filho, ele foi ao planetário. Estou brincando, não sou de Júpiter, nem Saturno. Sou da Terra, mesmo, e de São Paulo, estou em Campinas há uma década, sou praticamente campineira. Morei em outro país, também. Um frio do cão. Aliás, por que se diz “frio do cão”? Ficaria melhor “frio do urso polar”. Então, na verdade, sou de um monte de lugares, dependendo da época, de qual época você quer saber? Sem contar, como falei, dos outros planetas por onde posso ter passado. Está certo, ‘posso ter passado’? Três verbos na mesma oração fica bem esquisito. Sabe, eu escrevo, mas tem horas que dá um branco. Pois bem, sou meio que da Itália e de outro país onde faz um frio do urso polar, de São Paulo, da Mooca, da Beneficência Portuguesa, da Angelina e do Tonico, de Campinas, esquece isso de Júpiter, senão o Fernando não me atende. Aliás, ele está?

– Um instantinho. Vou transferir.

– Obrigada, bom dia. – Fernando?


Dinheiro de verdade

foto: Gabriel Rocha

foto: Gabriel Rocha

Dou a nota de cinquenta e a moça do caixa despe o sorriso de até então. Em seu rosto, agora o olhar imaginário de detetive: quer saber se a cédula é verdadeira.

Posiciona-a contra a luz, aperta os olhos, procura a marca d’água. Esfrega a nota entre os dedos. Só falta cheirá-la para determinar se é dindim de verdade ou não. Audácia da pilombeta, duvidar da minha onça pintada.

Aguardo, com rara paciência. Ela leva dez segundos na conferência. Para mim, são intermináveis trinta minutos de constrangimento financeiro. Cogito pagar com cartão, recuo; seria atestado de pilantragem. Ela parece ter prazer na hipótese de flagrar a meliante que ela pensa habitar em mim. Logo eu, uma mãe de família. De cabelos brancos!

Tenho na ponta da língua poderoso argumento, em caso de possível rejeição ao meu rico dinheirinho. “Acabei de sacar no caixa eletrônico que fica aqui no supermercado. Reclame com o banco”. Já antevendo minha transmutação em dona onça, eu exigiria meu troco, ameaçaria processo contra danos morais e, em seguida, sem lhe dar sequer tempo de pensar, enfiaria minhas batatas, abobrinhas, maçãs, bananas, bisnaguinhas, Nutella, pasta de dente e xampu na ecobag e sairia, altiva. Aliás, alguém que usa ecobag deveria ser considerado cidadão acima de qualquer suspeita (exceto pela Nutella).

Não foi a primeira vez. Dois dias antes, o rapaz do café também resolveu aferir minha nota. Deve haver na cidade uma epidemia de falsificação de notas de cinquenta. Das miúdas ninguém desconfia. Falsários poderiam se especializar em notas de dois.

A investigação das notas graúdas nos estabelecimentos comerciais assemelha-se ao processo das palavras de verificação nos sites, exigindo que você prove que é gente e não máquina. No supermercado, no café, na farmácia, não basta você ser você; você tem que ser você e tem que ser honesto. Eu, que preencho os dois requisitos, não escapo da vistoria. E se recebi, por aí, uma nota falsa e não percebi? Até explicar que focinho de porco não é tomada, a onça pintada estará extinta.

A moça do supermercado resolve aceitar minha nota, providencia meu troco. Seu rosto retoma o sorriso de antes. Estamos aprovadas, minha onça e eu. Semana que vem volto com uma nota (verdadeira) de cem. Se ela duvidar da minha garoupa, ficarei uma arara e pagarei tudo com notas de dez.


Verbo familiar

arte: Juliana Moraes

arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido da que veio depois, saída de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.


Já assinou uma petição hoje?

arte: Carmela Alvarado

arte: Carmela Alvarado

Perdi a conta de quantas petições assinei, eletronicamente, nos últimos tempos. Nunca foi tão fácil criar – e apoiar – campanhas para qualquer coisa. Mais fácil que tirar o doce de uma criança. Lembrando que tirar doces de crianças daria uma ótima petição contra quem faz isso.

