A enceradeira
04 out 2011 8 Comentários
em Crônicas Tags:cera, comportamento, enceradeira, família, mãe, memórias, tecnologia, tempo, trabalho doméstico
Toda casa que se prezasse tinha enceradeira. A dona do lar precisava do trambolhento aparato – fosse presente de casamento ou adquirida em suaves prestações – para dar lustro ao piso e mostrar às visitas o quão zelosa era. Minha mãe caiu nesse conto. Todas as mulheres de sua geração, aliás. Não sei se a armação foi dos fabricantes de cera ou dos maridos que pretendiam manter as esposas ocupadas. E pensar que o advento da engenhoca foi a redenção; antes o brilho era conquistado no muque.
Eram duas. Uma, do tempo da minha avó. Outra, da época da minha mãe. A primeira era pesada, incômoda, antiquada (enceradeira e vovó). A segunda era mais leve, agradável, moderna (enceradeira e mamãe). A primeira tinha dupla função: de tão grande, cabia uma criança montada nela. Dia de faxina era sinônimo de farra, dia de andar de enceradeira. Mas só um pouquinho; dependia do humor de quem guiava a geringonça. Um verdadeiro bólido. Ou tanque de guerra. Uma arma, talvez.
Conta a lenda que as visitas exclamavam: em casa, se via dois gatos no chão. Um, propriamente dito, e outro, reflexo do primeiro. Obra do Synteko, da enceradeira e do esmero de Dona Angelina. Eu, iniciante no mundo do espelho de Alice, achava aquilo bem curioso. Até eu existia em dobro, portanto.
Minhas visitas, hoje, também dizem o mesmo. A diferença é que elas realmente veem muitos gatos. Todos de verdade. Nesse quesito, a única tradição na família que teve continuidade. Melhor assim.
A enceradeira é o símbolo cabal de que o compasso do tempo já foi outro. Ah, havia mais dele na vida de qualquer ser – homem ou mulher. A era dos assoalhos impecáveis, panelas areadas, roupas quaradas e engomadas. Onde isso, hoje? Preenchemos o tempo livre proporcionado pelas traquitanas elétricas e eletrônicas com outras necessidades. Inventamos outras areações, quarações e engomações para ocupar o tempo. Queremos mostrar o quê para quem? Urge descobrir de quem é a armação agora.
Queria mesmo era passear de enceradeira de novo.



out 31, 2011 @ 11:30:38
Em casa tinha uma marrom. Eu gostava de girar com ela parada! Mas gostava mesmo de deslizar pelo corredor com o pano velho de tirar pó. Minha mãe não gostava, mesmo o chão ficando limpinho. O que não acontecia com as meias, as camisetas, as bermudas… rs
PS. Só eu achei super divertida a nova utilidade da enceradeira da mãe da Cecília???
out 06, 2011 @ 08:46:31
Silmara, a enceradeira da minha mãe acabou parando aqui em casa. Do quartinho da área de serviço ela passou pro meu quarto, onde agora é o cabide que pendura meus colares, rs.
Se vc quiser acho que ela ainda aguenta dar uma voltinha, rs.
Beijos, querida, que delícia encontrar você assim.
out 05, 2011 @ 21:29:49
Ah que saudades destes equipamentos, e o melhor de tudo era colocar um disco na vitrola e dançar encerando, encerando e sentindo cheirinho gostoso da cêra, e do òleo de Peroba nos móveis …È por causa deste tempo que hoje eu fiquei viciada em limpeza e chão brilhando ainda bem que temos os modernso porcelanatos…
Ah posso te dar uma sugestão ensinar online , para agente aprender escrever bonito que nem vc…bjs,bjs e Boas Vibrações
out 04, 2011 @ 23:54:44
Passear de enceradeira na modernidade só depende de duas coisas: imaginação e capacidade de desligar as tomadas das traquitanas modernas que invadem nossos dias!
Bjs
out 04, 2011 @ 14:55:30
Eu sonhava em passear na enceradeira da mamãe! Acho que, pelo menos no meu facebook, as pessoas estão preocupadas em mostrar o quanto estão felizes. O triste é que a gente sabe que não estão.
out 04, 2011 @ 10:30:33
na casa da minha mãe tinha escovão… era um negócio pesado pra burro, haja muque pra usar aquele trambolho… mas lembro de uma época, eu devia ter uns 8 anos… minha mãe trabalhou em clube da minha cidade e a moça da limpeza me colocava sentada sobre a enceradeira e encerava aquele salão imenso… ficava brilhando… enquanto a enceradeira rodava eu sonhava em ser bailarina… hummmm lembrei de mais uma coisa… lá, eu andava no elevador da bebida… era uma traquitana que subia e descia por um buraco no teto, que levava ao estoque… e eu dentro de uma caixa de madeira que eles usavam para repor a bebida no bar… Meu Deus… vc tem uma maquinha do tempo aí na caxola, que ativa nossas lembranças mais estranhas e gostosas!!!
beijão Silmara!
Josi
out 04, 2011 @ 10:13:44
Eu tb… saudades de passear de enceradeira…
out 04, 2011 @ 09:08:15
Nossa Sil, viajei no tempo agora…. Realmente era mto bom o dia de encerar a casa. Tivemos dois tipos de enceradeira: uma com uma flanela só embaixo, e outra com três (acho que essa era a mais moderna…).A casa realmente ficava brilhando… Só não podia ter um taco meio solto, não é? e o escovão antes da enceradeira? Era o pior… Super pesado… Mas tudo era festa, pelo menos p nós, crianças. Hoje as coisas são mto mais fáceis, com panos úmidos deixamos o chão brilhando, e assim temos tempo p vir ao pc ler suas pérolas….. Ainda bem…. Adoro! Bjs!!!