Hello, Win!

Ilustração: Luísa Cortesão/Flickr.com

A rendição: chegar com o porta-malas cheio de gostosuras, enfeitar a frente da casa com teias e fantasminhas, maquiar uma bruxinha loura e paramentar um vampirinho banguelo.

A confissão: não nutrir simpatia pelo Halloween.

Não é falta de apreço pelas bruxas. São minhas velhas conhecidas, desde o berço. Já esperei (em vão) a Cuca me pegar, torci pela Branca de Neve e brinquei de fazer poção no caldeirão onde minha mãe cozinhava feijão. Aprendi a ler com a Madame Min, Maga Patalójika, Meméia e Alcéia. Cresci e, ao estudar a inquisição, passei a ver as bruxas de outra forma – mais compassiva que temerosa. Quis (e ainda quero) os poderes da Samantha. Não me desagrada a ideia de uma festa em homenagem a elas. Apenas me falta memória afetiva.

As abóboras da minha infância faziam parte de outra história, a da Cinderela. As bruxas habitavam outras paragens. Meus fantasmas, nem sempre camaradas, se enfiavam sob minha cama e só não me pegavam porque eu era mais rápida. E nenhum deles batia à minha porta em busca de guloseimas. Isso era lá com Cosme e Damião. Mesmo sem saber uma vírgula sobre a história dos santos, eu ficava feliz em ganhar doces no dia deles. Folclore é assim: a gente vive o mito porque sempre foi assim, depois é que vai descobrindo do que se trata. No Halloween, que tem suas origens mas não nasceu aqui, o caminho é outro: primeiro a gente copia e mais para frente internaliza, num folclore às avessas.

Carnaval, Festa Junina, Bumba-meu-boi e Saci-Pererê estão inscritos no meu DNA. Nem preciso explicá-los demais às crianças, elas entendem, sabem desde sempre. A gente dá o input e a memória ancestral faz o resto. Meu filho veio perguntar como se escrevia Halloween. Estava com dúvida se era com dois éles, estranhou os dois ês, quis saber porque o h tinha som de r. Folclore legítimo de um povo não carece de tanta explicação.

A vizinha, uma bruxinha de setenta centímetros de altura, tocou a campainha. Atendi. Ela disparou a traduzida “Doces ou travessuras!”. Não lhe dei nada e desafiei: “Travessura!” Achei que ela fosse aprontar, fazer traquinagem, enfim, cumprir a ameaça. Que nada. Deu uma risadinha e levantou voo em sua vassourinha, levando seu baldinho de caveira já repleto de pirulitos. Ela não estava preparada para a alternativa b.

São vários os esforços para nos enfiar a tradição goela abaixo. Inventaram até Halloween Sertanejo. É compreensível. Quase tudo que é importado precisa de certa tropicalização para emplacar. Rede de cafeteria norteamericana, aqui, tem que ter pão de queijo. A diferença: pão de queijo é uma delícia.

Se o “Trick or treat” sobreviverá, a próxima geração é quem vai dizer. Que não se duvide das bruxas, porém. Elas não estão à prova.

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5 responses to “Hello, Win!

  • Patricia Sato

    Sil,

    Adorei este texto, compartilho com tudo o que vc escreve! Acho meio ridiculo essa historia de halloween no Brasil. Estou passando uma temporada aqui em Washington DC por conta dos estudos do meu marido, e o lance das aboboras nessa época se dá pela fartura da mesma nessa época do ano. Adorei o texto.
    beijos

    A menina do penico cor de rosa,

    Pati Sato

  • Bel

    Sil, penso igual. Mas ainda bem que meus filhotes já estão adultos e se quiserem comemorar halloween será de outro jeito (talvez pior… ).
    De minha parte, fiquei com Drummond, e agradeci a Lutero suas 95 teses, que se resumem em Solo Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura e Soli Deo Gloria.
    Beijo enorme!

  • Dani

    Oi Sil, faz tempo que não passo por aqui, as muitas fraldas sujas, risos desdentados e chorinhos ocupam parte do meu dia, a outra parte ainda é do Gugui…. mas prometo atualizar a leitura logo mais.

    beijos

  • Fabiana Vasconcelos

    Silmara, os seus textos tinham que ganhar o mundo! Eu, aqui na America, me vesti de pirata para atender a porta com um balde de doces. A vizinhanca agradece, as criancas sorriem, acham engracado eu estar fantasiada. O triste e que nao existe historia por tras, e a unica oportunidade do ano do vizinho bater a sua porta e ser recebido com um sorriso e ainda levar alguma coisa. No meu coracao, saci-perere, bumba-meu-boi e a Cuca sao muito mais significativos. Obrigada pelo texto maravilhoso!! Beijos, Fabiana

    • Nina

      Fabiana! It’s not true when you say there is no history behind it. The origins go way back to the celts. It was a pagan festival! Just Google it and you will find out. But it is true and sad some people wait for one single opportunity to knock on your door and make contact. Even sadder is not to follow it through. Nina

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