A que será que se destina (uma crônica autorizada)

Ade McO-Campbell

“Você chegou ao seu destino”. Apertou os olhos, conferiu o número da casa. Desligou o motor, desconectou o GPS. Apanhou no banco a carteira – só carteira, bolsa não havia, nunca há – e desceu.

Fez reconhecimento visual da rua. Nunca fora para aqueles lados, apesar de ter vivido a infância ali perto. Mas a dica era quente, “a mulher lê um tarô que é coisa de Deus”, diziam as moças do escritório. “Ou do Diabo”, pensou, enquanto trancava o carro. Pagaria para ver. Precisamente, duzentos e cinquenta reais em dinheiro vivo. Não aceitava cheques.

Em instantes, estaria diante também de outro destino: o seu. Tocou a campainha, o cão latiu nos fundos. A mulher surgiu no vitrô, já a esperava. Convidou-a para entrar. “Quem lê cartas é uma espécie de GPS”, pensou, observando os móveis muito antigos dispostos ao longo do corredor. O satélite, no caso, é o baralho. Feito de papel-cartão, colorido, misterioso, letras, números, símbolos. Com ele, a mulher seria capaz de indicar-lhe o melhor caminho (mais curto ou mais rápido) para chegar ao seu destino.

E desde quando se chega a um destino, se ele se move o tempo todo?

Destino vira, fácil, fácil, desatino. E, hoje, destino não se contenta mais com baralho, borra de café, horóscopo, palma de mão. Rendeu-se à tecnologia do GPS. O destino é moderno.

Sentaram-se frente a frente, diante da pequena mesa coberta com pano alaranjado de bordados dourados. A mulher sorriu, embaralhando as cartas: “Me fale um pouco de você”.

Agora ela teria que fornecer algumas coordenadas, sua posição no universo. Quem era, a que vinha. A única informação saiu em meio a um sorriso, no tom do pano: “As coisas não vão muito bem…”

Isso a mulher sabia. Ninguém a procurava quando tudo ia bem. Assim como ninguém usa GPS se conhece o trajeto. (Às vezes, usa; só para confirmar se o caminho que conhece é mesmo o melhor. Com a mulher das cartas também acontece, vez por outra, de apenas precisar comprovar o que o consulente já sabe.)

Ela tentava organizar as perguntas que faziam bagunça na sua cabeça, mas não conseguia. “É que ando meio perdida…”. Não fosse a ajuda do GPS, ela também teria se perdido ao tentar chegar ali. Ainda que já houvesse morado no bairro. Que destino tivera sua memória? Sabia, no entanto, que esquecera de atualizar seu mapa de vida.

Conversaram por mais de hora. O caminho estava dado. Se ela insistisse em ignorá-lo, sua rota seria recalculada, o tempo todo. E nunca chegaria a lugar algum.

Pagou com cinco notas de cinquenta e agradeceu. A mulher a acompanhou até o portão, despediram-se. O cão, em silêncio; anunciara a chegada, mas não a partida. Seria uma mais importante que a outra?

Entrou no carro, conectou o GPS e o desconectou em seguida. “Não precisa”, ponderou. Voltar é sempre mais fácil.

Para N.

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3 responses to “A que será que se destina (uma crônica autorizada)

  • herren1975

    Silmara, sua linda! Adorei a cara nova do blog, que nem sei se é tão nova assim, fiquei tanto tempo sem visitar… Ainda bem que me encontrei e lembrei de vc. Vou me deliciar com cada palavra.

  • Claudinha

    Oi Silmara, tudo bem?!
    Voltei a ativa com meu blog que estava abandonadinho e o seu foi o primeiro que visitei.
    Ótimo esse texto, GPS, cartomante, memória, universo feminino total…
    Agora preciso atualizar a leitura pq vc andou ocupada hein, hehehe. Parabéns!!
    Bjss, Clau.

  • Rose Hashinaga D'Arce

    Sil, você escreveu pra alguém esta crônica?
    Ontem mesmo eu tinha comentado que precisava voltar na “mulher do tarô” :) … mas como acho que as coisas vão bem, eu acabo desligando o GPS e me deixando levar …..

    Beijão
    Rose

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