Com as petições online, sem por o pé na rua, ajudei a salvar baleias no Japão, abelhas na Europa e elefantes na África. Se quisesse, engrossaria o coro daqueles que são contra a remoção do povo Masai, na Tanzânia. Gente que não conheço, num país que nunca visitei.

A humanidade descobriu o poder transformador de um clique. Da sala de estar, comanda-se uma revolução. O que Mahatma Gandhi não faria, se tivesse uma conta no Twitter.

Já que é festa, proponho minhas próprias petições. Nem tão públicas; às vezes, um tanto particulares. Todas fundamentais. Com elas, minha vida seria melhor. Quiçá, a sua também.

1. Petição para que as vinte e quatro horas da sexta-feira – e não somente as últimas seis – sejam, oficialmente, integradas ao fim de semana.

2. Petição para manobristas de estacionamentos não mexerem no ajuste do banco.

3. Petição para o antiaderente das frigideiras durar mais de um ano.

4. Petição para proibir preços terminando em 96, 97, 98 e 99 centavos, uma vez que para esses nunca há troco.

5. Petição pela venda de morangos a granel, e não mais em enganosas caixinhas – aquelas onde os maiores e bonitões ficam por cima e os mirrados e estragados, por baixo.

6. Petição para que toda sala de espera de consultório médico ofereça, em local visível e de fácil acesso, um bom café.

7. Petição para que nenhum cavalo precise puxar charretes impossíveis, e que galinhas só botem ovos quando elas quiserem.

8. Petição para que as revistas femininas não ensinem mais como enlouquecer um homem na cama ou ter uma barriga chapada em quatro semanas.

9. Petição para as lojas pararem de usar os termos “sale” quando querem dizer “liquidação”, e “off” quando querem dizer “desconto”. Esta petição prevê, ainda, proibição aos vendedores de chamar os clientes de “bem”, e também de acompanhá-los até a porta ao final da compra.

10. Petição para criminalizar a publicação de textos apócrifos nas redes sociais, bem como a replicação de boatos e qualquer coisa que termine com “se curtiu, compartilha”.

11. Petição para proibir a Wanessa Camargo de lançar novos discos.

12. Petição para que a trilha incidental “Com quem será” seja, de uma vez por todas, excluída do Parabéns a você.

13. Petição para que os anúncios do You Tube, que insistem em passar antes das suas músicas preferidas, sejam sumariamente extintos.

14. Petição para não deixar o samba morrer, nem acabar, pois o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar.

Junte-se a mim!


Revista-se

 

Comprei um revisteiro. Pequeno, em ferro, do jeito que acho bonito. Flerto com ele, estou apaixonada. Trato de acomodá-lo na sala, ao lado do sofá, do jeito que imaginei. Mas não demora e sou invadida por uma devastadora realidade. O novo objeto é completamente inútil: não temos mais revistas em casa.

Há tempos não compramos revistas, nem jornais, em bancas. Tudo é lido nas telas. Acabou o papel, jingle bell. Os poucos exemplares remanescentes são velhos e habitam dois locais distintos em nosso lar.

O banheiro: para aquelas horas de atemporalidade absoluta, onde tanto faz ler uma matéria do mês passado ou de dois anos atrás. Banheiros são perfeitos para a leitura distraída, sem compromisso. Não conheço ninguém que tenha revistas da semana no banheiro.

A escrivaninha das crianças: são boas para os trabalhos de escola, recortar proparoxítonas, figuras de meios de transporte, itens da pirâmide alimentar. É apoio pedagógico que não carece de vínculo com a atualidade. Estão todas devidamente esquartejadas.

Encaro o revisteiro pelado. Minha vontade é voar à banca mais próxima.

O design simples e eficiente prometia não repetir os estragos que seus antecessores costumavam causar nas nossas Lolas, Vejas, Épocas, Vida Simples. Por conta da engenharia imprópria, as pobres ficavam deformadas. Como se padecessem de irreversível escoliose, prejudicando o mais básico folhear. Nesse, não. As revistas permaneceriam íntegras, saudáveis, confortavelmente repousadas à espera da leitura.

Volto à loja e peço para trocar por um quadrinho?

