Quem precisa da Supernanny?

Zapeio a TV para cima e para baixo. Não resisto: estaciono num daqueles reality shows de babá. A gente gosta de saber que outros pais também se estrepam com uma cria levada da breca. É um espelho. Eles nos fazem sentir, digamos, menos só nesse oceano de águas nem sempre calmas da maternidade (paternidade também). As cenas são assustadoramente familiares. Ao final, porém, há algo que incomoda. A serviço de quem, exatamente, estão esses programas? Dos pais e mães desesperados com sua prole indomada, ou dos psiquiatras, psicólogos, fabricantes de Florais de Bach, benzedeiras, enfim, a turma para quem dá vontade de correr pedindo ajuda, já que (quase) nada sugerido pela Superbabá funciona, efetivamente, numa casa?

Termino de assistir, com a sincera fé que bastarão um quadro pregado na parede com a nossa nova rotina de horários e atividades, uma lista de combinados pode-não-pode, uma sessão vapt-vupt de terapia, e plim! Nossos pequenos virarão anjinhos de candura e atenderão, sem pestanejar, ao chamado para a hora de nanar; eu e meu marido estaremos aptos a negociar com sabedoria impecável quanto tempo eles ainda podem ver TV antes de fazer a lição; e a imposição de limites será tão simples quanto ensinar o gato que ele não pode subir na pia da cozinha. Tudo no prazo de uma semana! Confesse: você já caiu no conto da Superbabá.

A Superbabá, aliás, tem esse nome porque, na verdade, trata-se de uma entidade com poderes de super-herói, e como tal, inacessíveis aos humanos. Quando um prédio vai desmoronar, ou um trem com centenas de criancinhas está prestes a descarrilar, o Homem Aranha ou o Capitão América aparecem. Da mesma forma, se o mais velho resolve guardar o caçula na geladeira (porque está calor), e depois se esquece dele, a Superbabá vem voando. Mas a vida, acredite, não é um HQ.

Reality shows de babá são como as revistas de moda. A gente compra na banca, senta na poltrona da sala com um cafezinho ao lado e vai folheando, assistindo as dicas. Quando resolvemos adquirir aquela saia longa maravilhosa, e a vestimos em casa, vemos que ela não ficou igual à modelo na foto. Ficou diferente. A saia é a mesma, mas cada corpo é único. Assim é cada família. Apesar das semelhanças entre elas, cada uma tem seu mecanismo, sua história, seus cenários. Photoshop não funciona numa família. E não dá para ficar chamando a Mulher Maravilha a toda hora. (Ela também deve ter lá os seus afazeres de mulher comum, nas horas vagas.)

O que esses programas desejam, no fundo, é um plano maquiavélico: instalar nas casas uma caricatura de família perfeita, igual àqueles adesivos grudados na traseira de nove em cada dez carros circulando pela cidade. Neles, toda felicidade é possível – e exibível. Qualquer conflito é reduzido a quase zero, resolvido num piscar de olhos com uma solução-padrão. Eles se esquecem que filho só é razoavelmente programável enquanto ainda está na barriga. Bebê-conforto, no máximo. E olhe lá.

Não tenho o tal adesivo no meu carro. Nunca chamamos uma Superbabá para escarafunchar a intimidade do nosso lar. Jamais exporíamos, em território nacional, as nossas mazelas. Talvez, por isso, continuamos cortando um dobrado para convencer os filhos a tomar banho. Isso é reality. Não é show.

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[Nota: para comentar, por favor, clique em "Comentários" e role a página até o finalzão. É lá que fica agora a caixinha de comentários, e não mais logo abaixo do post. Bem embaixo da mensagem "Obrigada pela visita". É só teclar control + end. Ficou meio ruim, eu sei. Mas o WordPress é assim. Sorry!] 

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9 responses to “Quem precisa da Supernanny?

  • Luciana

    Ah, Sil, não me diga que as dicas da Superbabá não funcionam!! Sério?!? Puxa, e eu assistindo com tanta fé, me preparando para quando tiver filhos… Tô frita!! :-P

