Eu, o Tempo

Arte: João Grando

Disse ele, n’algum dia desses:

“Vou lhe explicar, pessoa, por que não retorno ao ontem, nem demoro-me no hoje, tampouco antecipo-me ao amanhã. São justamente os verbos que jamais conjugo.

Ainda que resolvesse fazê-lo, perceba o caos: a feijoada da sexta, o casamento do sábado, a missa do domingo, nenhum deles teria início, nem fim. Só um eterno e desesperador durante.

Relógios endoideceriam. As horas, embaraçadas, confundiriam os minutos. Atos e acontecimentos acomodariam-se num único segundo, condenados a um gerúndio maldito.

O nascimento quedaria distante do parto. A morte não daria cabo da vida, como é de sua natureza. Super-heróis não salvariam o mundo que, por sua vez, não careceria ser salvo (ou viveria em permanente perigo). O Papa reproduziria o gesto da bênção para todo sempre, e os fiéis não teriam o que fazer com ela.

E, caso me dispusesse a atender tantas súplicas a mim dirigidas, a quem deveria dar ouvidos? Ao homem arrependido, à mulher apaixonada ou ao filho ansioso? Cada um tem seu desejo particular de conjugação. Não. Não correria o risco de importunar a Justiça, que em mim deposita tanta confiança.

Seria a era do tiro que perdura, da dor que não cessa, da oração sem amém. Do penne nunca al dente, do bife nunca ao ponto, da água nunca vinho. Nada de pouso ou decolagem. Nem partida, nem chegada. Dia e noite convertidos a uma só massa. O sinal verde sem vez, o vermelho reinante, o amarelo confuso e mais seis combinações possíveis para cada um – todas sem desfecho algum.

Portanto, pessoa, aceite: não sou seu, nem de ninguém. Nem às coisas, sequer, pertenço. Sou livre e desvencilhado, solitário e feliz. Sou aquele que arrebata, incomoda e salva.

Não dispenda sua força ao implorar por mundanices. Não reivindique que o final de semana se prolongue ou que o relógio custe a despertar ao amanhecer da segunda-feira; que a aula seja breve ou que o beijo não finde. De nada adiantarão suas rogativas, desconheço a compaixão. Faço o que quero. E sei o que faço”.

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