Revisteiros domésticos estão na mesma categoria daquelas antigas bases das máquinas de costura das avós. Restauradas e reinventadas, hoje enfeitam lares fazendo as vezes de mesa ou aparador. Sua missão guarda, porém, algo da essência original: costurar passado e presente. Não raro, sobre elas se veem vasos feitos daqueles também antigos, pesados e impossíveis ferros de passar roupa à carvão.

É o tempo da casa digital com decoração analógica (ou nem).

O que fazer, então, com meu revisteiro solitário e desocupado, tal um imóvel aguardando inquilino? Já que vira cama d’algum gato, despejo de pequenas tralhas sem endereço, estorvo na hora de passar aspirador.

Ou revisto-o de significado e encabeço um movimento pela volta maciça e definitiva das revistas aos lares, doces lares. Aproveito e estendo o negócio às máquinas de costura também. O ferro de passar roupa, esse impossível até quando moderno, pode continuar abrigando as flores. De verdade, plástico ou papel.


Para Rubem Alves

 

Campinas, 2000

Das primeiras vezes que saímos juntos, ele me levou a um bar chamado Dalí. Eu ainda não sabia, mas estava diante do pai dos meus dois filhos.

O Dalí ficava numa casa grande e charmosa, com mesas espalhadas pelo quintal, ao pé de uma antiga árvore. Pouco guardei do lugar na memória, exceto, talvez, a árvore. Eu não sabia, mas o dono, da casa e do bar, era o Rubem Alves.

O bar não teve vida muito longa.

 

2010

O mais velho fez seis anos e mudou de escola. Foi para o primeiro ano. A escola é em outro bairro e o caminho novo se tornou o itinerário de todo santo dia, duas vezes ao dia, na ida e na volta.

 

2013

A amiga mostrou um folheto. Restaurante novo, perto da escola. Eu já havia visto a placa. Afinal, passávamos em frente a ele todo santo dia, duas vezes ao dia, na ida e na volta. Disse ela que a comida era boa, então fomos lá almoçar. Depois, seria só deixar as crianças na escola, a dois quarteirões dali.

A amiga tinha razão, a comida era boa. E o restaurante ficava numa casa grande e charmosa, com mesas espalhadas pelo quintal, ao pé de uma antiga árvore.

Troco dois dedos de prosa com a dona. Eu não sabia, mas estava no velho Dalí, agora sob novo nome – Flor de Pimenta – , nova direção, novo tudo.

Não me dei conta de que estava, com meus filhos, na mesma casa onde funcionara o bar em que fui com o futuro pai deles naquele ano de 2000. São os nós, ou laços, ou voltas, do tempo.

Nem percebera que, há quatro anos, passo ali em frente. Não reconheci a rua, por certo mudada desde aquela época.

Quantos fatos semelhantes devem, neste exato instante, rodear minha vida, sem que eu os note? Quantas coisas vivo e revivo o tempo todo, sem saber das conexões que as envolvem? Quantas pessoas encontro, não por acaso, mas por obra de um inteligente e certeiro objetivo? Quanto, daquilo que importa, ainda não sei?

A vida deveria vir com um alerta automático, um bipe universal, notificando cada acontecimento que merecesse um pouco mais da nossa atenção.

 

2014

O restaurante, assim como o bar, também não teve vida longa. Mal abriu, fechou.

Rubem Alves está internado desde o dia 10 de julho no Centro Médico de Campinas, com infecção pulmonar. Desejo que ele viva muito, mas também desejo que esse tão-tão-querido siga seu melhor caminho, seja qual for. (Ninguém tem “bem” no nome à toa.)

O meu, já sei: em dez dias as crianças recomeçam as aulas, e será hora de tornar a fazer o mesmo itinerário de todo santo dia, duas vezes ao dia, na ida e na volta, e passar em frente à árvore do velho Rubem.

Independente de qualquer coisa, sigo aguardando, confiante, pela invenção do tal bipe universal.


Roupa de sonhar

arte: Andrea Joseph

arte: Andrea Joseph

Tenho dois pijamas de frio e quatro de calor. Moro, afinal, num patropi.

Tirando um, dos de frio, adquirido por ocasião de viagem e receio de topar, mulambenta, com algum hóspede no corredor do hotel, os demais foram todos presentes. Não tenho o hábito de comprar. Assim como em ações, não sei investir em pijamas.