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  • paula mello

    Querida Silmara
    Também não tenho o bendito adesivo no carro. Acho que sempre fui meio do contra, não gosto desse padrão global de televisão nem de vida. Aliás, Rede Globo não entra aqui em casa.
    Eu posso ser tão xiita quando condescendente, e quer saber? Para quem se espanta, eu simplesmente digo: os filhos são meus, faço como quero e como entendo ser certo. Porque no final, quem vai pagar as contas sou eu certo?
    E tento pensar que um dia eles crescerão de vez e vão encarar a vida. E este dia está perto, putz!!
    Não existe a solução. Existe apenas a tentativa. Não me venham com essa de supermãe, super isso, super aquilo. O que é super tá fora do meu alcance, seja porque não posso pagar, seja porque seja irreal.
    É a mesma coisa daquele bordão do “tempo de qualidade”. Desculpe, eu acho que isso não existe. Como meu pai dizia, se não quer ter trabalho, não tenha filhos. Ele teve 3 e eu também,..
    Então… Que a gente possa só curtir a infância dos filhos, dar o nosso melhor sempre e deixar o resto que a vida se encarregue. Que a gente possa não repetir os erros da educação que recebemos, embora nossos pais também tenham feito o que sabiam e que a gente possa deixar ao mundo boas pessoas. Só isso já tá bom demais :)

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  • Núbia Ferreira

    Oi Silmara,

    Seu texto é bem bacana e bem realista. Supernany que nada… Cada um tem o seu jeito próprio de lidar com as traquinagens. Dia desses eu descabelei, no outro gritei, no outro, tava dando risada da criatividade de meu filho ao aprontar em casa… (ele tem 10 anos). A vida real é tudo de bom e esses programinhas com fórmulas prontas que não funcionam não estão com nenhuma audiência lá em casa…
    Beijinhos,

    P.S. Olha só, dá certo sim. É só vir no finalzinho da página e pronto. Aqui está o comentário. É meio chatinho, mas é só ter paciência e ir rolando a página que chega aqui.

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  • arianna

    Oi Silmara! Qualquer semelhança da sua vida com a minha não é mera coincidência! Tomar banho, escovar os dentes, sentar-se para tomar as refeições… a lista é grande! A gente vai aprendendo, no dia-a-dia, à lidar com essa nossa meninada. Também fomos crianças e eu, pelo que a mama fala, não fui santa. A idade os ensinará como nos ensinou. Supernanny? Como foi que nossos antepassados sobreviveram sem ela?

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  • Dinah

    Silmara,
    Muito boa crônica! Sabe que de vez em quando assistia aos programas da Supernanny? Mas o ‘cantinho da disciplina’ é que me espantava mais…que criança ia ficar ali paradinha, cumprindo pena??? só na Tv mesmo. Imagina quanto tempo levaram só pra conseguir uma cena da criança quietinha naquele canto! Mas é divertido ver as mães descontroladas (a gente fica assim mesmo, com cara de doida), vc há de concordar.
    E de perto ninguém é normal. Nem a supernanny! E viva as turras em família!
    um beijo

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  • dani

    risos sobre os comentários! e agora os meus comentários:
    É, só na barriga dá para programar e olhe lá (Isa está programada para dia 06/09, mas se ela resolver sair antes, que se há de fazer?).
    A única parte da superbabá que funcionou aqui em casa, foi o tal do dar 1 pré-aviso e se nao resolver botar o guri sentado em um lugar ‘ermo’, olhar no olho, com cara de quem quer matar e explicar doce e seriamente que não tal atitude não pode se repetir e deixar lá, um tiquinho de tempo, até a fúria passar, pq é óbvio que ele não está refletindo sobre o que fez, mas sim esperando o tempo passar.
    Confesso que o Gustavo é muito bonzinho e geralmente obedece no primeiro ‘mandamento’ mas filhos são filhos e famílias são únicas. Cada qual com seu igual (ou diferente) surtanto à sua maneira né?
    Também não tenho o tal adesivo chama ladrão para me sequestrar, com o riso imóvel e feliz e posso dizer que casa com criança é uma alegria até quando passa pelo purgatório da gritaria… como um bom reality, rs

    beijocas

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  • Rose Hashinaga D'Arce

    Sil,

    É isso mesmo! Só rolar até o fim que aparece para deixar uma resposta ….
    Resolvi responder por aqui, pra não deixar você falando sozinha …

    Toda vez que eu assisto Supernanny, tenho certeza de que ela não tem filhos :-)
    Em casa também, a própria Nat fala … “ihiiii… tem que chamar a Supernanny, porque tá tudo bagunçado por aqui” … mas pergunta se ela arruma? E a casa continua muito mais reality do que show … texto perfeito, como sempre! Amei!

    beijão
    Rose

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  • Silmara Franco

    Ué, gente. Foi!
    Precisa rolar a página até o fim para aparecer o box de “deixar uma resposta”. Será que é isso?
    Xi. Tô falando sozinha, o caso é grave.

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  • Silmara Franco

    Isto é um teste. Eu mesma estou comentando no meu blog, para ver se há algum problema por aqui. Muitas pessoas têm reclamado que não têm conseguido comentar… Vamos ver se vai!

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