Sempre que saio disposta e decidida a renovar meu guarda-roupa noturno, volto para casa com sapatos novos, um livro da Adélia Prado, uma bolsa, um anel. Retorno de mãos cheias, mas não de pijamas. Posso esperar até o Natal.

Pijamas permanecerão ocultos sob o edredom, na maior parte de sua vida útil. Por isso, tenho tendência a achá-los sempre caros. Considerando que nem marido, nem Morfeu, ligam se durmo de Any Any, Victoria Secret ou moletom velho da Hering, as súbitas mudanças de planos quando vou às compras fazem certo sentido.

Meus pijamas, claro, também zanzam pela sala, pela cozinha, pelo quintal. Eventualmente, se transformam na roupa oficial do dia, em finais de semana tão preguiçosos quanto eu. Passeiam na rua, também, em caso de resgate do gato fujão. Nessa hora sou lépida, como se a velocidade me tornasse invisível. (Invisível fica o gato.)

E, apesar de preferir ganhá-los a comprá-los, engana-se quem pensa que não os valorizo, que os subestimo. Ao contrário: não é qualquer um que levo para cama.

O bom pijama é aquele que conhece você tão bem quanto seu melhor amigo. Sabe deixá-lo à vontade, não lhe pressiona; só lhe quer por perto. O bom pijama também é como filho: você o reconhece pelo cheiro, o seu cheiro. Se alguém falar mal dele, você vira fera. Se ameaçam separá-los, incluindo-o na sacola de doações para a igreja, é caso de polícia.

Pijamas vestem o corpo enquanto a alma, ao dormirmos, passeia nua. Nunca estou de pijama em meus sonhos, a roupa é sempre outra, inventada. (Mais um motivo para não investir demais na peça.)

Na Mooca da minha infância havia um senhor que ficava de pijama na porta de sua casa, provavelmente o dia inteiro, conferindo o movimento na rua. Cumprimentava todos que passavam por ele, conhecidos ou não. Sempre bem arrumado, pijamas novos. Devia ter bem mais de seis modelos. Minha irmã e eu o apelidamos de Pijamildo. Ele parecia meio lelé. Só não sabíamos que a pijamice era, na verdade, sua melhor lucidez. Pijama é o uniforme da escola de sonhar.


Deus salve os stewards

Steward: profissional que cuida da segurança interna dos estádios. Ficam de plantão nos pontos nervosos, como entradas de vestiários e acessos às arquibancadas. No campo, postam-se de costas para o jogo, em constante vigilância da torcida. Missão: apaziguar os mais invocados, garantir que nenhum engraçadinho tente beijar o Messi. Colaborar, enfim, para que tudo saia nos conformes.

Deus salve os stewards.

Stewards não se distraem ou olham para os lados. Para trás, o campo, nem pensar. (Penso nos cavalos obrigados a usar anteolhos, para que enxerguem somente o caminho à frente.) Stewards não estão ali para torcer. Não assistem um minuto sequer dos noventa. Sentem que tem gol a caminho pelo crescendo da galera. Sabem do lance perigoso porque a arquibancada treme. Veem refletidas no convexo coletivo dos olhos dos torcedores cada bola na trave, cada pênalti cobrado e pago à vista.

Stewards dispensam qualquer emoção, perdem os melhores lances, não acompanham a engenharia da partida. Sou eu que vejo, pela tela HD, a gota de suor na testa do jogador da Bélgica. Eu que decifro a tatuagem do Sneijder. Eu que testemunho a L3 do Neymar ir para o beleléu. Stewards vão à Roma e veem o Papa pelo replay.

Stewards são impávidos. Stewards não comemoram. Stewards não tiram selfies. Stewards não paqueram as musas. Stewards são os excluídos da festa. Foram convidados mas não podem dançar, nem tomar umas. Estão de castigo. Lembram? Antigamente, colocavam-se as crianças de castigo viradas para a parede. A torcida é a parede do steward.

Stewards não roem as unhas, não agitam bandeiras, não xingam, não rezam. Mas também não infartam. O que os olhos não veem, o coração não sente.

Stewards são muitos, uniformizados, mas é como se não estivessem ali. A invisibilidade é verde e laranja.

Deus salve os stewards.


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